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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Última volta?


Depois de uma incompreensível mudança de gênero em uma continuação cheia de tiros, explosões, tortura e (como não?) mortes, o mundo de Carros volta às origens com um filme mais tranquilo sobre corridas, amizade, paixão pelo esporte e choque de gerações. E devolve o protagonismo para Relâmpago McQueen.

Estas decisões agem enormemente em favor de Carros 3. Os acontecimentos de Carros 2 foram praticamente (se não completamente) ignorados e Mate, por mais engraçadinho e bacana que seja, já havia provado que não tem como sustentar um longa como personagem principal.


Com paisagens de encher os olhos, a qualidade técnica da animação está notavelmente superior - também já se passaram 11 anos do original e 6 anos da primeira continuação. Mesmo assim, os realizadores parecem ter tido menos cuidado com o que sempre foi o maior charme deste universo: os detalhezinhos na caracterização de personagens e cenários. Qualquer um dos dois filmes anteriores sempre esbanjaram criatividade nas transformações de locações existentes, personalidades reais e peças do cotidiano para aquele imaginário automobilístico.  Agora, quase não há novidade neste sentido.

Carros 3 facilmente agrada quem gostou do primeiro e quem está buscando algo mainstream, mas menos agitado, dentro dessa invasão de super-heróis no cinema. Embora o filme termine em um ponto interessante (e, vejam só, o empoderamento feminino chegou também a este mundo), se a Pixar for inteligente criativamente (sabe-se lá financeiramente) encerrará a saga deste seu herói e voltará a investir em histórias originais.

Mas, claro, não sem antes completar Os Incríveis 2, por favor!


Carros 3 (Cars 3), 2017




quinta-feira, 13 de julho de 2017

Viet Kong


King Kong é uma daquelas propriedades que já teve várias encarnações e variações no cinema. Mas, até o início deste ano apenas três delas mereciam destaque: justamente as que levavam apenas o nome da criatura no título. A original em preto-e-branco de 1933, a versão de 1976 com Jeff Bridges e Jessica Lange e a refilmagem de 2006 comandada por Peter Jackson.

Todas estas produções se destacaram sobretudo pelos efeitos especiais, mas talvez pela época em que foi lançada (e por ter virado atração de parque em Orlando) a de 1976 é a mais lembrada. Porém, com enfoque maior no elo entre bela e fera, a releitura nunca chegou aos pés da original. O que Peter Jackson fez tão bem em 2006, além de repetir os personagens principais e trazer um pouco de ingenuidade frente ao desconhecido ambientando sua história também na década de 1930, foi investir boa parte do tempo de tela no habitat natural de Kong. Bem como no original, as cenas da Ilha da Caveira mergulhavam mais na fantasia e trazia o macaco gigante enfrentando dinossauros e monstros inexistentes.


A mais recente tentativa de reavivar a carreira do grandão, Kong: A Ilha da Caveira, agrada os fãs que preferem "pular" o filme com a Jessica Lange, pois cumpre justamente o que seu título já indica - praticamente toda a trama se desenrola na enigmática ilha, sem gastar tempo com pânico na civilização. Perde-se a oportunidade de (mais uma vez) recriar o icônico desfecho trágico no topo de um marco novaiorquino, mas ganha-se com a introdução de novas e pavorosas criaturas e com o clima inquietante de enclausuramento.

Talvez por se passar em 1973, logo após o fim da Guerra do Vietnã, e em uma ilha habitada por impossíveis bichos gigantes, o filme não esconde suas maiores referências: Apocalypse Now e Jurassic Park. Deste último, é de arrancar sorrisos quando Samuel L. Jackson repete sua célebre frase "Hold on to your butts". O diretor Jordan Vogt-Roberts conduz tudo com cenas empolgantes em tomadas inventivas (que não raramente parecem artes de graphic novels) e com uma edição ágil que ainda traz várias transições divertidas.

