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sábado, 16 de fevereiro de 2019

Uma borboleta bate asas em Washington...


Em determinada cena de Vice, (spoiler da vida real) George W. Bush (o filho) está pedido para o experiente Dick Cheney (o devorador de planetas) ser seu vice na candidatura à presidência dos E.U.A. Com um rápido corte durante um enquadramento em Bush, tem-se a inserção de um peixe nadando. Cheney não aceita a proposta de imediato e, algumas cenas depois, está de volta ao assunto. Após expressar a Bush que acredita que a vice-presidência não é um atrativo pra ele, aparece na tela uma isca boiando no rio. Cheney conduz a conversa no seu melhor estilo, e a linha de pescar se desenrola. Cheney ressalta o papel de líder do presidente e emenda: "Talvez eu possa cuidar do trabalho mundano. Supervisionando a burocracia, gerenciando os militares, a energia, a política externa..." Pausa dramática. "Parece ótimo!", exclama Bush com o sorriso aberto. O peixe morde a isca (literalmente também).


É assim, jogando a sutileza pela janela, que o diretor Adam McKay conduz seu filme do início ao fim. Uma decisão perigosa, mas que mostra-se certeira. Não diferente de seu antecessor, o até superior A Grande Aposta, McKay mistura estilo documental com humor, cenas quase surreais com imagens reais, em benefício para o engajamento com o espectador e para dar ritmo a assuntos que poderiam ser pesados demais ou beirar o entendiante para leigos. Por vezes, nos faz lembrar (e orgulhar) de Ilha das Flores, provando que 30 anos atrás o nosso Jorge Furtado já tinha traços de genialidade.

Mesmo com um roteiro esperto e uma edição sagaz roubando a cena, não tem como ignorar as verdadeiras estrelas do filme. Das inúmeras pontas, passando pelo elenco secundário até as figuras (ou figurões) principais, as atuações são inspiradas e precisas, sob um trabalho de maquiagem impecável. Os atores somem dentro de seus personagens, e por vezes fica até aquela dúvida de se uma Condoleezza Rice ou um Colin Powell da vida não saltaram no tempo para aparecer no filme em pessoa.

Divertido e provocativo, Vice é um filme esclarecedor (ou enganador, como uma cena no meio dos créditos finais ironicamente sugere) sobre um indivíduo que não merecia ter uma obra dedicada à sua pessoa.


Vice (Vice), 2018





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Rodada Oscar: Vencedor do PGA x Vencedor do SAG



Em meio a alguns clichés e fórmulas, Green Book: O Guia, é uma boa surpresa que tem como alicerces as atuações inspiradas de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Vindo de comédias escrachadas (como Debi & Lóide Quem Vai Ficar Com Mary?) compartilhadas com seu irmão Bobby, o diretor Peter Farrelly mostra em seu voo solo que sabe equilibrar drama e humor para contar, com sensibilidade e até leveza (tão em falta hoje em dia), uma história sobre um tema grave, atual e relevante.

Green Book: O Guia (Green Book), 2018






O 18o. filme do Universo Cinematográfico da Marvel, Pantera Negra, é uma aventura sólida que transcende o gênero de super-herói. Porém, não diferentemente do que aconteceu com Podres de Ricos, é uma produção que chamou mais atenção por não se ambientar nos EUA, por se enraizar em uma outra cultura e ter praticamente todo um elenco principal (além da direção) composto por uma minoria no cenário de Hollywood. Mais uma vez, um feito louvável e que merece ser incentivado justamente para o fato de "ser exceção" não ser mais um chamariz, mas se tornar algo normal. Em essência, Pantera Negra é, no bom sentido, normal: nada muito superior (mas nem de longe inferior) que outras aventuras épicas.

Pantera Negra (Black Panther), 2018




quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Qualidade por todos os lados



Julia Roberts é a grande estrela de Homecoming, mas o elenco também conta com outras peças valiosas: Stephan James, Bobby Cannavale e Shea Whigham, além da veterana Sissy Spacek e uma reunião com o Melhor Amigo Casado de Roberts, Dermot Mulroney. Centrada em mistério e paranoia, a série da Amazon toma seu devido tempo para maturar, mesmo com duração mais curta que as de costume na mídia televisiva, culminando em episódios deliciosamente hitchcockianos. A trilha sonora, composta por trechos de composições de clássicos do suspense, terror e até ficção científica, é um show à parte. Dá gosto de ver um clímax com personagens verossímeis e situações embasadas, que não precisa recorrer a tiroteios, espetáculos pirotécnicos ou comportamentos implausíveis.

