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terça-feira, 4 de junho de 2019

Pontos finais



Depois de 12 temporadas de uma boa mistura de sitcom tradicional com muita nerdice, Big Bang Theory chegou ao final se não com uma explosão, ao menos com a devida emoção. Assim como foi com (a superior, é verdade) Friends, o charme residiu em acompanhar o grupo de amigos: seus relacionamentos, seus maneirismos, seus sucessos, seus fracassos e sua evolução. O fim não deixa de ser agridoce, pois é impossível se livrar do sentimento de despedida definitiva. Mas, se paro de zapear toda vez que Chandler, Monica, Rachel, Ross, Phoebe e Rachel surgem na tela, sinto que o mesmo vai acontecer com Sheldon, Amy, Leonard, Penny, Raj, Howard e Bernadette. Com prazer.

The Big Bang Theory (12 temporadas), 2007-2019






Já com um pouco de saudade de Game of Thrones e acostumado com o padrão dos especiais sobre bastidores da TV e do cinema, sentei para ver The Last Watch com nenhuma expectativa, além da de revisitar alguns cenários e atores da série da HBO. Mas, os realizadores surpreenderam positivamente ao optar por seguirem "personagens" mais empatizáveis, mas não menos interessantes, do cotidiano da produção, em vez de entregarem um amontoado de depoimentos de astros do primeiro escalão. Divertido e até emocionante, este documentário é obrigatório para todos que acompanharam a saga de Westeros: os que gostaram e os que absurdamente acham viável fazer uma petição pedindo toda uma nova última temporada.

Game of Thrones: The Last Watch (HBO), 2019






Dentre as sugestões sem noção que ouvi dos que odiaram o desfecho de Game of Thrones, uma se destacou: "Por que não lançaram uns cinco ou seis finais diferentes?" Minha reação de "E quem escolheria o final, VOCÊ???" saiu filtrada na forma de "Você já assistiu Bandersnatch?". A questão é que o episódio especial da cultuada Black Mirror parte de uma ideia genial, em teoria, e que só pôde existir neste formato (comum em games e até na literatura) graças à Netflix, ao streaming. Ao tomar decisões respondendo perguntas simples que surgem em tela, o espectador influencia diretamente os rumos que a história vai tomar. Apesar de se enveredar por uma metalinguagem curiosa, a fórmula de  Bandersnatch cansa rapidamente, justamente por não fornecer um senso de propósito. E de conclusão. Se não ficar satisfeito com final que acabou de assistir, você pode continuar "tentando" até ver quantos outros finais quiser. O resultado está mais para um experimento sem identidade, que sequer consegue fomentar as discussões filosóficas típicas de um pós-episódio de Black Mirror.  Diga o que quiser sobre os destinos de Cersei, Daenerys, Bran ou Jon: te garanto que Game of Thrones com cinco ou seis finais à la carte seria infinitamente pior.


Black Mirror: Bandersnatch (Netflix), 2018




sábado, 1 de junho de 2019

Raios!



Com pouquíssimo conhecimento sobre o universo Pokemón (um papo ou outro sobre o assunto com meu filho, a assimilação de que o mais importante é o amarelinho, e ícone pop, Pikachu e que seu poder maior é soltar raios pelo rabo - graças a um clipe alternativo do John Ulhoa), não precisa ser investigador  para afirmar que eu não sou o público alvo de Detetive Pikachu. Todavia, mesmo indo ao cinema só para tentar ser um bom pai, não fiquei entediado. Aliás, posso admitir que até gostei. Certamente a produção é um prato cheio para fãs, cheia de detalhes e referências, mas ainda apresenta uma base mínima para engajar os marmanjos. O visual do filme como um todo é bem cuidado e os monstrinhos são bem feitos. Se o recente (e merecidamente execrado) trailer de Sonic - O Filme é exemplo, ser "bem feito" ainda é um elogio hoje em dia e não algo óbvio. Em termos de roteiro, há furos por todos os lados. Só que não deixa de ser uma boa iniciação para os pequenos em filmes noir e em reviravoltas.

Pokémon: Detetive Pikachu (Pokemon Detective Pikachu), 2019






(Contém SPOILERS de Shazam!)
Talvez pelo já bastante criticado tom sombrio de vários dos filmes mais recentes da DC, a campanha de marketing de Shazam! investiu pesado no lado cômico da produção. E nada do que foi previamente divulgado nos prepara para os momentos mais pesados do filme. Não me refiro nem à violência, típica de quadrinhos, principalmente envolvendo os monstros que personificam os sete pecados capitais, mas às decisões do roteiro em trazer uma crueldade realista para seus personagens. Estamos falando de um filme que abre com um menino sofrendo bullying de seus próprios pai e irmão, que vem a crescer e se tornar o vilão que acaba matando os dois. Sem falar no arco do protagonista, que passa a maior parte do longa na busca por sua mãe, só para no clímax encontrá-la e ouvir secamente da sua boca que ela não o perdeu quando criança, mas simplesmente o abandonou. No entanto, na maior parte de sua duração, o filme cumpre o que promete (e ali tem seus melhores momentos) sendo essencialmente uma comédia, por vezes quase besteirol, que chega até a lembrar a série oitentista Super-Herói Americano, em que um adulto imaturo tenta descobrir e controlar seus novos superpoderes. O que distrai um pouco é que, ao contrário de tantas outras produções com a situação de "mesmo personagem, corpo diferente", o divertido Shazam adulto de Zachary Levy não se parece nem um pouco (comportamento, temperamento, etc) com o retraído adolescente Billy Batson.

