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quinta-feira, 27 de abril de 2017

The circle of life goes on...


25 de Abril de 2017, 15:12



segunda-feira, 24 de abril de 2017

O inimigo agora é outro

Homeland é fora do comum.

Após concluir satisfatoriamente um arco principal que foi o condutor de suas três primeiras temporadas, a série conseguiu se reinventar e voltar igualmente relevante e tensa em suas quarta e quinta temporadas. Seu sucesso se sustenta principalmente em bons personagens, amparados por excelentes atuações e roteiros redondos, que entretêm ao mesmo tempo em que discutem temas atuais.


Quando a corrida presidencial estadounidense ainda estava em sua fase inicial, foi anunciado que a sexta temporada acompanharia os momentos logo após a eleição da primeira presidente mulher nos EUA. Assim, com Hillary Clinton liderando as pesquisas de intenção de voto e Donald Trump parecendo um pesadelo distante e improvável, tudo indicava que Homeland retornaria mais pertinente do que nunca. A eleição de Trump e a mudança de cenário na série geraram desconfiança, mas, mesmo com dois primeiros episódios mornos, a temporada provou que a ficção não precisa seguir fielmente a realidade para tocar nas feridas certas. Ou que tocar nas feridas erradas é igualmente eficaz.

E a série da Showtime também consegue escalar a tensão em dramas mais pessoais, fazendo de situações dentro de um lar ou em um tribunal verdadeiras bombas-relógio e que, mesmo sem explosões literais, acabam despedaçando emocionalmente personagens e espectadores. O elenco, liderado por Claire Daines, continua afiado e a temporada ainda permite a Rupert Friend dar uma nuance a mais para seu Peter Quinn. Indicações ao Emmy e ao Globo de Ouro para ele seriam mais que merecidas.

Quem abandonou a série em algum momento, apostou errado. Entre altos e baixos, Homeland ainda vale pelos seus vários e significativos altos.


Homeland (6a.Temporada), 2017




domingo, 23 de abril de 2017

O perigoso chefinho


Hoje, dois dias depois de ter ido a cinema e dois dias antes da data marcada para seu irmãozinho chegar ao mundo, meu filho me perguntou: "E se ele [o irmãozinho] for igual ao Poderoso Chefinho?"

A pergunta veio de forma natural e sem qualquer sinal de receio ou ciúme. Não dá para saber se ele se referia ao elemento temático do filme, de que irmão mais velho sempre teme que o caçula vá chegar tomando seu espaço - físico, na casa, e figurado, no coração dos pais -, ou se referia à uma manifestação literal da alegoria usada no filme: de um bebê já falando e se portando como um adulto.


Seja qual for, ambos materializam a inquietação que tive com esta mais recente animação da DreamWorks. De cabo a rabo, o filme traz situações e ideias (mesmo que sob a imaginação de uma criança de 7 anos) preocupantes, considerando seu público alvo. A mensagem final é recompensadora, mas quase tudo até ali beira o inadequado. Talvez o filme seja na verdade destinado a uma plateia um pouco mais madura, como foi Olhe Quem Está Falando na década de 1980, mas os realizadores não contaram isso pra ninguém e o venderam como um filme infantil. Sim, ao longo da projeção os pequenos se divertem, mas a DreamWorks não é nenhuma Pixar e falta muita sensibilidade e cuidado em suas abordagens.

O alento é que, se conseguirem deixar a apreensão de lado, pelo menos os pais podem se divertir um pouco junto, principalmente com as incansáveis (e muitas vezes escondidas) referências culturais e cinematográficas.


O Poderoso Chefinho (The Boss Baby), 2017




quinta-feira, 20 de abril de 2017

Smurfs e a uma hora e meia perdida

(voz de Sérgio Chapelin)

Esta noite no Globo Repórter...

(tema musical clássico do Globo Repórter)

Smurfs.

De onde vieram? Para onde vão? Onde vivem? Como se reproduzem? Por que cada um tem um nome associado à uma característica? É o nome que define cada um, ou é o contrário? Eles são os únicos de sua espécie no mundo?


No filme de hoje, Smurfs e a Vila Perdida, você vai conhecer o estranho caso da comunidade que só tem Smurfs meninas (spoiler! - whatever). Além de todas as suas perguntas usuais não serem respondidas, mais perguntas surgirão.

Você vai ver também um Gargamel totalmente sem graça e apenas dedicado à vilania em uma trama mais que batida. E vai se espantar como que os realizadores acreditam que filmes infantis de hoje em dia não precisam de substância e que basta tornar o mundo azul mais colorido e agitado, inserindo humor físico para arrancar risadas fáceis dos pequenos.

Tente não se entendiar... esta noite, no Globo Repórter.

(fade out do tema musical)


Smurfs e a Vila Perdida (Smurfs: The Lost Village), 2017




quinta-feira, 13 de abril de 2017

Nunca canso de ouvir


E ver isso ao vivo, desse jeito, seria mágico:


Mais sensacional seria se fosse o próprio John Williams ali fantasiado.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Lei de Lavoisier no cinema?


Hollywood fez uma refilmagem de O Segredo dos Seus Olhos, o longa argentino vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro em 2010. Hollywood está fazendo uma refilmagem de Intocáveis, o longa francês indicado ao Globo de Ouro de Filme Estrangeiro em 2013. Hollywood vai fazer uma refilmagem de Toni Eerdmann, o longa alemão indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro esse ano.