O que esta versão não tem são personagens. Existem apenas pessoas falantes que estão ali para servirem de lanche pra monstro e atores reconhecíveis para conquistar um mínimo de empatia do público. O único que desperta algum interesse e tem um pouco menos de superficialidade é o personagem de John C. Reilly, que em outras produções seria um mero alívio cômico.

Mas, claramente a Legendary Pictures pouco se importa com um legado de personagens marcantes. Sua missão é aproveitar o sucesso do Godzilla de 2014 e usar este filme como amálgama para algo maior. Quem esperou até o fim dos créditos teve a confirmação do que já não era segredo: está formado o MonsterVerse. Criaturas clássicas como Mothra, Rodan e Ghidorah surgirão em algum momento nos cinemas, que pretende ter seu ápice em Godzilla vs Kong, anunciado para 2020.

Humanos irão sofrer. Tomara que sejam só os de dentro da tela, não os de fora.


Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island), 2017




terça-feira, 4 de julho de 2017

Michael Jackson & Madonna & Minions


Lançado em 2010, Meu Malvado Favorito já não era assim um filme excelente, mas cumpria bem o seu propósito de entreter, com o dificultador e o frescor de não ser baseado em livros, HQs, séries de TV, videogames ou linha de brinquedos. Mais do que isso, conseguiu conquistar relevância cultural ao apresentar os, agora queridinhos, Minions. Era natural que em sua segunda continuação direta (além de um spin-off só com os malvadinhos favoritos amarelos) a coisa esfriasse e as ideias se tornassem mais desgastadas.

Em Meu Malvado Favorito 3 as poucas passagens realmente engraçadas ainda são as protagonizadas pelos Minions, embora nem todas as cenas protagonizadas pelos Minions sejam realmente engraçadas. Os roteiristas utilizam um recurso batido de continuações: introduzir um personagem próximo do protagonista - um filho, um pai, um par amoroso, um irmão... No caso, este último. Pois o penúltimo já gastaram no filme anterior.


Um novo vilão também é apresentado, mantendo a tradição de um vilão por filme. O que é um alento e evita o erro, por exemplo, da já esquecível franquia "rival" Era do Gelo, que foi apenas aumentando seu rol  de personagens a ponto de não ter onde mais encaixar tanta gente (ou bicho) em pouco mais de uma hora de história. Uma evidência clara desta opção, foi terem tirado de cena o auxiliar de Gru, Dr. Nefário, em uma divertida referência a O Império Contra-Ataca (porque também é difícil uma referência a Star Wars não ser divertida). Os demais personagens estão lá, sendo um pouco mais do mesmo, com histórias paralelas que pouco se desenvolvem e que se fecham com resoluções corriqueiras.

O uso de 3D não acrescenta em nada à narrativa nem à experiência do espectador, mas também não atrapalha. A dublagem nacional merece reconhecimento, primeiramente pelo bom trabalho de Leandro Hassum (em papel duplo) e Maria Clara Gueiros. Em segundo, é reconfortante notar já nos créditos iniciais que foi respeitado e mantido o trabalho original de Pierre Coffin como a voz dos Minions. Por último, mas não menos importante, foi extremamente feliz a escolha de Evandro Mesquita para o papel do vilão que tem os dois pés nos anos 1980. O ator-cantor carioca se mostra bem à vontade com o material e ainda tem a oportunidade de se auto referenciar com um "OK, você venceu, batata frita".

Mesmo quase parecendo uma desculpa para vender mais centenas de milhares de produtos, o filme garante facilmente a diversão das crianças e não deixa os pais se entendiarem, especialmente com as inúmeras referências visuais e musicais oitentistas. E qualquer produção que usa Money for Nothing no seu clímax garante ao menos uns pontinhos a mais.


Meu Malvado Favorito 3 (Despicable Me 3), 2017




quinta-feira, 29 de junho de 2017

Que faites-vous dans la vie?