Shazam! (idem), 2019







Quando Shrek 2 foi lançado, três anos depois do seu antecessor, já não existia mais o frescor da novidade e havia pouco a se acrescentar nos cruzamentos malucos dos personagens de vários contos de fadas. A continuação estava alicerçada meramente no peso dos seus já icônicos protagonistas. Uma Aventura Lego 2 sofre dos mesmos males que Shrek, com um agravante. Embora o primeiro filme e seu spin-offLego Batman: O Filme, tenham sido muito bons, seus protagonistas não conquistaram relevância cultural o suficiente para carregar um longa inteiro nas costas. Assim, a produção tem lá seus momentos divertidos, suas sacadas, suas referências, mas ironicamente ecoa a nova canção principal: "nada é tão incrível"...

Uma Aventura Lego 2 (The Lego Movie 2: The Second Part), 2019




terça-feira, 21 de maio de 2019

A guerra após a Guerra

(contém SPOILERS do último episódio de Game of Thrones, mas pelo tanto de meme que você já recebeu até agora, tanto faz)

Não há discussão de que as duas últimas temporadas de Game of Thrones foram mais corridas e perderam qualidade de roteiro. Mas, mesmo com diálogos mais fracos e menos maquinação, é correto afirmar que o fim "estragou" a série? Sou do time que diz que não. Avalio que houve material suficiente para manter a cria da HBO entre as melhores de todos os tempos. E... gostei do desfecho. Amei, achei a melhor coisa do mundo? Não. Mas, gostei de forma sólida.

Só que parece que cometi um crime. Agora, preciso passar pelos pontos mais polêmicos do último episódio, mostrando porque achei que foram coerentes. E eu gostei justamente porque achei que foram coerentes. Impossível convencer alguém a gostar ou não gostar de algo, e nem tenho a pretensão disto. Só quero me justificar perante a acusação de apunhalar pelas costas o senso comum dos fãs internet afora.


Então...

Qual foi a do Jon?
Sempre foi claro que Jon nunca quis se sentar no Trono de Ferro, mesmo antes dos roteiristas passarem a obrigá-lo a dizer isso em voz alta. Mas, mesmo assim, muita gente ainda torcia para ele terminar lá. O chamado, a recusa, as provações, a recompensa e, caramba, até a ressurreição estavam lá. A Jornada do Herói estava mais que desenhada. Mas Game Of Thrones acabou sendo Game Of Thrones, e o arco de Jon terminou, sob este aspecto, de forma anticlimática.
Só que mesmo com essa quebra, Jon Snow ainda foi um grande herói e teve uma conclusão digna.  Esfaquear Daenerys, foi um ato de covardia? Não. Ele terminou como algo que ele sempre foi (ou aspirava ser), nobre. Acima de tudo. Ele se sacrificou, por um bem maior. Matou a pessoa que amava, porque era o correto para o mundo. Um raro momento na série em que alguém não matou por vingança, maldade ou pela disputa pelo poder. Ele fez o que era certo, altruisticamente, sabendo das consequências. Se tivesse sido a Arya a dar a facada, como muita gente queria, ela seria perseguida como assassina, regicida pelo resto da vida. E, SE ela quisesse matar Daenerys, o teria feito. Teve oportunidade muito mais fácil que a do Rei da Noite.
No fim das contas, Jon até termina com um posto condizente com sua grandeza, um Rei Além da Muralha, Mance Rayder 2.0 ou melhor. Há ali um outro mundo inteiro, uma extensão territorial gigantesca e uma quantidade enorme de pessoas. Sem falar que ele  passou a maior parte da série naquele núcleo de "Povo Livre/ Selvagens". E lá se encontrou. (Nem me venham com papo de Azor Ahai, essa coisa que só foi mencionada nos livros e que eu teria achado ridículo tirarem da manga aos 45 minutos do segundo tempo).

Qual foi a de Daenerys, Nascida da Tormenta, a Não Queimada, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos dos Rhoinares e dos Primeiros Homens, Khaleesi do Grande Mar de Grama, Quebradora de Correntes, Mãe de Dragões, Amante de Sobrinhos Desde Que Não Contem Pra Ninguém, a Que Caiu do Lado Errado da Moeda Targaryen?
Como não tem hospício em Porto Real...

Qual foi a do Drogon?
Num ataque de fúria ele percebeu que o que realmente matou sua mãe não foi aquele homenzinho que estava ao alcance dos seus dentes (caso seu bafo falhasse em queimá-lo), mas sim a busca cega dela por aquele maldito trono de ferro. E o derreteu. Qual o problema? Quem disse que dragão não pode ter sensatez e tino poético?