Os exemplos são inúmeros e as reações são sempre as mesmas: "Desnecessário!"; "Pra quê???"; "Não tem como ser melhor..."; "É preguiça de ler legenda?".

Malditos americanos. Certo?

Hmmmm...

Aí, num clica aqui, clica ali do IMDb a pessoa descobre a existência de Gôsuto:


Sim, uma refilmagem japonesa de Ghost: Do Outro Lado da Vida.



E com uns cliques a mais:





Isso só pra pegar umas amostras do eixo China/ Japão.

Se for verificar o que se passa na Índia, são incontáveis as releituras americanas feitas por Bollywood.

Alguns exemplos?






É... agora a turma do Tio Sam não parece tão má assim.


sábado, 25 de março de 2017

Fragmentos de um todo

AVISO: se você gosta dos principais filmes de M. Night Shyamalan, evite este texto a qualquer custo e corra para o cinema para assistir Fragmentado. Se você não está familiarizado com a filmografia deste diretor, ou é daqueles que passaram a menosprezar até mesmo suas primeiras obras, então talvez Fragmentado não seja para você. Nem muito menos esta resenha.


Depois de apanhar (exageradamente) da crítica com A Dama na Água, Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra, o diretor-roteirista M. Night Shyamalan parecia ter sido renegado às margens de Hollywood. Focou um pouco na TV, com a interessante série Wayward Pines, e foi preciso uma parceria com o "midas das produções de terror de baixo custo", Jason Blum, para retornar à telona em 2015 com A Visita.

O filme foi um sucesso, dadas as devidas proporções, e acabou tirando um pouco da desconfiança que pairava sobre Shyamalan.  Assim, a dupla se reuniu para Fragmentado, divulgado como um suspense sobre um homem com 23 personalidades que sequestra três jovens.

Em boa parte, e por vários motivos, o filme lembra muito o ótimo Rua Cloverfield, 10, mas sem atingir o mesmo nível de tensão. Há inquietude, mistério e, sobretudo, uma inesquecível atuação de James McAvoy como o portador do transtorno. Mas, Fragmentado sofre dos riscos associados à mudança abrupta de gênero, já que no ato derradeiro aparentemente assume tons sobrenaturais, fazendo uma transição de suspense psicológico para terror. Com o desfecho, M. Night parece ter entregue um filme B moderno, que vale a jornada e que renderia à produção o status de "bom".


Só que só isso não é suficiente pro cineasta.

Os créditos finais nem começam e já é apresentada uma cena extra. Um epílogo que é a grande reviravolta que todos esperam de um bom Shyamalan. Aqui aparece Bruce Willis como seu personagem de Corpo Fechado, David Dunn, não só fazendo uma ponta curiosa, mas permitindo toda uma nova releitura de Fragmentado. E que muda seu status de "bom" para "muito bom".

No entanto, esta guinada pode não agradar nem ser entendida por parte do público. Na minha sessão, enquanto eu olhava para os créditos finais com um enorme sorriso no rosto matutando como que Shyamalan tinha conseguido pregar esta peça, reparei que dois casais também permaneceram na sala, conversando entre si, muito confusos. Ouvi coisas como "Não entendi, será que ele virou aquele cara ali?", "Será que ele era esse tal Sr. Vidro?", "Achei ele muito parecido com Bruce Willis, será que era ele?". Eles esperaram por uma esclarecedora cena pós-créditos e, ao constatar que ela não existia, um disse: "É, este filme não é nenhum Marvel."

O que é irônico, pois ele é muito mais parecido com a Marvel do que qualquer um poderia ter imaginado.

Primeiro porque, com o epílogo, o filme deixou de ser um terror B para novamente mudar de gênero e virar um filme de super-herói. Bem como Corpo Fechado, Fragmentado é um filme de origem, do vilão A Horda e, entendo, também de uma nova heroína. Afinal, toda aquela bagagem pesada e (desnecessariamente?) sombria da personagem de Anya Taylor-Joy (que aqui não brilha como em A Bruxa, mas tem participação sólida) não pode ter sido só para salvá-la no final ou para justificar que ela saberia usar uma espingarda. E, detalhe: Casey Cook tem iniciais repetidas, assim como o diretor fez 17 anos atrás para dar dica de que David Dunn era um super-herói, seguindo um certo padrão de identidades secretas: Peter Parker, Bruce Banner, Matt Murdock, Lex Luthor, Clark Kent (por que não?) e por aí vai...

E em segundo lugar porque, assim como a Marvel criou o seu chamado MCU (Marvel Cinematic Universe), Shyamalan tirou da manga uma espécie de... perdão, sei que não vai soar bem... UCU (Unbreakable Cinematic Universe). E não foi um truque barato, mas algo bem elaborado que envolveu esconder uma cena que não estava disponível no roteiro de ninguém e fazer um pedido pessoal a um manda-chuva da Disney para cessão de uso do personagem David Dunn.

Neste universo, pode-se deduzir que um acidente de trem matou o pai de Kevin em Fragmentado e que foi o mesmo ao qual David sobreviveu em Corpo Fechado? Sr. Vidro, vejam só, teria despertado não só um super-herói, mas também um (outro) supervilão, já que o pai de Kevin "entrar num trem e nunca mais voltar" foi o que desencadeou os abusos da mãe e, por consequência, suas múltiplas personalidades. E há uma cena em Corpo Fechado em que David Dunn está no estádio descobrindo seu poder de "detecção de pessoas más" e depois que esbarra em uma mãe, fica fixamente observando-a puxar o filho pelo braço... Não seria Kevin ali?