Para quem sempre teve um mínimo de curiosidade em saber o que faz aquele monte de pessoas cujos nomes aparecem na tela do cinema enquanto, segurando a bexiga, espera pela cena bônus de um filme da Marvel, o ótimo canal FilmmakerIQ trouxe a resposta. Já tentei, mal e vagamente, fazer uma analogia macro com estrutura de projetos, da organização e do ciclo de uma produção cinematográfica, mas este video traz de forma clara e aprofundada todas as (principais) funções de um filme de grande porte:


Agora dá para entender aquele 'clichê' dos ganhadores do Oscar, "Ai, tem tanta gente pra agradecer...", né?


PS.: o título deste post é uma piada interna e a resposta é "cocô de bebê". Por algum motivo sem explicação, na época em que meu irmão era um bebezinho meu pai falava essa frase em francês ("o que você faz da vida?" ou "com o que você trabalha?"). Sonoramente, a tradução pedia resposta para um "o que fede na vida?"
(ATUALIZAÇÃO: Fui muito bem lembrado de que a resposta correta era também em francês: "C'est la mère des enfants", que sonoramente...)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Vida efêmera


Vida abre com um plano sequência que, além de esbanjar sua competência técnica e deslumbrar o espectador, serve para criar uma sensação imersiva, provendo ambientação à geografia do local onde se passará a história e introduzindo os personagens (porque, de tão superficial é a passagem, não chega a ser um 'estabelecendo os personagens' - afinal, com tanto rosto conhecido pra que perder tempo com isto?). Esta imersão, somada ao fato de tudo se desenrolar no presente e muito próximo da Terra, é primordial para a cativar o público e intensificar a tensão que está por vir.


Embora as cenas de suspense sejam executadas com primor e genuíno senso de terror (remetendo em vários níveis a Alien - O Oitavo Passageiro), é uma pena que saiam de um roteiro que cai num pecado irritante e, infelizmente, comum: os personagens simplesmente não agem de forma verossímil e constantemente se colocam nas situações de perigo. Não dá para acreditar que todos de um grupo de cientistas-astronautas (altamente qualificados e exaustivamente treinados) hajam sempre de forma passional e quebrando protocolos. É recorrente no filme alguma variação da frase: "Dane-se... eu vou entrar". Provavelmente a vida mais inteligente ali seja a de Calvin, o marciano. E é igualmente estranho como que todos os recursos (principalmente combustível) se esgotam tão rapidamente. E em especial quando eles são a opção do momento para destruir a criatura.

-Leve spoiler no próximo parágrafo-
A sequência final pode deixar muitos confusos, trazendo à tona até a amarga lembrança do Planeta dos Macacos de 2001. Mas, ao contrário do filme de Tim Burton que não importa quantas vezes seja revisto e analisado o seu desfecho continuará sem sentido, uma segunda conferida na conclusão de Vida dá para perceber que a edição foi deliberadamente realizada de modo a enganar o espectador. Uma trapaceada genial.

No fim das contas, a qualidade de Vida não chega no nível Mel Brooks - Que Droga de Vida, e nem atinge Roberto Benigni - A Vida é Bela.

Mas, podia bem ter tentado Danny Boyle - Por Uma Vida Menos Ordinária.


Vida (Life), 2017




quinta-feira, 22 de junho de 2017

O monstro de dentro


Aviso: Colossal é um daqueles filmes, digamos... diferentes e que não agrada a todos. Mas, a experiência de assisti-lo é mais rica quando se sabe o quanto menos sobre o mesmo. Nesta resenha não há spoilers específicos, mas ainda assim é recomendável não ler antes de ver o filme.

Nacho Vigalondo é o diretor-roteirista espanhol responsável por produções independentes como Crimes Temporais, que tem lugar cativo no concorridíssimo panteão dos filmes de viagem no tempo, e Extraterrestre, filme de 2011 que traz uma nova e intimista abordagem sobre invasão alienígena. Talvez por restrições orçamentárias, mas com extremo benefício para suas escolhas narrativas, estes temas grandiosos foram retratados com um escopo mais contido. Já com Colossal, seu segundo longa em língua inglesa, o cineasta mantém a tradição de dar uma nova roupagem a um gênero maior, podendo se aventurar mais com o aumento do escopo, mas sem perder o toque dramático e a meticulosidade no desenvolvimento dos personagens.