Qual foi a do Bran?
O Bran ser o novo Rei é mais do que apropriado pois, conforme Tyrion expôs, ele tem "todas as histórias" dentro de si. E consegue ver o passado e o presente. Se isto não for potencial para ser o governante mais justo da história da ficção, eu não sei mais o que é. Claro, existe aquela sensação de "mais do mesmo" ao vermos o Pequeno Conselho reunido discutindo futilidades? Sim, mas com algumas diferenças. Agora é um grupo mais diverso e, aparentemente, mais digno do que antes. E, estão cuidando de futilidades. Tenho convicção de que os poderes de Bran serão decisivos nos assuntos cruciais. Entendo quando muitos enxergam paralelos com nossa política (não somente a nacional, mas a mundial) e este é um filtro difícil de se tirar. Consumimos ficção sempre sob a visão irônica das nossas realidades. Mas, pode ser só o idealista dentro de mim, tenho a esperança de que pelo menos em Westeros a mudança verdadeira vai acontecer, mesmo que lentamente. O que foi instituído pode, em teoria, terminar aquele monte de disputas dentro de famílias, entre famílias e guerras pelo trono. (Nem me venham com teorias de que o Bran é o Rei da Noite ou que ele está manipulando todos, porque é ridículo, incoerente e teria sido tirado da manga aos 45 minutos do segundo tempo).

Qual foi a do Tyrion?
A grande implicância que ouvi por aí foi: por que a decisão que moldou todo o reino surgiu de uma cena improvável em que Lordes deram ouvidos a um prisioneiro? A isto eu respondo: porque Tyrion é o cara. De longe o personagem mais interessante, com direito a indicação ao Emmy para Peter Dinklage em todas as temporadas até agora, rendendo três vitórias e, se justiça for feita e Bran der uma força, com uma quarta no forno. Viram? Tudo tem explicação lógica.

Qual foi a da Sansa e Arya?
Bom, nem preciso mencionar a Sansa já que, junto com Jon afagando o Ghost, ela parece ser a única unanimidade dos fãs (ex-fãs?) da série. Talvez porque todos enxergaram (e a palavra é, mais uma vez) coerência. Com a personagem e com o seu desenvolvimento. Já, com a Arya, alguns tiveram ressalvas. O que é estranho, pois ela sempre esteve "na estrada", sempre teve espírito aventureiro. Se era para dar um final feliz para uma personagem tão estimada, não vejo outra saída melhor. Aliás, as conclusões das irmãs não tinham como ser mais adequadas, seguras e positivas. E ainda renderam uma bela montagem final, com seus destinos interpostos com o de Jon.

Mais uma vez, respeito os que estão chateados (aliás, a única certeza que eu tinha antes da última temporada começar era de que ela iria agradar a poucos). É direito de cada um fantasiar sobre finais alternativos. E muitas grandes obras, com desfechos ambíguos ou em aberto, dependem disto. Mas, Game of Thrones teve um final concreto. A vida segue. E os debates também.

Eu só não quero ser condenado por gostar de algo. Agora, se insistirem, eu exijo Julgamento por Combate!


Game of Thrones (HBO), 2011-2019




(sim, o texto foi só do episódio final, mas a nota é pra série inteira - fazer o quê? aqui não é democracia. Sam bem que tentou)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A jogada final dos Vingadores

(Texto com SPOILERS para Vingadores Guerra Infinita e Ultimato. Mas, pela bilheteria deles, certamente você já assistiu)

Naturalmente, as HQs fizeram parte da minha infância/ adolescência. Talvez por influência do Superman, de 1978, do desenho dos Superamigos na TV nos anos 1980 e do Batman, de 1989, eu tinha uma afinidade maior com a DC Comics. Mas, li bastante Marvel também, com certa predileção por Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e a incrível minissérie Guerras Secretas, que me fascinava por reunir todos os principais heróis numa história única.

Porém, minha estima pelos gibis foi se dissipando por culpa da necessidade da Marvel de entrelaçar suas tramas. Estava lá eu lendo um Homem-Aranha e algo que parecia estar fora do contexto era mencionado. Surgia uma nota de rodapé: *Leia Capitão-América no. 27. Três páginas depois, outra nota: *Leia Vingadores no. 31. O caso era que nem toda banca de revista tinha tudo, a mesada era limitada e eu simplesmente não achava certo ser obrigado a ler um monte de outra coisa para poder acompanhar a história que eu queria. Infelizmente, o mesmo aconteceu comigo com a incursão da Marvel nos cinemas com seu Marvel Cinematic Universe. Começou a ter tanto filme, com tanta "nota de rodapé", que bateu uma preguiça. A verdade, doída, é que não vi exatamente todos os cerca de 20 filmes que deveriam ser assistidos antes dos dois Vingadores derradeiros.

E Vingadores: Guerra Infinita definitivamente está sob este paradigma. Só é possível entender 100% do ponto de partida da história, e do pano de fundo de todos os (incontáveis) personagens, se tiver assistido a 100% dos filmes que o antecederam. Mas, claro, é possível curtir o filme com conhecimento de apenas parte da filmografia do MCU, pois o roteiro usa alguns poucos minutos aqui e ali para dar uma relembrada no (ou situar o) espectador.

E há, sim, bastante o que curtir nesta convergência mágica de personagens, estrelas e narrativas, em uma escala talvez sem precedentes na história do cinema. Mas, há muito. E, julgo, não das coisas certas.

Os grandes momentos da Marvel no cinema quase sempre foram os de desenvolvimento e interação de personagens. A esta altura, as origens estão realmente mais que estabelecidas e muitos heróis estão mais para o fim dos seus arcos do que demandando mais maturação. Mas, ainda há bastante para se explorar no relacionamento daqueles vários egos - sendo o exemplo maior (e as melhores partes de Guerra Infinita) a dinâmica entre Thor e os Guardiões da Galáxia.

Além também de um pouco de Tony Stark "versus" Doutor Estranho e de Wanda e Visão num romance sem graça e nada eficaz em estabelecer a carga emocional necessária para decisões que levam ao clímax do filme, o roteiro se esforça para investir em Thanos.