Será que vamos descobrir que o tio de Casey não conseguiu pegá-la no restaurante no começo do filme porque ele deu uma esbarrada em David Dunn por aí? E aí quem foi buscá-la no carro da polícia no final era o próprio David se passando por tio, com o intuito de ser o mentor dela até que descubra seu superpoder? Acho que já divago demais.

De qualquer forma, existem várias possibilidades certamente promissoras na cabeça de M. Night e, nem que seja só por mais um filme - de uma trilogia, estou extremamente ansioso e empolgado para (perdão de novo) revisitar o UCU do Shyamalan.


Fragmentado (Split), 2017




sexta-feira, 24 de março de 2017

O começo da vida, animada


Circunstâncias (ou meu subconsciente, vai saber - Freud explica?) me levaram esta semana a assistir na Netflix dois documentários que formam uma dobradinha muito interessante. Um foi a produção nacional, fortemente recomendada, O Começo da Vida. O outro foi o indicado ao Oscar deste ano, Life, Animated.

Como o próprio título já insinua, O Começo da Vida foca nos primeiros meses e anos dos bebês e crianças, trazendo um retrato atual e propondo reflexões sobre a importância deste período para o desenvolvimento do ser humano e da sociedade como um todo. O conteúdo é rico e emocionante, mas o formato não foge do padrão de um documentário básico. Não que isso seja um fator primordial, mas não há nada que distinga esta obra de um trabalho destinado à TV ou à web.


Aliás, talvez ele funcionasse melhor como série, pois com tanto assunto para abordar, fica uma nítida sensação de superficialidade. Passando pelas novidades na área cognitiva e pelos mais variados tipos de casais, bebês e famílias, em condições sociais diversas e com culturas distintas, havia material suficiente (e suficientemente interessante) para um aprofundamento maior. Documentários normalmente são mais memoráveis quando dissecam a fundo um tema ou sujeito específico. E a especificidade muitas vezes acaba se mostrando um microcosmo de algo universal.

Mas, mesmo sem essa singularidade, o filme consegue ser sensível e comover (e por vezes partir o coração, mesmo), principalmente com suas belas imagens, embora algumas delas sejam sufocadas por sua trilha sonora. E assim também, a presença de Gisele Bündchen destoa negativamente, sufocando as pessoas comuns - tanto as que compartilham tela com ela, quanto às que a assistem. Enquanto todas as mães e pais têm seus momentos de interação com os filhos, a Sra. Perfeição aparece sempre sozinha, falando com toda a propriedade do mundo. Não seria melhor humanizá-la (e manter coerência com o resto do filme) também mostrando-a com os filhos? Será que ela não quis "expô-los"? Ou será que no momento da gravação eles estavam do outro lado do mundo com uma babá que ganha por mês mais que uma mãe trabalhadora ganha por ano no Brasil? Por mais que o discurso dela ali seja antimaterialista, fica difícil desassociar sua imagem de uma personagem e ignorar que trata-se de uma pessoa com recursos absurdos para criar filhos. Em detrimento à produção, que não pontua a condição da modelo (e nem sequer lhe dá uma legenda, claro, é óbvio que todos a conhecem), o contraste não intencional com algumas famílias que são apresentadas mais para o final do filme é estarrecedor. Seria mais válido deixá-la de fora e investir mais nos anônimos.

E os grandes momentos do filme são justamente os pequenos momentos, com os anônimos, quando a câmera parece desaparecer no ambiente e permite a imersão do público na cena, apenas para contemplar passagens cotidianas, mas não menos significativas. A espontaneidade da conversa de um menino com uma outra criança num playground, que traz uma revelação sobre sua família - tão natural para ele, é um desses momentos mágicos que só pôde ser captado porque a câmera simplesmente estava ali presente, sem seguir roteiro algum.

É esta presença-ausente da câmera um dos pontos fortes de Life, Animated.  A história de Owen Suskind aqui contada poderia muito bem ser conteúdo de uma versão mais longa de O Começo da Vida. O filme acompanha este jovem de 23 anos de idade se preparando para morar sem os pais pela primeira vez, enquanto relata também sua infância mesclando as tradicionais imagens de arquivo e entrevistas com inspiradas sequências de animação tradicional.


Sem entregar muito os desdobramentos de Life, Animated, pode-se dizer que o documentário lida com recursos que uma criança pode descobrir para superar dificuldades e limitações e ao mesmo tempo entender, se expressar e interagir com o mundo ao seu redor. No caso de Owen, os desenhos da Disney tiveram fator preponderante. Embora existam vertentes anti-Disney por aí, é inegável o formidável efeito benéfico sobre Owen. Quatro anos atrás comentei por aqui que os filmes têm poder transformador e às vezes parecem ser feitos para uma pessoa específica. Neste caso, não restam dúvidas de que a Disney fez e ainda faz parte daquela "vila inteira que é necessária para se criar uma criança", dita lá em O Começo da Vida. Existem as armadilhas do 'felizes para sempre', e Life, Animated não se esquiva disso. Mas, o visível brilho que aparece nos olhos de Owen quando assiste às animações é único e não se mostra presente, por exemplo, quando ele olha para sua namorada (na sua cabeça o seu 'feliz para sempre').