Homecoming, (1a. temporada), 2018






É difícil de dizer de onde vem mais talento em Better Call Saul: dos atores, dos diretores ou dos roteiristas. Depois de um encerramento forte na terceira temporada, a série derivada de Breaking Bad volta até mais sólida e com uma carga emocional ainda maior. As histórias paralelas são tão cativantes quanto à do protagonista e ver Jimmy McGill "breaking bad" é tão mágico e doloroso quanto ver uma transformação bem similar em Mike Ehrmantraut. Esta é uma série que motivadamente se ocupa (e se preocupa) com detalhes e, se pode parecer que pouco (em quantidade) aconteceu do primeiro ao último episódio da temporada, não resta dúvida que o ganho (em qualidade e relevância para os personagens) é enorme ao final do arco.

Better Call Saul (4a temporada), 2018






Uma espécie de Homeland britânico é talvez a melhor forma de definir Segurança Em Jogo, que traz como protagonista Richard Madden (o Robb Stark de Game of Thrones) em uma trama de política, poder, conspiração, assassinato e terrorismo. Tensa e repleta de reviravoltas (várias boas e inesperadas, outras nem tanto), a série pisa no acelerador no sexto e último episódio, deixando a sensação de que algumas coisas poderiam ter sido mais bem trabalhadas. Contudo, por seus personagens cativantes e pelo terreno fértil para enredos intrigantes, desperta o interesse por novas temporadas.

Segurança Em Jogo (Bodyguard) - 1a temporada, 2018




quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Procurando Aquaman e Maus Momentos com Pássaros



Competindo com Mulher-Maravilha como a melhor produção até agora do chamado DCEU, que reúne os principais heróis da Liga da Justiça, Aquaman é bom entretenimento. O roteiro não é lá essas coisas e, dentre as frustradas tentativas de dizer algo de relevância, o que fica mesmo é uma mensagem confusa e obscura sobre ecologia e combate à poluição dos mares. O forte mesmo são as boas cenas de ação, principalmente as fora d'água, muitas delas pequenos planos-sequência de (perdão do trocadilho) tirar o fôlego.

Aquaman (Aquaman), 2018






Maus Momentos no Hotel Royale é um longa que tem um ótimo pontapé inicial e costura um primeiro ato digno das melhores histórias de mistério. O problema é que dali pra frente toma cara de aspirante a Tarantino, se transformando em algo sem identidade e sem propósito. Infelizmente, no Hotel Royale os maus momentos superam os bons.

Maus Momentos no Hotel Royale (Bad Times at the El Royale), 2018






O grande hit da Netflix, Caixa de Pássaros (sim, Bird Box tem título oficial em português), tem suspense, tensão e uma Sandra Bullock e um John Malkovich ótimos como sempre. Mas, vende uma metáfora (sobre depressão) frágil, para não dizer desrespeitosa ou errada. Como produto final, parece que misturou elementos de O Nevoeiro, Fim dos Tempos e Um Lugar Silencioso, sem atingir o que esses têm de melhor.

Caixa de Pássaros (Bird Box), 2018






Buscando... é um thriller que traz uma proposta interessante: ser contado totalmente sob a perspectiva da tela de um computador, onde arquivos antigos, streamings em tempo real, interações em ferramentas de comunicação por vídeo, voz e texto e por redes sociais dão espaço para os personagens e desenrolam a trama. O formato funciona estranhamente bem, mas a história se beneficiaria mais se o roteiro tentasse fugir um pouquinho de clichês e da necessidade de surpreender o tempo todo.

Buscando... (Searching), 2018




domingo, 20 de janeiro de 2019

Cuidado, frágil.


Aviso: este texto não contém spoilers específicos, mas traz comentários gerais sobre Corpo Fechado, Fragmentado e Vidro que podem entregar alguns pontos das tramas destes filmes.