Ainda assim, a ação em torno do vilão é muito corrida: levou sabe-se lá quantos anos para conseguir uma única Joia do Infinito e agora, duma vezada só, consegue todas. E, mesmo com uma boa atuação de Josh Brolin sob o CGI, seu momento maior de "humanização" não me conquistou, nem me convenceu. Não vi material suficiente nos dois longas dos Guardiões, nem neste, que me fizessem acreditar no tamanho do amor de Thanos por Gamora. Não me pareceu ser uma tarefa árdua para ele o "sacrifício" para conquistar a Joia da Alma, assim como ele não esboçou ser uma alma torturada depois.

A morte de Gamora é, sim, impactante, construída em uma cena bela e dramática. Este impacto, porém, se contrapõe à sensação de provisoriedade das outras mortes que ocorrem, principalmente no 'grande momento' da produção.

Já é sintomático em filme de heróis e a Marvel sabe disso. A morte de Lóki, por exemplo, é precedida por um "Sem ressurreição desta vez" e sucedida por um "Desta vez é definitivo, ele não voltará", para tentar (sem sucesso, no meu ponto de vista) dar algum peso ao que está por vir.

Embora as imagens sejam momentaneamente tocantes, assim que começam a ser revelados quem são os afetados pelo estalar de dedos do Thanos, o filme me perdeu. A obviedade de que haverá uma reversão no próximo Vingadores fica estampada no momento em que são eliminados personagens que já têm suas continuações garantidas, como Pantera Negra, Guardiões da Galáxia, Doutor Estranho e Homem-Aranha. O elemento surpresa e o choque são rapidamente substituídos pelo desânimo de "é, lá vem mais um filme de ressurreição de heróis". Mesmo sem a mínima noção dos (amplamente divulgados) planos da Marvel para as telonas, um espectador imerso consegue ter a mesma percepção: acabou de ver minutos antes Thanos revertendo uma morte, a do Visão.

Fica de fato uma certa expectativa do como vão fazer, mas nenhuma dúvida de que realmente vão. Eu senti mais pelo povo de Gamora no flashback do que pelos protagonistas.

(Até aqui o texto foi escrito antes que eu tivesse visto Ultimato)


E, então, tudo nos leva a Vingadores: Ultimato.

Sob a ótica da família de Gavião Arqueiro, o filme abre ainda no espírito de Guerra Infinita: perturbador num primeiro momento, mas, pela dimensão e pelo "tipo de filme que é", sem margem para dúvida da reversibilidade. E, pelos próximos 15 minutos, assim segue. Na correria e, com Thor decapitando Thanos, no choque seguido da certeza de que nada é definitivo. Afinal, ainda é o começo de um longa de super-herói produzido pela Disney!

Mas, as coisas começam a ficar interessantes e o salto de cinco anos traz um desconforto necessário. Mesmo que a metade da vida do universo volte em algum momento, temos a oportunidade de presenciar o quanto a ausência dela afeta o planeta e, principalmente, os personagens. O filme tira o pé do acelerador e o roteiro cuida de nos situar nas consequências psicológicas e emocionais. À medida que a equipe vai se recompondo para a execução do novo plano, os diretores acertam em construir momentos tenros ou engraçados, calmos e pequenos em escopo, tão escassos em Guerra Infinita.

Os assaltos temporais, como foram batizados pelo Scott, criaram formas inventivas para o público revisitar momentos do MCU sob outros pontos de vista, lembrando bastante De Volta Para o Futuro 2. Isso sem perder o foco nos relacionamentos e em meio a sequências de ação empolgantes.

De uma forma geral, sou um fã de viagem no tempo e, talvez com exceção do contido Crimes Temporais e do confuso e complexo Primer, praticamente é impossível se criar uma história em torno deste tema sem incorrer em furos ou paradoxos. Pensar um pouquinho demais nas ações e consequências do que é feito na maior parte deste filme é ser puramente implicante e esquecer que trata-se de uma obra de entretenimento. Claro que o que o Capitão América faz no final beira o absurdo e dificilmente sustenta a lógica de muita coisa que já aconteceu nestes filmes todos, mas não me importo. Eu me diverti com o que vi e fiquei bem satisfeito que a solução não foi simplesmente fazer o tempo voltar para trás. As mortes acabaram não sendo definitivas, como previsto, mas o impacto daquelas ausências modelou fortemente os que ficaram. E suas decisões.

Avalio que Ultimato é uma conclusão digna para os que encerraram seu ciclo e um bom empurrão para os que continuam suas jornadas. Ainda sinto resquícios de saturação de filmes de super-heróis, mas se lançarem 'Asgardiões da Galáxia' semana que vem, meu ingresso está garantido.


Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War), 2018




Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame), 2019




quinta-feira, 16 de maio de 2019

Agora é pessoal

Agora está assim: se passo mais de um mês sem postar aqui, bate aquela vontade de desistir.

Falta tempo pra assistir, falta mais tempo pra escrever. Nessa última "recaída", me veio à cabeça a frase filosófica que apareceu certa vez num saquinho de chá: "Antes de desistir, lembre-se por que começou."

Como não é recomendado ignorar estes sinais que saquinhos de chá e biscoitos da sorte nos mandam, me recordei que comecei este blog por dois motivos: 1) eu queria parar de chatear as pessoas com tanto assunto de filme, pessoalmente ou por e-mail; e 2) eu queria registrar, pra mim mesmo, que fosse, minhas impressões e comentários sobre filmes, séries, a vida, o universo e tudo mais.