Estes dois filmes são obrigatórios para quem já tem filhos, e precisa sempre ser relembrado de agradecer a grande dádiva que recebeu, e também para quem não tem, e precisa ter uma noção da gigantesca responsabilidade que têm estas criaturas chamadas... seres humanos.


O Começo da Vida (nacional), 2016




Life, Animated (sem título oficial em português), 2016




terça-feira, 21 de março de 2017

Fragilidade


Enquanto foliões se acabavam no sábado de carnaval e cinéfilos se preparavam para o Oscar, o mundo do cinema perdia Bill Paxton. Aos 61 anos, o ator que marcou a década de 1990 com True Lies, Apollo 13, Twister e Titanic sofreu complicações de uma cirurgia cardíaca e veio a falecer.

Então, senti que era o momento de realizar a vontade antiga que eu tinha de assistir sua estreia como diretor no filme Frailty, de 2001, intitulado no Brasil como A Mão do Diabo (e, curiosamente -ou não- "Pela Mão do Senhor" em Portugal).


O longa tem praticamente todos os elementos necessários para um bom suspense (ou terror?). Falta um pouco de ritmo aqui e ali, mas o filme cumpre sua função de criar tensão e apreensão, além de entreter e conseguir surpreender. O principal desafio que o roteiro traz para o diretor é a grande dependência no desempenho de atores mirins. E estes, ao contrário de outros como o de O Sexto Sentido ou os de Stranger Things, não conseguem deixar de parecer forçados e pouco espontâneos. Cabe ao próprio Bill Paxton e, sobretudo, a Matthew McConaughey entregar boas atuações e dar o tom sombrio à narrativa.

Parte do charme do filme está na sua ambiguidade, no mistério de sobrenaturalidade versus insanidade. Só que ela é explorada com pouco eficácia, pois o diretor decide tomar partido com certas decisões nas composições de algumas das cenas finais e também na forma como determina comportamentos de um personagem secundário. Todavia, a "guerra" entre os títulos nacional e português expõe também uma outra ambiguidade presente na produção, além de evidenciar que "Fragilidade", tradução literal do título original, é o mais adequado.

Seja a fragilidade da mente humana frente à manipulação ou à pressão psicológica, seja a fragilidade da dicotomia entre o bem e o mal, existem camadas mais densas sob a fragilidade de diversos aspectos do roteiro. Um bocado a mais de sutileza para tratar estes pontos teria gerado um resultado melhor, mas o que foi alcançado já é superior à grande maioria de filmes similares.

A carreira de diretor de Bill Paxton não deslanchou e ele voltou a dirigir só mais um outro filme quatro anos mais tarde, O Melhor Jogo da História, com Shia LaBeouf no elenco. Mas, como ator esteve nos subvalorizados No Limite do Amanhã e O Abutre e ainda participou de séries como Agentes da S.H.I.E.L.D., Hatfield & McCoys (pela qual foi indicado ao Emmy) e Big Love (que lhe rendeu três indicações ao Globo de Ouro). Sua ausência será sentida.


 A Mão do Diabo (Frailty), 2001




sábado, 18 de março de 2017

Mudaram as estações


Produzido por três mulheres, escrito por duas (uma assinando o roteiro, com base no livro de uma outra) e com enorme presença feminina no elenco (com Emily Blunt encabeçando, Rebecca Ferguson e Haley Bennet em papéis cruciais para a trama, e ainda com os rostos reconhecíveis de Laura Prepon, Allison Janney e Lisa Kudrow em participações menores - que talvez em outras produções seriam substituídas por personagens masculinos), A Garota no Trem passa, com muita facilidade, no Teste de Bechdel.

Tão em voga na atualidade, o empoderamento feminino não está presente só nos bastidores da produção, mas reflete fortemente também na narrativa. Estereótipos, como a alcoólatra ou a mulher objeto, são quebrados e justificados com dignos arcos dramáticos, mesmo que alguns sejam talvez até dramáticos demais. A edição colabora com esta construção, mas as atuações são o verdadeiro carro-chefe. Não há dúvidas de que Emily Blunt (junto com Amy Adams, por A Chegada, claro) deveria ter figurado entre as indicadas ao Oscar de Melhor Atriz este ano.


Só que como história de mistério, o filme não funciona bem.

Um bom whodunnit é aquele em que o espectador tem a oportunidade de desvendar a trama junto com os personagens enquanto as dicas e pistas vão surgindo ao longo da história. Os melhores do gênero são aqueles que, quando o desfecho é revelado, a plateia é pega de surpresa e não se conforma de não ter ligado os pontos corretamente.

O primeiro erro de A Garota no Trem é demorar a chegar no grande mistério. Enquanto há o ganho com desenvolvimento de personagens, há perda no engajamento com o público. A estrutura de saltos temporais poderia ter sido explorada também para apresentar o crime mais cedo. O segundo, e pior, erro é que não há pistas verdadeiras, não há a opção do espectador participar. Quando, faltando meia hora para o fim do filme, surge a primeira revelação, o mistério se desmorona, a charada deixa de existir e tudo se arrasta até um desfecho padrão.

O diretor Tate Taylor se esforça para compensar essas falhas com a busca de um estilo próprio (que tem como exemplo uma interessante, mesmo que não inédita, tomada em que duas personagens dialogam em frente ao espelho, sem a câmera aparecer no reflexo). Mas, considerando que o livro foi um sucesso de vendas é de se acreditar que algo muito significativo se perdeu durante o processo de adaptação. Seria necessário ler a obra original para tentar entender. O problema é que após o filme se instaura o desinteresse em revisitar a história.