Anne Hathaway exercita seu talento ao viver Gloria, uma mulher com uma sucessão de fracassos e problemas, que precisa voltar para sua cidadezinha natal. Lá ela descobre um “poder”: ao entrar num local determinado em um horário específico, sua presença faz surgir um monstro gigantesco em Seul, Coréia do Sul, que repete seus movimentos em tempo real, naturalmente com consequências catastróficas.


Assim como a corrida nuclear, a ameaça química, a tensão comunista, os questionamentos éticos no avanço da genética e a degradação ambiental foram responsáveis (ou as metáforas) para a criação dos monstros cinematográficos em variadas épocas, aqui Vigalondo usa fantasmas bem atuais para a criação de seu(s) monstro(s): o ser humano e suas atitudes individualistas, a inveja, o bullying, a falta de empatia ou até mesmo a total indiferença para com o outro. O próprio ser humano é o responsável pela criação de um monstro em si ou no seu próximo. O ser humano intoxica seu próprio corpo, prejudica sua própria mente e contamina os que estão ao seu redor, sem se importar, sem se preocupar e, muitas vezes, sem sequer notar.

Outra nuance de destaque é como que Colossal também é uma grande manifestação, na sua forma peculiar, de outra temática em voga: o empoderamento feminino. Gloria é uma protagonista alcoólatra e cheia de falhas. Não é, portanto, um exemplo a se seguir, muito menos uma heroína. É possível que seja produto do meio, mas o roteiro se concentra em indicar, diretamente ou com sutilezas, como que todos os personagens masculinos principais à sua volta são tóxicos e prejudiciais à ela. O namorado falha miseravelmente em dar o apoio necessário e correto para a situação, o jovem com quem tem um caso nunca se prontifica a defendê-la, mesmo tendo plenas condições físicas para tal, e o amigo de infância, Oscar, bom... além do óbvio, seria um perfeito estudo de caso para professores de psicologia usarem em suas aulas sobre pessoas dominadoras e relacionamentos abusivos.

Com boas sacadas que acabam bem amarradas ao longo da projeção e deixam o espectador sempre às cegas com os rumos que a história vai tomar, Colossal funciona bem também como filme de gênero (e muito pouco como comédia, embora boa parte do material de marketing insista nisso). Não que esteja isenta de furos - há pontos básicos para implicar, como o fato de não parecer nada plausível que as autoridades sul-coreanas não evacuem e isolem a área da cidade em que o monstro sempre aparece. Mas, a preocupação do longa nunca foi mesmo com o desenvolvimento da mitologia, nem com a explicação da ‘lógica’ criada.

Colossal é um filme de monstro às avessas. Menos foco na destruição, mais espaço pros dramas pessoais. Mais implícito na ação, mais explícito nas metáforas.


Colossal (Colossal), 2017




terça-feira, 6 de junho de 2017

Devo, não nego...


Por uns motivos e outros, assistir filmes ou séries foi algo quase ausente na minha agenda no último mês. Entre aliens, guardiões da galáxia, planos reais, piratas do caribe, cidades perdidas e mulheres maravilhas, tenho perdido quase tudo no cinema. Então, foi hora de refletir se isto é um problema pontual e atual, ou se é algo já sintomático.

Baseado nas minhas listinhas anuais de "filmes mais esperados", parece que não é de hoje que venho falhando comigo mesmo. Tem filme que considerei como prioridade assistir no ano seguinte e que acabei passando longe. Tem até números '2' e '3' das listas!

Vejam bem, muitas vezes há sequer uma sinopse oficial dos filmes quando monto a lista no fim do ano anterior. Daí, quando começam a sair os trailers e as primeiras impressões de público e crítica de alguns, bate aquele desânimo. Tem uns que ainda quero ver, mas a grande maioria vai ficar pro dia de São Nunca mesmo.