Embora tenha muito pelo qual ser admirado, Vidro não deve cair nas graças de muitos. O motivo é que o diretor-roteirista M. Night Shyamalan não consegue vencer o desafio que indireta ou diretamente se auto-impôs ao criar um filme (secreto) de super-herói como nenhum outro, Corpo Fechado, e 16 anos depois lançar um suspense eficaz, Fragmentado, que como num passe de mágica se revelou uma continuação (secreta) do, já cult, Corpo Fechado.

Como superar tudo isso? Bem, não foi dessa vez que a pergunta foi respondida.


Assim que a terceira parte da saga foi anunciada, o público começou a criar sua lista de desejos. Há quem quisesse embates épicos entre David Dunn, Horda e Sr. Vidro, mas o filme faz outras escolhas, bem Shyamalanescas. E, realmente, não só escolhe ser mais contido na maior parte da projeção, mas também é melhor quando está nesta condição. Esse confinamento dos protagonistas em um único local abre as portas pros pontos altos do longa, como a atuação de Samuel L. Jackson e, sobretudo, para James McAvoy dar um show ainda maior que o de Fragmentado. Ainda assim, fica a sensação de subdesenvolvimento de outros personagens, como o próprio Dunn, e a Casey Cooke de Anna Taylor-Joy, grande promessa do filme anterior - uma que inclusive alguns viam sinais de que poderia se tornar uma super-heroína. Muitas teorias de fãs foram por água abaixo e, pior, a "grande revelação" deste filme é simplesmente uma constatação de algo que já estava praticamente óbvio para quem assistiu Fragmentado por uma segunda vez, sob a perspectiva de ser uma continuação.

Não bastasse isso, Shyamalan abarrota Vidro com diálogos expositivos. No caso, o filme como um todo e não somente seu vilão-título. Esta escolha para Sr. Vidro até seria condizente e coerente com o personagem e seu plano principal, se isto não acabasse desgastando tanto a metalinguagem que funcionou tão bem em Corpo Fechado. Porém, chega a ser irritante quando fica quase impossível identificar um personagem sequer que não tenha falas que mereciam uma revisão antes do roteiro ter sido finalizado.

De qualquer forma, há o prazer de reencontrar estes personagens e desfrutar dos outros (os bons) Shyamalanismos nesta conclusão de trilogia que, mesmo não atingindo o retorno emocional esperado por seu criador, é  satisfatória sob vários aspectos.


Vidro (Glass), 2019




sábado, 19 de janeiro de 2019

No raso, raso...



Lady Gaga realmente é uma cantora talentosa e já havia provado na cerimônia do Oscar em que homenageou Julie Andrews e A Noviça Rebelde que tem potencial gigantesco fora do estilo pop que escolheu para sua carreira. Mas, convenhamos, atuar não é seu forte. E Nasce Uma Estrela é uma refilmagem que perde a oportunidade de evoluir e apresentar relacionamentos mais atuais que os das épocas de suas versões anteriores (1937, 1954 e 1976). Sobram clichês e falta originalidade. Conveniente que a canção principal seja "Shallow".

Nasce uma Estrela (A Star Is Born), 2018






Podres de Ricos ganhou destaque por dar voz e oportunidade a um elenco e equipe predominantemente asiáticos em uma produção hollywoodiana. Apesar de isto ser um feito louvável e que merece ser incentivado, verdade seja dita: tudo mais no filme pouco se diferencia de outras boas comédias americanas com a fórmula onde cada parte do casal é de um "mundo" (cultural, social) diferente.

Podres de Ricos (Crazy Rich Asians), 2018






De Harry Potter e o Prisioneiro de AzkabanGravidade, passando por Filhos da Esperança, Alfonso Cuarón sempre se mostrou um contador de história com um tino visual singular.  Seu mais recente e aclamado filme, Roma, é mais uma obra admirável por seus enquadramentos distintos e composições de cenas complexas. Mas, infelizmente, estes servem a uma história superficial. Há simbolismos, claro, mas muito deles pouco tangíveis, displicentemente escondidos sob o rótulo de filme-arte, como que numa manobra autoindulgente. Existe um contexto político-econômico, mas Cuarón apenas pincela o que está em jogo, falhando em estabelecer uma conexão para espectadores que desconheçam a história do México. Pior, o que é supostamente um estudo de personagem acaba podado por um roteiro que dá pouca voz (às vezes literalmente) à protagonista, explorando muito pouco sua persona e seu passado, dificultando o elo emocional com o público. Das poucas vezes em que verbaliza seu sentimento (no desfecho de uma cena tensa e excepcional), o resultado é apenas uma mensagem ambígua e amarga, que age em desfavor do momento mais forte do filme. Roma é arte, mas poderia ser algo um pouco mais.