O motivo 1 nunca foi cumprido. Eu não consegui parar de chatear as pessoas com tanto assunto de filme, pessoalmente ou por e-mail (nem, numa segunda geração, por WhatsApp). Aliás, eu não consegui parar de chatear as pessoas, ponto.

O motivo 2 acabou sendo a verdadeira força-motriz do blog. Mas, percebi que acabei me desviando do propósito de fazer algo mais intimista ao tentar imprimir nos textos (que acabaram virando só "parágrafos") uma impessoalidade prepotente, até arrogante.

Afirmações como "o filme é" ou "o espectador percebe", teriam sido mais honestas e humildes, se tivessem sido registradas como "minha opinião é" ou "eu percebo". Talvez assim eu teria tido mais tempo para o blog: não procurando adjetivos para supostamente julgar objetivamente diversos aspectos das produções, mas buscando palavras certas para tentar expor meus sentimentos subjetivos com relação às obras.

Então, a ideia agora é tentar dar continuidade dessa nova forma, mais pessoal.

Sem abandonar o padeçômetro, claro, que vai estar mais para alguma escala de "Não Gostei"/"Gostei" do que a atual de "Ruim"/"Bom". Mas, pra facilitar (e polemizar), vou deixar do jeito que tá...

Assim, vamos lá mais uma vez: O que dizemos para o Deus da Morte dos Blogs?


Hoje não.


domingo, 17 de março de 2019

Pendências do Oscar e a calmaria que vem depois

  

Sabendo-se a premissa de Homem-Aranha no Aranhaverso, não há como não se apaixonar à primeira vista pelo filme já antes mesmo de começar, quando os logotipos da Sony, Columbia etc começam a se transformar rapidamente nos mais variados estilos de animação de cada um dos Aranhas que vão surgir. Dali pra frente, até a hilariante cena pós-créditos, é só acertos. Recheado de humor e auto-paródia, sem abandonar um peso dramático necessário e honesto com os personagens, Aranhaverso encanta, ao mesmo tempo em que enche os olhos com sua(s) escolha(s) de técnica(s) de animação. Oscar de Melhor Longa de Animação (e praticamente todo e qualquer prêmio de animação da temporada) mais que merecido.

Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse), 2018






Na Farsa, o burlesco prevalece e normalmente a ambientação é reduzida a poucos, senão a um único local. Este é o gênero mais identificável com A Favorita, que rendeu o Oscar de Melhor Atriz a Olivia Collman. Sua atuação, aliás, foi tida como o carro-chefe da produção, em conjunto com as de Rachel Weisz e Emma Stone, ambas indicadas a Coadjuvante. O que é destoante é que, embora todas as três tenham um trabalho sólido, cada uma parece estar num filme diferente. A personagem de Stone parece saída de uma comédia contemporânea qualquer, Weisz abraça o drama de época e Collman, enfatizando o ridículo, se encontra certamente numa farsa. A opção do diretor Yorgos Lanthimos por um final bizarro e em aberto não só não é mais desestimulante que sua falta de ritmo e que sua decisão confusa de usar grande angular repetidamente.

A Favorita (The Favourite), 2018






ALERTA DE SPOILER PARA CALMARIA (SERENITY) 
Calmaria tem o potencial para desagradar dois grandes grupos de frequentadores de cinema: o dos que se entregam a um filme sob o filtro do seu rótulo e o dos que desconfiam de tudo e procuram pistas sobre as segundas intenções dos realizadores. Sob a ótica do primeiro grupo há uma mudança de gênero no meio do caminho, de drama/ neo-noir/ crime para ficção-científica/ fantasia, ficando mais próximo de um episódio longo e pouco inspirado de Black Mirror. No segundo grupo, até os olhares menos atentos (ou de quem entrou no cinema com 15 segundos de atraso) não conseguem ficar alheios às obviedades de um roteiro que falha em esconder a natureza da realidade que se desenrola na tela. Os elementos que prenunciam a "surpresa" são tão gritantes (e também surgem em cenas que não estão sob a perspectiva do protagonista) que simplesmente fracassa a tentativa de se associar as coisas estranhas a um possível transtorno de estresse pós-traumático (ou simples loucura) de Baker Dill (em mais uma atuação marcante de Matthew McConaughey, diga-se de passagem). E para ambos grupos, e todos os outros que existirem, há ainda uma abominável deixa no epílogo em que um jogo de computador (ou, pior, um pai), com um "às vezes fazemos coisas ruins por boas razões", endossa um adolescente, vítima de bullying ou abuso, assassinar alguém. Inadequado e insensível.

Calmaria (Serenity), 2019




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Noscardamus 2019


Este é um ano esquisito. A temporada de premiação tende a apontar um certo favoritismo para Roma, mas outros longas venceram prêmios importantes também. Meu índice de acerto deve ser baixo.

Sem delongas, em negrito, meus palpites sobre quem serão os premiados com Oscar.

ATUALIZAÇÃO: os vencedores sublinhados.