O que 'furei' ao longo dos anos:

2009
02. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus
07. Jean Charles
Da lista "correram por fora": Os Fantasmas de Scrooge; O Lobisomem


2010
07. As Viagens de Gulliver
Da lista "correram por fora": Fúria de Titãs; Os Mercenários


2011
05. Gato de Botas
08. Assalto ao Banco Central
10. Os Três Mosqueteiros
Da lista "correram por fora": O Número Quatro; Lanterna Verde


2012
03. O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
06. A Viagem
Da lista "correram por fora", todos(!): O Espetacular Homem-Aranha; Guerra Mundial Z; Sombras da Noite; O Corvo; Valente


2013
08. Se puder... Dirija!
Da lista "correram por fora": Jack, o Caçador de Gigantes; Uma História de Amor e Fúria; O Cavaleiro Solitário; Círculo de Fogo; O Hobbit: A Desolação de Smaug


2014
03. O Destino de Júpiter
05. Noé e Êxodo: Deuses e Reis
09. Real Beleza
10. Grandes Olhos e Pelé: O Nascimento de uma Lenda
Da lista "correram por fora": Um Conto do Destino; Planeta dos Macacos: O Confronto; As Tartarugas Ninja


2015
03. Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível
05. Mortdecai: A Arte da Trapaça
08. O Coração do Mar
09. Pixels
10. Vingadores: Era de Ultron e O Exterminador do Futuro: Gênesis e 007 Contra Spectre


2016
02. Silêncio
03. Assassin's Creed
05. Inferno
06. O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares
08. Esquadrão Suicida
09. Ben-Hur



Vamos monitorar 2017, mas parece que dá pra deduzir que não tenho respeito pelos filmes nacionais e que perdi a sintonia com Tim Burton e as Wachowski.

Agora, tem coisa aí que só me faz pensar: onde é que eu estava com a cabeça??? Nessas horas (e em outras também, mas OK) que é bom não ser um Lannister.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Olááá enfermeira!


E a notícia que está rolando nos sites especializados hoje não poderia ser melhor: a Amblin Television e a Warner Bros. Animation estão trazendo de volta a melhor série animada de todos os tempos: Animaniacs!


Diz logo onde e quando!!!

Enquanto isso, vamos cantando:


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Na pele do outro


As chamadas de TV de Corra!, poucos dias antes de sua estreia nos cinemas brasileiros, citavam em letras garrafais comentários de alguns críticos: "ASSUSTADOR" e "DIFERENTE DE TUDO O QUE VOCÊ JÁ VIU". Vendida como um filme de terror, a produção teria se beneficiado mais se não tivesse sido rotulada como tal, pois pegaria a plateia de surpresa já que é de fato assustadora e diferente do basicão que existe por aí. Mas, não pelos motivos óbvios.

Se não fosse pela cena de abertura (que já chega fugindo de um dos arquétipos do gênero), o espectador ficaria se perguntando que tipo de filme é aquele até bem além de sua metade, quando assume situações mais comuns ao terror (mesmo mantendo-se firme no propósito de se desviar de clichês). O que não significa que ele só fica assustador e diferente no terceiro ato. Pelo contrário.


Acompanhando de perto Chris, um fotógrafo afro-americano interpretado por Daniel Kaluuya (o ponto forte do pior "menos melhor" episódio de Black Mirror), em sua primeira visita à família da namorada branca, o filme transpõe com maestria o sentimento de inquietude e de toda a tensão inter-racial gerada pelo encontro. Não há ameaça, violência per se, mas um grande subentendido no contexto do esforço de pessoas que tentam se portar como não racistas, mas que acabam sendo. Os comportamentos dos personagens, sustentados por ótimas atuações, dão um tom incessante de, nas palavras do próprio Chris, "what the f**k?". Claro, descobre-se mais tarde em uma virada bem amarrada e cheia de simbolismo, sintonizado com o tema principal, há um outro motivo por aquele comportamento todo.