A Garota no Trem (The Girl on the Train), 2016




quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulheres


Neste Dia Internacional da Mulher, um momento para relembrar o Teste de Bechdel:


Claro que existem filmaços que não deixam de ser excelentes só porque não passam no teste, e a solução não é forçar um roteiro só para atender às regras básicas. Mas, vale uma reflexão geral sobre o cinema da atualidade.

sábado, 4 de março de 2017

Um por todos


Tema de um livro de 1967, uma H.Q. de 1994 e um documentário de 2004, a história do soldado americano Desmond Doss não era algo totalmente desconhecido para os interessados pela II Guerra Mundial. Mas, para a maior parte do público, foi necessária uma produção hollywoodiana para que o médico de combate se tornasse mundialmente famoso. Até o Último Homem, que marca a volta de Mel Gibson à cadeira de diretor depois de dez anos (e de muitas polêmicas), tem a tarefa nada fácil de narrar as passagens deste verdadeiro herói. Nada fácil porque os feitos reais de Desmond parecem ser invencionices  de um roteiro exagerado e irrealista.

O fato de um combatente ter ido para o exército, e posteriormente para a Guerra (não é spoiler, dado que o filme -infelizmente- começa numa batalha campal para entrar em modo flashback), com a convicção religiosa de não matar e nem sequer pegar em armas, já é algo inusitado por si só. Desmond não foi o único objetor de consciência daquela guerra, claro, mas talvez tenha sido o que tomou ações de maior impacto.


Muitas vezes a escolha da composição da cena, em conjunto com a trilha sonora demasiadamente típica, parecem enfatizar desnecessariamente a presença e as decisões do protagonista. Durante a projeção, não há como não reagir com descrença ou desdém em determinadas situações criadas por Mel Gibson.  Até que, ao sair do cinema pensando que aquele filme de guerra poderia ser mais verossímil, uma pesquisa básica pela internet leva à descoberta de que, tirando algumas anacronias e detalhes da vida pessoal de Desmond, praticamente tudo aquilo aconteceu de fato. E, não só isso, o diretor e roteiristas decidiram atenuar ou até mesmo retirar o alguns acontecimentos.

Existem relatos de um soldado japonês que teve Desmond sob sua mira algumas vezes enquanto ele descia os soldados pela corda, mas sua arma emperrou todas as vezes em que tentou atirar. A própria sequência final na vida real foi mais heroica e dramática (talvez até piegas) que a retratada no filme. Depois de levar o impacto da explosão de uma granada para salvar seus companheiros, Desmond, com pedaços de estilhaço no corpo, esperou durante 5 horas até ser encontrado. Ele foi carregado em uma maca, sob forte ataque de tanques inimigos. Ao ver um outro soldado severamente ferido, rolou para fora da maca e rastejou para ajudar o homem. Então, cedeu seu lugar e enquanto esperava o retorno dos companheiros levou um tiro no braço. Improvisou uma tala e rastejou cerca de 300m sob fogo cruzado até um local seguro.

Ao contrário da grande maioria das cinebiografias, Até O Último Homem é um caso raro em que quando mais se sabe sobre o assunto e a pessoa em foco, mais se aprecia a obra e mais toleráveis ficam suas falhas.


Até o Último Homem (Hacksaw Ridge), 2016




quarta-feira, 1 de março de 2017

Limitado


Por ser um pouco longo demais e de ritmo lento, pode se tornar uma tarefa árdua assistir Um Limite Entre Nós tarde da noite ou quando se está cansado demais. Mas, em outras circunstâncias, vale a pena conferi-lo. Pelas atuações.

Vale ver os coadjuvantes, sobretudo Viola Davis, que acaba de vencer um Oscar pelo papel, e Mykelti Williamson, com um personagem que de certa forma mata um pouco a saudade de sua cria mais memorável: Benjamin Buford "Bubba" Blue, de Forrest Gump: O Contador de Histórias. E, claro, vale ver Denzel Washington, cujo desempenho poderia ter lhe rendido seu terceiro Oscar (mas, francamente, a Academia acertou nesta categoria este ano).


Embora sua interpretação seja intensa e haja uma naturalidade ímpar na composição do personagem, é decepcionante que ele se torne cada vez mais antipático, chegando ao detestável, à medida que a história se desenvolve. Os minutos iniciais e o cartaz do filme enganam. E o roteiro ainda leva a um infeliz epílogo que tenta passar uma mensagem no pior estilo "mas ele tinha boas intenções, fez o melhor dentro do que sabia fazer."

Outro ponto baixo na produção é também Denzel Washington - o diretor, que não consegue extrapolar os limites da mídia da qual o filme é adaptado: uma peça teatral. Diferentemente de outras adaptações dos palcos, como Moonlight: Sob a Luz do Luar ou Cavalo de Guerra, por exemplo, Um Limite Entre Nós se mantém restrito a cenários limitadíssimos e não explora recursos cinematográficos como composições visuais ou momentos de silêncio e contemplação. Tudo é muito falado, o tempo todo, se aproximando perigosamente do verborrágico.

Faltou um pouco do velho "Mostre, não diga". E enquanto o protagonista se preocupava em construir a cerca, o diretor deveria ter se preocupado em romper a cerca que separa a casa -o teatro- do mundo -o cinema.