FILME
A Favorita
Roma
Vice
Pantera Negra
Green Book - O Guia
Nasce uma Estrela
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody

DIREÇÃO
Alfonso Cuarón (Roma)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)
Yorgos Lanthimos (A Favorita)
Pawel Pawlikowski (Guerra Fria)
Adam McKay (Vice)

ATOR
Bradley Cooper (Nasce uma Estrela)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Christian Bale (Vice)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)
Viggo Mortensen (Green Book - O Guia)


ATRIZ
Olivia Colman (A Favorita)
Lady Gaga (Nasce uma Estrela)
Glenn Close (A Esposa)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Yalitza Aparicio (Roma)

ATOR COADJUVANTE
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Mahershala Ali (Green Book - O Guia)
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Sam Elliott (Nasce uma Estrela)
Sam Rockwell (Vice)

ATRIZ COADJUVANTE
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Marina de Tavira (Roma)
Amy Adams (Vice)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)

ROTEIRO ORIGINAL
Green Book - O Guia
Roma
No Coração das Trevas
A Favorita
Vice

ROTEIRO ADAPTADO
Infiltrado na Klan
A Balada de Buster Scruggs
Se a Rua Beale Falasse
Nasce uma Estrela
Poderia Me Perdoar?


ANIMAÇÃO
Homem-Aranha no Aranhaverso
Os Incríveis 2
WiFi Ralph
Ilha de Cachorros
Mirai

FILME ESTRANGEIRO
Roma (México)
Guerra Fria (Polônia)
Assunto de Família (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)

DIREÇÃO DE ARTE
O Retorno de Mary Poppins
A Favorita
O Primeiro Homem
Roma
Pantera Negra

FOTOGRAFIA
Roma
Nasce uma Estrela
A Favorita
Guerra Fria
Nunca Deixe de Lembrar

FIGURINO
A Favorita
A Balada de Buster Scruggs
Duas Rainhas
O Retorno de Mary Poppins
Pantera Negra

MAQUIAGEM
Vice
Border
Duas Rainhas


EDIÇÃO
A Favorita
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
Green Book - O Guia
Vice

TRILHA SONORA
Se a Rua Beale Falasse
Ilha de Cachorros
Pantera Negra
O Retorno de Mary Poppins
Infiltrado na Klan

CANÇÃO ORIGINAL
"Shallow" (Nasce uma Estrela)
"All the Stars" (Pantera Negra)
"I'll Fight" (RBG)
"The Place Where Lost Things Go" (O Retorno de Mary Poppins)
"When a Cowboy Trades His Spurs for Wings" (A Balada de Buster Scruggs)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Vingadores: Guerra Infinita
Christopher Robin - Um Reencontro Inesquecível
Jogador nº 1
O Primeiro Homem
Han Solo: Uma História Star Wars

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
O Primeiro Homem
Pantera Negra
Roma
Um Lugar Silencioso
Bohemian Rhapsody

MELHOR MIXAGEM DE SOM
O Primeiro Homem
Roma
Nasce uma Estrela
Bohemian Rhapsody
Pantera Negra

Como tradição, costumo tirar dos meus palpites as categorias de Documentário e todas as três de Curta-Metragem.

ATUALIZAÇÃO: Como esperado, meu pior desempenho em anos... 13 acertos. Pelo menos 13 é Galo e eu voltei a acertar Melhor Filme depois de errar 4 anos consecutivos. Decepção Vice não levar Edição e surpresa Glenn Close perder Melhor Atriz. Mas, se não for assim não tem graça...

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Uma borboleta bate asas em Washington...


Em determinada cena de Vice, (spoiler da vida real) George W. Bush (o filho) está pedido para o experiente Dick Cheney (o devorador de planetas) ser seu vice na candidatura à presidência dos E.U.A. Com um rápido corte durante um enquadramento em Bush, tem-se a inserção de um peixe nadando. Cheney não aceita a proposta de imediato e, algumas cenas depois, está de volta ao assunto. Após expressar a Bush que acredita que a vice-presidência não é um atrativo pra ele, aparece na tela uma isca boiando no rio. Cheney conduz a conversa no seu melhor estilo, e a linha de pescar se desenrola. Cheney ressalta o papel de líder do presidente e emenda: "Talvez eu possa cuidar do trabalho mundano. Supervisionando a burocracia, gerenciando os militares, a energia, a política externa..." Pausa dramática. "Parece ótimo!", exclama Bush com o sorriso aberto. O peixe morde a isca (literalmente também).


É assim, jogando a sutileza pela janela, que o diretor Adam McKay conduz seu filme do início ao fim. Uma decisão perigosa, mas que mostra-se certeira. Não diferente de seu antecessor, o até superior A Grande Aposta, McKay mistura estilo documental com humor, cenas quase surreais com imagens reais, em benefício para o engajamento com o espectador e para dar ritmo a assuntos que poderiam ser pesados demais ou beirar o entendiante para leigos. Por vezes, nos faz lembrar (e orgulhar) de Ilha das Flores, provando que 30 anos atrás o nosso Jorge Furtado já tinha traços de genialidade.

Mesmo com um roteiro esperto e uma edição sagaz roubando a cena, não tem como ignorar as verdadeiras estrelas do filme. Das inúmeras pontas, passando pelo elenco secundário até as figuras (ou figurões) principais, as atuações são inspiradas e precisas, sob um trabalho de maquiagem impecável. Os atores somem dentro de seus personagens, e por vezes fica até aquela dúvida de se uma Condoleezza Rice ou um Colin Powell da vida não saltaram no tempo para aparecer no filme em pessoa.

Divertido e provocativo, Vice é um filme esclarecedor (ou enganador, como uma cena no meio dos créditos finais ironicamente sugere) sobre um indivíduo que não merecia ter uma obra dedicada à sua pessoa.