O diretor estreante Jordan Peele conduz a produção de baixo custo com determinação e competência e, fazendo jus à sua experiência como ator e escritor de comédia, encontra um adequado espaço para alívio cômico, personificado no amigo Rod, o Agente de Segurança do Transporte. Seu roteiro constantemente mexe com as expectativas e, talvez justamente por isto, pode não agradar a todos. Com um material que facilmente cativa a empatia do espectador e o deixa na pele (vejam bem!) do protagonista, é compreensível que parte do público queira gritar o "meta-título" do filme não para a tela, mas para si.


Corra! (Get Out), 2017




sábado, 20 de maio de 2017

Cante

(na melodia da música-chiclete mais tocada nos últimos meses - Trem Bala, de Ana Vilela)




Não é que o filme seja de todo ruim assim
É sobre perceber que existe similar, muito melhor por aí
Zootopia, por exemplo, se esforçou muito além do trabalho de voz
E criou detalhes de um mundo impressionante pra qualquer um de nós

É mesmo um pouco esquisito
Com um enredo tão simples e batido, sem nada pra pensar
Sequer existe uma cena
Que seja composta para nos edificar

Não é que todo filme infantil tenha que ter no fim uma moral
Mas não pega bem quando quase todo personagem faz algo ilegal
E se disfarça de musical só porque conta com várias canções
Mas só tem uma original no meio de várias versões

É irônico que sem música, contudo
Não tem graça nada na história se fosse assim
Por isso traria mais sorrisos
Se a cena dos testes com os bichos fosse esticada até o fim

Não é que a duração mostre brecha para aumentar
Pelo contrário, é longo a ponto de quase  arrastar
Ainda bem que acertaram na escolha dos dubladores originais
Fica a dica: se poupe da espera, não há cena após os créditos finais

Deixe o cérebro de fora
Sorria e abrace a jornada já que está ali
Esse é Sing: Quem Canta Seus Males Espanta
E a gente é só espectador querendo se divertir


Sing: Quem Canta Seus Males Espanta (Sing), 2016




quinta-feira, 11 de maio de 2017

More ana


Muito depois da temporada de premiações, que é quando eu queria ter feito isto, consegui finalmente assistir Moana: Um Mar de Aventuras.



Trata-se de uma animação sobre uma princesa Disney com personalidade forte, que não dá muita bola pras questões de realeza.

Ela tem a vontade de sair pra explorar outros lugares, pois sente que há muito mais que sua comunidade proporciona.

Mas, seu pai impõe limites territoriais, pois, por um trauma pessoal passado, sente que precisa protegê-la.

O mundo ali é um em que os elementos da natureza são manifestados em entidades.

Até que um dia a água toma forma e o oceano passa a se comunicar com ela.

E ela descobre que será peça-chave em uma missão especial, que pode salvar o mundo de um fenômeno que está destruindo as plantações.

Uma pedra rara que tem a ver com coração, oceano, ou algo assim, faz parte dessa trama.

Ela sai para encontrar um semi Deus.

Apesar da resistência dele, e de inicialmente ser na prática um vilão, eles têm que trabalhar juntos.

Sempre por perto está o bichinho zolhudo, alívio cômico do filme.

Na jornada, são perseguidos por uma tribo insana em máquinas malucas...

...e precisam enfrentar uma criatura gigante para recuperar uma arma que está fincada na sua cabeça.

É revelado que o herói tem poder de se transformar em qualquer bicho.

E no desafio final encaram um verdadeiro demônio em chamas.

Aí, Moana quebra o encanto maligno, surge a Mãe Natureza e todos vivem felizes para sempre.

Brincadeiras à parte, mesmo parecendo uma mistura de várias ideias pontuais já exploradas antes, o longa-metragem consegue criar um conjunto original e interessante, primoroso tecnicamente (provavelmente o elemento água nunca foi tão bem desenvolvido assim em outra animação antes), comprovando que a Disney continua bem à frente da concorrência.