Um Limite Entre Nós (Fences), 2016




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Noscardamus 2017


Antes de mais nada, preciso dizer que meu Oscar ideal este ano seria com A Chegada ganhando todos os prêmios pelos quais foi indicado (e ainda Melhor Atriz, pelo qual sequer foi indicado). Mas, como não vai ganhar nenhum, me contento em ver La La Land levando quase tudo. Vale uma nota que o musical corre risco de perder justamente Melhor Canção, para Moana. Primeiro porque as duas indicações na mesma categoria pode dividir as votações intencionadas para o filme e segundo porque, na minha opinião, estas não são as duas melhores canções da produção (eu teria indicado "Another Day of Sun" e "A Lovely Night"). E, como sempre, tive dificuldade em escolher os vencedores para Figurino e para Maquiagem, mas a grande incógnita é Melhor Ator: Denzel Washington ou Casey Affleck?

Sem mais delongas, em negrito, meus palpites sobre quem serão os premiados com Oscar.

ATUALIZAÇÃO: os vencedores sublinhados.

FILME
A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion: Uma Jornada para Casa
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Um Limite Entre Nós
A Qualquer Custo
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

DIRETOR
Denis Villeneuve (A Chegada)
Mel Gibson (Até o Último Homem)
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

ATRIZ
Isabelle Huppert (Elle)
Ruth Negga (Loving)
Natalie Portman (Jackie)
Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)


ATOR
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
Andrew Garfield (Até o Último Homem)
Ryan Gosling (La La Land: Cantando Estações)
Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)

ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
Dev Patel (Lion: Uma Jornada para Casa)
Michael Shannon (Animais Noturnos)

ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
Naomie Haris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Nicole Kidman (Lion: Uma Jornada para Casa)
Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)

ROTEIRO ORIGINAL
Taylor Sheridan (A Qualquer Custo)
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)
Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou (O Lagosta)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
Mike Mills (Mulheres do Século 20)


ROTEIRO ADAPTADO
Eric Heisserer (A Chegada)
August Wilson (Um Limite Entre Nós)
Allison Schroeder e Theodore Melfi (Estrelas Além do Tempo)
Luke Davis (Lion: Uma Jornada para Casa)
Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

FOTOGRAFIA
Bradford Young (A Chegada)
Linus Sandgren (La La Land: Cantando Estações)
Greig Fraser (Lion: Uma Jornada para Casa)
James Laxton (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Rodrigo Prieto (Silêncio)

EDIÇÃO (MONTAGEM)
A Chegada
Até o Último Homem
A Qualquer Custo
La La Land: Cantando Estações
Moonlight: Sob a Luz do Luar

ANIMAÇÃO
Kubo e as Cordas Mágicas
Moana: Um Mar de Aventuras
Minha Vida de Abobrinha
A Tartaruga Vermelha
Zootopia: Essa Cidade é o Bicho_


FILME ESTRANGEIRO
Terra de Minas (Dinamarca)
Um Homem Chamado Ove (Suécia)
O Apartamento (Irã)
Tanna (Austrália)
Toni Erdmann (Alemanha)

TRILHA SONORA
Mica Levi (Jackie)
Justin Hurwitz (La La Land: Cantando Estações)
Dustin O'Halloran e Hauschka (Lion: Uma Jornada para Casa)
Nicholas Britell (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Thomas Newman (Passageiros)

CANÇÃO ORIGINAL
"Audition (The Fools Who Dream)" (La La Land: Cantando Estações)
"Can't Stop the Feeling" (Trolls)
"City of Stars" (La La Land: Cantando Estações)
"The Empty Chair" (Jim: The James Foley Story)
"How Far I'll Go" (Moana: Um Mar de Aventuras)

EDIÇÃO DE SOM
A Chegada
Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
Até o Último Homem
La La Land: Cantando Estações
Sully: O Herói do Rio Hudson


MIXAGEM DE SOM
A Chegada
Até o Último Homem
La La Land: Cantando Estações
Rogue One: Uma História Star Wars
13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi

FIGURINO
Aliados
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Florence: Quem é Essa Mulher?
Jackie
La La Land: Cantando Estações

DESIGN DE PRODUÇÃO
A Chegada
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Ave, César!
La La Land: Cantando Estações
Passageiros

MAQUIAGEM E CABELO
Um Homem Chamado Ove
Star Trek: Sem Fronteiras
Esquadrão Suicida

EFEITOS VISUAIS
Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
Doutor Estranho
Mogli: O Menino Lobo
Kubo e as Cordas Mágicas
Rogue One: Uma História Star Wars

Como tradição, costumo tirar dos meus palpites as categorias de Documentário e todas as três de Curta-Metragem. Apenas para constar, acho que OJ: Made In America leva Documentário.

ATUALIZAÇÃO: Por poucos minutos a Academia afastou a maldição que me assombra desde o improvável 2014, quando acertei os palpites em todas as categorias. A Academia, não, o jacu da PWC que entregou o envelope errado pro Warren Beatty. Mais uma vez, errei Melhor Filme. E baixei minha costumeira marca, de 15 acertos em 20, para 14 acertos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um banho de lua


Desde antes mesmo das suas 8 indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Filme, Moonlight: Sob a Luz do Luar vinha causando sensação no circuito independente. É sem dúvida um filme ao mesmo tempo forte e sensível que, com excelentes atuações e bela fotografia, tem o mérito de dar vozes a temas muito importantes para o mundo atual.