Vice (Vice), 2018





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Rodada Oscar: Vencedor do PGA x Vencedor do SAG



Em meio a alguns clichés e fórmulas, Green Book: O Guia, é uma boa surpresa que tem como alicerces as atuações inspiradas de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Vindo de comédias escrachadas (como Debi & Lóide Quem Vai Ficar Com Mary?) compartilhadas com seu irmão Bobby, o diretor Peter Farrelly mostra em seu voo solo que sabe equilibrar drama e humor para contar, com sensibilidade e até leveza (tão em falta hoje em dia), uma história sobre um tema grave, atual e relevante.

Green Book: O Guia (Green Book), 2018






O 18o. filme do Universo Cinematográfico da Marvel, Pantera Negra, é uma aventura sólida que transcende o gênero de super-herói. Porém, não diferentemente do que aconteceu com Podres de Ricos, é uma produção que chamou mais atenção por não se ambientar nos EUA, por se enraizar em uma outra cultura e ter praticamente todo um elenco principal (além da direção) composto por uma minoria no cenário de Hollywood. Mais uma vez, um feito louvável e que merece ser incentivado justamente para o fato de "ser exceção" não ser mais um chamariz, mas se tornar algo normal. Em essência, Pantera Negra é, no bom sentido, normal: nada muito superior (mas nem de longe inferior) que outras aventuras épicas.

Pantera Negra (Black Panther), 2018




quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Qualidade por todos os lados



Julia Roberts é a grande estrela de Homecoming, mas o elenco também conta com outras peças valiosas: Stephan James, Bobby Cannavale e Shea Whigham, além da veterana Sissy Spacek e uma reunião com o Melhor Amigo Casado de Roberts, Dermot Mulroney. Centrada em mistério e paranoia, a série da Amazon toma seu devido tempo para maturar, mesmo com duração mais curta que as de costume na mídia televisiva, culminando em episódios deliciosamente hitchcockianos. A trilha sonora, composta por trechos de composições de clássicos do suspense, terror e até ficção científica, é um show à parte. Dá gosto de ver um clímax com personagens verossímeis e situações embasadas, que não precisa recorrer a tiroteios, espetáculos pirotécnicos ou comportamentos implausíveis.

Homecoming, (1a. temporada), 2018






É difícil de dizer de onde vem mais talento em Better Call Saul: dos atores, dos diretores ou dos roteiristas. Depois de um encerramento forte na terceira temporada, a série derivada de Breaking Bad volta até mais sólida e com uma carga emocional ainda maior. As histórias paralelas são tão cativantes quanto à do protagonista e ver Jimmy McGill "breaking bad" é tão mágico e doloroso quanto ver uma transformação bem similar em Mike Ehrmantraut. Esta é uma série que motivadamente se ocupa (e se preocupa) com detalhes e, se pode parecer que pouco (em quantidade) aconteceu do primeiro ao último episódio da temporada, não resta dúvida que o ganho (em qualidade e relevância para os personagens) é enorme ao final do arco.

Better Call Saul (4a temporada), 2018






Uma espécie de Homeland britânico é talvez a melhor forma de definir Segurança Em Jogo, que traz como protagonista Richard Madden (o Robb Stark de Game of Thrones) em uma trama de política, poder, conspiração, assassinato e terrorismo. Tensa e repleta de reviravoltas (várias boas e inesperadas, outras nem tanto), a série pisa no acelerador no sexto e último episódio, deixando a sensação de que algumas coisas poderiam ter sido mais bem trabalhadas. Contudo, por seus personagens cativantes e pelo terreno fértil para enredos intrigantes, desperta o interesse por novas temporadas.

Segurança Em Jogo (Bodyguard) - 1a temporada, 2018




quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Procurando Aquaman e Maus Momentos com Pássaros



Competindo com Mulher-Maravilha como a melhor produção até agora do chamado DCEU, que reúne os principais heróis da Liga da Justiça, Aquaman é bom entretenimento. O roteiro não é lá essas coisas e, dentre as frustradas tentativas de dizer algo de relevância, o que fica mesmo é uma mensagem confusa e obscura sobre ecologia e combate à poluição dos mares. O forte mesmo são as boas cenas de ação, principalmente as fora d'água, muitas delas pequenos planos-sequência de (perdão do trocadilho) tirar o fôlego.

Aquaman (Aquaman), 2018






Maus Momentos no Hotel Royale é um longa que tem um ótimo pontapé inicial e costura um primeiro ato digno das melhores histórias de mistério. O problema é que dali pra frente toma cara de aspirante a Tarantino, se transformando em algo sem identidade e sem propósito. Infelizmente, no Hotel Royale os maus momentos superam os bons.

Maus Momentos no Hotel Royale (Bad Times at the El Royale), 2018






O grande hit da Netflix, Caixa de Pássaros (sim, Bird Box tem título oficial em português), tem suspense, tensão e uma Sandra Bullock e um John Malkovich ótimos como sempre. Mas, vende uma metáfora (sobre depressão) frágil, para não dizer desrespeitosa ou errada. Como produto final, parece que misturou elementos de O Nevoeiro, Fim dos Tempos e Um Lugar Silencioso, sem atingir o que esses têm de melhor.