Moana: Um Mar de Aventuras (Moana), 2016




segunda-feira, 8 de maio de 2017

km42195 - episódio bônus



Fora da telinha, o projeto km42195 teve vários desdobramentos. Outra maratona, meias maratonas, um short triathlon, provas de rua, desafios, treinos, um instagram bacana e sei lá mais quê.

Infelizmente, só uma prova teve registro em câmera. E, por esses dias, praticamente um ano depois, a Meia Maratona Internacional de BH finalmente ganhou um pequeno vídeo para o acervo do canal YouTube km42195. Na prova que percorreu a Lagoa da Pampulha, passando por dentro do Zoológico de BH, em junho de 2016, Matheus teve a oportunidade de ser o guia do atleta Totonho.

Pra conferir:




Aliás, só agora também que oficialmente a vinheta do Padecin foi utilizada com sua trilha sonora oficial pela primeira vez.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Encontro de titãs


Mês que vem completa 50 anos de lançamento de um dos discos mais icônicos da provavelmente melhor banda de todos os tempos.


E hoje é o dia em que se celebra uma das mais aclamadas e cultuadas franquias da história do cinema.


Para prestigiar ambos fenômenos culturais ao mesmo tempo, um usuário do YouTube deu uma de "Weird Al" Yankovic e criou paródias musicais com Star Wars de todo o repertório de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

O canal é Palette-Swap Ninja e o video abaixo vai carregando automaticamente faixa a faixa desta divertida empreitada:




Magical Mystery Tour também é de 1967. É sonhar demais com uma paródia deste baseada nos filmes do Spielberg?

quinta-feira, 27 de abril de 2017

The circle of life goes on...


25 de Abril de 2017, 15:12



segunda-feira, 24 de abril de 2017

O inimigo agora é outro

Homeland é fora do comum.

Após concluir satisfatoriamente um arco principal que foi o condutor de suas três primeiras temporadas, a série conseguiu se reinventar e voltar igualmente relevante e tensa em suas quarta e quinta temporadas. Seu sucesso se sustenta principalmente em bons personagens, amparados por excelentes atuações e roteiros redondos, que entretêm ao mesmo tempo em que discutem temas atuais.


Quando a corrida presidencial estadounidense ainda estava em sua fase inicial, foi anunciado que a sexta temporada acompanharia os momentos logo após a eleição da primeira presidente mulher nos EUA. Assim, com Hillary Clinton liderando as pesquisas de intenção de voto e Donald Trump parecendo um pesadelo distante e improvável, tudo indicava que Homeland retornaria mais pertinente do que nunca. A eleição de Trump e a mudança de cenário na série geraram desconfiança, mas, mesmo com dois primeiros episódios mornos, a temporada provou que a ficção não precisa seguir fielmente a realidade para tocar nas feridas certas. Ou que tocar nas feridas erradas é igualmente eficaz.

E a série da Showtime também consegue escalar a tensão em dramas mais pessoais, fazendo de situações dentro de um lar ou em um tribunal verdadeiras bombas-relógio e que, mesmo sem explosões literais, acabam despedaçando emocionalmente personagens e espectadores. O elenco, liderado por Claire Daines, continua afiado e a temporada ainda permite a Rupert Friend dar uma nuance a mais para seu Peter Quinn. Indicações ao Emmy e ao Globo de Ouro para ele seriam mais que merecidas.

Quem abandonou a série em algum momento, apostou errado. Entre altos e baixos, Homeland ainda vale pelos seus vários e significativos altos.


Homeland (6a.Temporada), 2017




domingo, 23 de abril de 2017

O perigoso chefinho


Hoje, dois dias depois de ter ido a cinema e dois dias antes da data marcada para seu irmãozinho chegar ao mundo, meu filho me perguntou: "E se ele [o irmãozinho] for igual ao Poderoso Chefinho?"