Porém, é preciso saber separar as coisas. Um ponto é a relevância do que está sendo dito e outro completamente diferente é o como está sendo dito, o resultado em formato de filme. Assim, preciso fazer a perigosa confissão de que de uma forma geral não gostei de Moonlight. E não se trata de qualquer tipo de preconceito. Já tive os mais variados níveis de apreciação por outros filmes que eram predominantemente de atores negros e/ ou que tratavam de homossexualidade, de pobreza, de bullying, de vício em drogas. Mas, esse não me cativou tanto.


Estruturada em capítulos, pegando três passagens distintas da vida do personagem Chiron, a história começa sólida e envolvente no primeiro ato e atinge seu ápice no segundo. Porém, o capitulo final é lento e desinteressante, trazendo o personagem em uma improvável e desnecessária reedição da sua figura paterna da infância. Sem entrar em detalhes para evitar spoilers, o desfecho do segundo ato é desmedido e forçado, parecendo mais um mecanismo de roteiro para justificar a transformação do protagonista em sua versão adulta. E o cenário no qual o diretor-roteirista  Barry Jenkins coloca Chiron ao final da projeção o leva a uma situação de impasse em que, qualquer que seja sua decisão, não há saída que leve a uma resolução satisfatória.

Com essas escolhas narrativas que moldam o ato final, Barry Jenkins acaba sendo um reflexo de seu lacônico protagonista e se apresenta inseguro em tomar uma posição ou emitir uma opinião verdadeira. O que só enfraquece o filme.


Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight), 2016




sábado, 18 de fevereiro de 2017

Para baixo e avante


Existe aquele tipo de filme que é muito bom, mas que de tão deprimente fica difícil (e às vezes até perigoso) recomendá-lo indiscriminadamente. Um verdadeiro dementador que pode estragar um dia, ou piorá-lo. Mas, que no fim das contas (e nas circunstâncias corretas) vale a pena ser visto. Intensamente, pois ele não permitirá ser de outra forma e porque dificilmente haverá vontade de revisitá-lo. Manchester À Beira-Mar se encaixa nesta categoria perfeitamente.

Não bastasse o tema principal ser a perda, o luto, tudo é demasiadamente melancólico, desde a composição das cenas até a trilha sonora. Nem mesmo as esparsas tentativas de humor conseguem colocar um sorriso no rosto do espectador.  O diretor-roteirista Kenneth Lonergan faz um trabalho incrível de manter a história bem pé no chão, inserindo pequenos detalhes comuns às situações em que os personagens se encontram. E se em outras produções uma cena de morte já é sucedida por uma de funeral, aqui gasta-se tempo explorando o que acontece no meio tempo. O que torna a experiência ainda mais realista. E triste.


Por outras vezes, a opção do diretor é confiar no espectador e, sabiamente, não mostrar. Sejam as fotos de determinados porta-retratos em destaque, seja uma inteira cena que depois é apenas referenciada por uma personagem comentado "eu disse coisas terríveis para você". Nestes casos, emocionalmente o subentendido funciona muito mais que o explícito. E a forma com que os flashbacks são empregados é genial: com cortes abruptos e em momentos inesperados, como as memórias que apenas surgem repentinamente e não são provocadas por algum estímulo externo específico.

Os diálogos são executados com fluidez e os atores parecem pessoas de verdade sendo retratadas em um documentário. Casey Affleck tem a difícil tarefa de carregar o filme como um homem amargurado que já abandonou a vida, mas que continua respirando, comendo e, minimamente, se relacionando. Uma atuação complexa e nunca melodramática. São muitas as cenas memoráveis que protagoniza, mas destaque para a que se desenvolve uma delegacia, centrada no depoimento de seu personagem. Simplesmente devastadora.

Não é spoiler dizer que Manchester À Beira-Mar ainda chega ao ponto de não cair em clichês do gênero e evita dar redenção ou resolução fácil para seus personagens. Ao final da projeção fica difícil de enxergar um propósito naquela história, não há uma moral ou mensagem clara.

E fica a sensação de que a vida, na maioria das vezes, é assim.


Manchester À Beira-Mar (Manchester By the Sea), 2016




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Rã, rã, rã...


Acho que finalmente consegui criar um meme original.


Acho, não pesquisei pra tirar a prova.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Tudo é bat-incrível


Uma das vantagens de brincar quando criança é que não há limites para o que a imaginação pode criar. Coisas incabíveis em um filme, por exemplo, podem acontecer ali. Não há restrições orçamentárias, impedimentos por direitos autorais, nem "economia" de propriedade para exploração comercial em oportunidades posteriores. Se a criança quiser que todos, absolutamente todos, os vilões de um determinado super-herói surjam para atacá-lo de uma só vez, está feito. E, se bobear, os action figures de anime japonês do irmão mais velho e os enfeites da sala também entram na história. Diversão pura que nenhum produto do sistema de estúdios atual conseguiria prover.

Até semana passada.

LEGO Batman: O Filme é isto aí: uma grande e divertida brincadeira que conquista as crianças e arranca gargalhadas dos pais ao juntar num único lugar praticamente tudo que existe no universo do homem morcego. E se o predecessor, Uma Aventura Lego, já tinha surpreendido com a mistureba de participações especiais dos próprios heróis da DC Comics e de figuras como Gandalf, Dumbledore, Han Solo & Chewbacca, as Tartarugas Ninja, etc, Batman Lego dá um passo adiante e transforma em coadjuvantes vários personagens de outros filmes da (e não somente da) Warner Bros.