Caixa de Pássaros (Bird Box), 2018






Buscando... é um thriller que traz uma proposta interessante: ser contado totalmente sob a perspectiva da tela de um computador, onde arquivos antigos, streamings em tempo real, interações em ferramentas de comunicação por vídeo, voz e texto e por redes sociais dão espaço para os personagens e desenrolam a trama. O formato funciona estranhamente bem, mas a história se beneficiaria mais se o roteiro tentasse fugir um pouquinho de clichês e da necessidade de surpreender o tempo todo.

Buscando... (Searching), 2018




domingo, 20 de janeiro de 2019

Cuidado, frágil.


Aviso: este texto não contém spoilers específicos, mas traz comentários gerais sobre Corpo Fechado, Fragmentado e Vidro que podem entregar alguns pontos das tramas destes filmes.


Embora tenha muito pelo qual ser admirado, Vidro não deve cair nas graças de muitos. O motivo é que o diretor-roteirista M. Night Shyamalan não consegue vencer o desafio que indireta ou diretamente se auto-impôs ao criar um filme (secreto) de super-herói como nenhum outro, Corpo Fechado, e 16 anos depois lançar um suspense eficaz, Fragmentado, que como num passe de mágica se revelou uma continuação (secreta) do, já cult, Corpo Fechado.

Como superar tudo isso? Bem, não foi dessa vez que a pergunta foi respondida.


Assim que a terceira parte da saga foi anunciada, o público começou a criar sua lista de desejos. Há quem quisesse embates épicos entre David Dunn, Horda e Sr. Vidro, mas o filme faz outras escolhas, bem Shyamalanescas. E, realmente, não só escolhe ser mais contido na maior parte da projeção, mas também é melhor quando está nesta condição. Esse confinamento dos protagonistas em um único local abre as portas pros pontos altos do longa, como a atuação de Samuel L. Jackson e, sobretudo, para James McAvoy dar um show ainda maior que o de Fragmentado. Ainda assim, fica a sensação de subdesenvolvimento de outros personagens, como o próprio Dunn, e a Casey Cooke de Anna Taylor-Joy, grande promessa do filme anterior - uma que inclusive alguns viam sinais de que poderia se tornar uma super-heroína. Muitas teorias de fãs foram por água abaixo e, pior, a "grande revelação" deste filme é simplesmente uma constatação de algo que já estava praticamente óbvio para quem assistiu Fragmentado por uma segunda vez, sob a perspectiva de ser uma continuação.

Não bastasse isso, Shyamalan abarrota Vidro com diálogos expositivos. No caso, o filme como um todo e não somente seu vilão-título. Esta escolha para Sr. Vidro até seria condizente e coerente com o personagem e seu plano principal, se isto não acabasse desgastando tanto a metalinguagem que funcionou tão bem em Corpo Fechado. Porém, chega a ser irritante quando fica quase impossível identificar um personagem sequer que não tenha falas que mereciam uma revisão antes do roteiro ter sido finalizado.

De qualquer forma, há o prazer de reencontrar estes personagens e desfrutar dos outros (os bons) Shyamalanismos nesta conclusão de trilogia que, mesmo não atingindo o retorno emocional esperado por seu criador, é  satisfatória sob vários aspectos.


Vidro (Glass), 2019




sábado, 19 de janeiro de 2019

No raso, raso...



Lady Gaga realmente é uma cantora talentosa e já havia provado na cerimônia do Oscar em que homenageou Julie Andrews e A Noviça Rebelde que tem potencial gigantesco fora do estilo pop que escolheu para sua carreira. Mas, convenhamos, atuar não é seu forte. E Nasce Uma Estrela é uma refilmagem que perde a oportunidade de evoluir e apresentar relacionamentos mais atuais que os das épocas de suas versões anteriores (1937, 1954 e 1976). Sobram clichês e falta originalidade. Conveniente que a canção principal seja "Shallow".

Nasce uma Estrela (A Star Is Born), 2018






Podres de Ricos ganhou destaque por dar voz e oportunidade a um elenco e equipe predominantemente asiáticos em uma produção hollywoodiana. Apesar de isto ser um feito louvável e que merece ser incentivado, verdade seja dita: tudo mais no filme pouco se diferencia de outras boas comédias americanas com a fórmula onde cada parte do casal é de um "mundo" (cultural, social) diferente.

Podres de Ricos (Crazy Rich Asians), 2018






De Harry Potter e o Prisioneiro de AzkabanGravidade, passando por Filhos da Esperança, Alfonso Cuarón sempre se mostrou um contador de história com um tino visual singular.  Seu mais recente e aclamado filme, Roma, é mais uma obra admirável por seus enquadramentos distintos e composições de cenas complexas. Mas, infelizmente, estes servem a uma história superficial. Há simbolismos, claro, mas muito deles pouco tangíveis, displicentemente escondidos sob o rótulo de filme-arte, como que numa manobra autoindulgente. Existe um contexto político-econômico, mas Cuarón apenas pincela o que está em jogo, falhando em estabelecer uma conexão para espectadores que desconheçam a história do México. Pior, o que é supostamente um estudo de personagem acaba podado por um roteiro que dá pouca voz (às vezes literalmente) à protagonista, explorando muito pouco sua persona e seu passado, dificultando o elo emocional com o público. Das poucas vezes em que verbaliza seu sentimento (no desfecho de uma cena tensa e excepcional), o resultado é apenas uma mensagem ambígua e amarga, que age em desfavor do momento mais forte do filme. Roma é arte, mas poderia ser algo um pouco mais.

Roma (Roma), 2018