A pergunta veio de forma natural e sem qualquer sinal de receio ou ciúme. Não dá para saber se ele se referia ao elemento temático do filme, de que irmão mais velho sempre teme que o caçula vá chegar tomando seu espaço - físico, na casa, e figurado, no coração dos pais -, ou se referia à uma manifestação literal da alegoria usada no filme: de um bebê já falando e se portando como um adulto.


Seja qual for, ambos materializam a inquietação que tive com esta mais recente animação da DreamWorks. De cabo a rabo, o filme traz situações e ideias (mesmo que sob a imaginação de uma criança de 7 anos) preocupantes, considerando seu público alvo. A mensagem final é recompensadora, mas quase tudo até ali beira o inadequado. Talvez o filme seja na verdade destinado a uma plateia um pouco mais madura, como foi Olhe Quem Está Falando na década de 1980, mas os realizadores não contaram isso pra ninguém e o venderam como um filme infantil. Sim, ao longo da projeção os pequenos se divertem, mas a DreamWorks não é nenhuma Pixar e falta muita sensibilidade e cuidado em suas abordagens.

O alento é que, se conseguirem deixar a apreensão de lado, pelo menos os pais podem se divertir um pouco junto, principalmente com as incansáveis (e muitas vezes escondidas) referências culturais e cinematográficas.


O Poderoso Chefinho (The Boss Baby), 2017




quinta-feira, 20 de abril de 2017

Smurfs e a uma hora e meia perdida

(voz de Sérgio Chapelin)

Esta noite no Globo Repórter...

(tema musical clássico do Globo Repórter)

Smurfs.

De onde vieram? Para onde vão? Onde vivem? Como se reproduzem? Por que cada um tem um nome associado à uma característica? É o nome que define cada um, ou é o contrário? Eles são os únicos de sua espécie no mundo?


No filme de hoje, Smurfs e a Vila Perdida, você vai conhecer o estranho caso da comunidade que só tem Smurfs meninas (spoiler! - whatever). Além de todas as suas perguntas usuais não serem respondidas, mais perguntas surgirão.

Você vai ver também um Gargamel totalmente sem graça e apenas dedicado à vilania em uma trama mais que batida. E vai se espantar como que os realizadores acreditam que filmes infantis de hoje em dia não precisam de substância e que basta tornar o mundo azul mais colorido e agitado, inserindo humor físico para arrancar risadas fáceis dos pequenos.

Tente não se entendiar... esta noite, no Globo Repórter.

(fade out do tema musical)


Smurfs e a Vila Perdida (Smurfs: The Lost Village), 2017




quinta-feira, 13 de abril de 2017

Nunca canso de ouvir


E ver isso ao vivo, desse jeito, seria mágico:


Mais sensacional seria se fosse o próprio John Williams ali fantasiado.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Lei de Lavoisier no cinema?


Hollywood fez uma refilmagem de O Segredo dos Seus Olhos, o longa argentino vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro em 2010. Hollywood está fazendo uma refilmagem de Intocáveis, o longa francês indicado ao Globo de Ouro de Filme Estrangeiro em 2013. Hollywood vai fazer uma refilmagem de Toni Eerdmann, o longa alemão indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro esse ano.

Os exemplos são inúmeros e as reações são sempre as mesmas: "Desnecessário!"; "Pra quê???"; "Não tem como ser melhor..."; "É preguiça de ler legenda?".

Malditos americanos. Certo?

Hmmmm...

Aí, num clica aqui, clica ali do IMDb a pessoa descobre a existência de Gôsuto:


Sim, uma refilmagem japonesa de Ghost: Do Outro Lado da Vida.



E com uns cliques a mais:





Isso só pra pegar umas amostras do eixo China/ Japão.

Se for verificar o que se passa na Índia, são incontáveis as releituras americanas feitas por Bollywood.

Alguns exemplos?






É... agora a turma do Tio Sam não parece tão má assim.