A própria Warner (por que não brothers? - eu também sempre me perguntei) é o primeiro alvo dos comentários ácidos do protagonista - que perpetuam durante a projeção e dão uma nova roupagem ao mesmo. Claro que ele parece mais uma estrela do rock egocêntrica do que o vigilante amplamente conhecido, mas aquela imagem sombria/ sem-vontade-de-cantar-uma-bela-canção já estava cansando. Talvez Zack Snyder aprenda algo e ponha um sorriso no rosto de Ben Affleck na Liga da Justiça. E quem não queria ver Bruce de máscara dentro da Mansão Wayne enquanto apanha de trivialidades corriqueiras, como errar a entrada HDMI da TV ou colocar um zero a mais no temporizador do microondas?


Lego Batman é uma grande paródia lotada de meta comentários. Efetivamente, uma auto-paródia que não precisa mascarar nomes, identificações visuais e temas musicais para ficarem parecidos com os originais - apenas usa os verdadeiros e ri de si mesmo. É perfeito para quem acompanha a trajetória do cavaleiro das trevas, sobretudo na TV e no cinema, mas funciona muito bem também para quem é um pouco menos ligado no assunto.

Seguindo um ritmo quase tão insano quanto ao de Uma Aventura Lego e com uma animação de primeira, onde os detalhes dos personagens e dos cenários são tão bem cuidados que quase leva a plateia a crer de que se trata de stop-motion com bonecos de verdade, o filme mostra que o sucesso da transposição dos bloquinhos de brinquedo para o cinema não foi um acaso da sorte. E quando os créditos finais aparecem, fica a sensação de "Ah, já tem que ir embora? A gente ainda tinha muito o que brincar"...


LEGO Batman: O Filme (The LEGO Batman Movie), 2017




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Um custo qualquer


A Qualquer Custo recebeu quatro indicações ao Oscar. Metade merecida (roteiro e ator coadjuvante), metade nem tanto (filme e edição).

As paisagens do Texas, o comportamento dos personagens e a trama principal (assalto a bancos) dão o recado: trata-se de um faroeste moderno. A ambientação em um país em plena crise dá uma relevância maior à história, tornando mais pessoal a identificação do público nacional com o filme. 


Os dois pontos altos da produção são realmente o roteiro original de Taylor Sheridan e a atuação em geral, com destaque para o coadjuvante indicado Jeff Bridges. A narrativa em si não tem nada de especial, mas o forte do roteiro não é a história e sim os diálogos. Todos os personagens parecem estar afiados e o filme parece ser uma metralhadora de tiradas. Muitas memoráveis, como "eu vi roubarem aquele banco - o mesmo que vem me roubando por 30 anos". Pena que não servem a um propósito maior.

O longa começa de fato empolgante, prometendo algo diferente, mas falta ritmo e logo começa a arrastar (lastimável para um filme de apenas 01h40m - parte culpa da edição), chegando a um ato final bem comum. Por vezes tenta emular Onde os Fracos Não Têm Vez, mas não tem a inquietude, a originalidade, nem o estilo da obra dos irmãos Cohen, vencedora do Oscar de Melhor Filme. Nunca será.


A Qualquer Custo (Hell or High Water), 2016




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Figuras ocultas


É curioso como que as histórias de algumas pessoas que fizeram história demoram para ser contadas. E é curioso também como que o 'quando' estas histórias são contadas pode alterar a relevância das mesmas.

Estrelas Além do Tempo é baseado em um livro de 2014 que relata o pioneirismo de algumas mulheres negras dentro da NASA durante a corrida espacial no início da década de 1960. Vivendo em um Estado sob segregação racial e trabalhando em um ambiente tipicamente masculino, a verdadeira luta que travaram foi ao mesmo tempo penosa e inspiradora.


Os mais amargurados vão apontar que a produção ganha destaque extra por ter sido lançado após uma temporada de críticas ao Oscar "tão branco" e em um momento de protestos anti-Trump. Mas, se realmente o filme tem poucas sutilezas e por outras vezes ameniza com humor situações para não perder o tom otimista, não é exagero dizer que expõe para a humanidade passagens importantes da história. E leva à reflexão: alguém se lembra de ter visto mulheres negras em, por exemplo, fotos históricas da cobertura da chegada ao homem à Lua ou no filme Apollo 13? Por que será, se antes mesmo de 1961 elas já faziam parte disto tudo?

Como toda adaptação de livros e toda cinebiografia, o filme toma algumas liberdades narrativas e fica evidente ao espectador que algumas cenas não são verossímeis. Mas, não deixam de ser importantes. E até atuais. O momento em que a supervisora branca diz "Apesar do que pensa, não tenho nada contra você" e recebe a resposta "Eu sei que você provavelmente acredita nisso" é o símbolo de um racismo velado ou até mesmo inconsciente, encontrando ainda nos dias de hoje.

Aliás, os diálogos são recheados de frases de efeito que fazem o público vibrar e são sustentados por excelentes atuações de Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe, que ganham um elenco coadjuvante de peso, com Kevin Costner, Kirsten Dunst e Jim Parsons (estes dois últimos em atípicos papeis antipáticos). Nem os amargurados, que certamente andam contestando a indicação ao Oscar de Melhor Filme, podem negar o mérito do prêmio de Melhor Elenco concedido pelo SAG.

'Estrelas' é também um filme para provar que nem toda história sobre racismo -e nem todo filme do Oscar- precisa ser pesado e deprimente.


Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), 2016