Roma (Roma), 2018




quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Deixando 2018... (pra valer)


(Agora, sim) Chegou aquele momento de fazer minha lista dos melhores do ano (considerando os que eu consegui ver, claro):

01. Um Lugar Silencioso


02. Jogador Nº 1

03.Os Incríveis 2

04. Primeiro Homem

05. Infiltrado na Klan

06. Três Estranhos Idênticos

07. Bohemian Rhapsody


08. Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas

09. Bumblebee

10. Han Solo: Uma História de Star Wars


Se fosse para considerar também os de 2017 que foram lançados aqui no Brasil somente em 2018, a lista ficaria assim:

01. Um Lugar Silencioso

02. Jogador Nº 1

03. Três Anúncios Para Um Crime


04. The Post: A Guerra Secreta

05.Os Incríveis 2

06. Viva - A Vida é Uma Festa

07. Primeiro Homem

08. Eu, Tonya

09. Infiltrado na Klan

10. Três Estranhos Idênticos


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Primeiro o homem, depois o robô, por fim os homens



A proposta é até batida: "A façanha todos conhecem, agora vamos contar a história do homem por trás dela". E durante Primeiro Homem me peguei surpreso com o quão pouco (ou quase nada) eu sabia sobre a vida de Neil Armstrong, mesmo tendo passado a adolescência fascinado com viagens espaciais, NASA e ficção-científica. O filme faz um trabalho primoroso em humanizar uma figura definida somente pelo seu feito e acaba tendo a difícil missão de se sustentar em órbita de um protagonista imperfeito e muitas vezes nada simpático. Destaque para a bela trilha sonora de Justin Hurwitz e para os designs de produção e de som, que potencializam os riscos daquela corrida espacial que provavelmente atropelava pontos de segurança na pressão pela conquista da supremacia tecnológica.

Primeiro Homem (First Man), 2018





Em 2007, Michael Bay pegou um dos sonhos de qualquer criança dos anos 1980 e jogou no lixo. Transformou (vejam só) Transformers em um filme de ação genérico, um amontoado de explosões e efeitos visuais servindo a cenas confusas e desprovidas de emoção. E decidiu que o Autobot mais legal não seria um simpático Fusquinha, mas um Camaro. Só para ser cool (e inspirar uma dispensável canção sertaneja). E nada melhorou nas continuações dirigidas por ele mesmo. Passado o bastão para Travis Knight (experiente com stop-motion e em sua estréia em filmes de "carne-e-osso"), finalmente surge um filme dos Transformers com coração, sem afobação, com fusca e com tempo para se conhecer uma personagem feminina não objetificada. Boa parte do carisma de Bumblebee se deve à ambientação oitentista, com uma seleção nostálgica de canções para a trilha sonora. O pior do filme é fazer lembrar, nos minutos finais, que não se trata de um reboot nem de spin-off, mas de um prequel diretamente ligado aos filmes do Michael Bay.

Bumblebee (Bumblebee), 2018





Infiltrado na Klan é uma daquelas produções que reconta uma história real, que quase ninguém conhece e que, beirando o absurdo, todos achariam muito fantasiosa se fosse só uma obra de ficção. O filme aproveita de acontecimentos improváveis e brinca com a estética, trazendo humor para um cenário em que a tensão vai escalando a cada desdobramento da trama. O elenco está afiadíssimo, porém o cineasta Spike Lee escorrega um pouco ao pesar a mão nas referências e paralelismos com o cenário político atual dos E.U.A., culminando na exibição de imagens reais divulgadas nos noticiários em 2017, antes dos créditos finais.

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman), 2018