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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Uma noite na ópera e um dia na corrida



"Is this the real life? Is this just fantasy?" Parece até proposital que tenha sido escolhida a canção que se inicia com estes dizeres para dar título ao filme sobre o grupo britânico Queen. Por um lado, tem-se a atuação incrível de Rami Malek como Freddie Mercury, carregando a produção nas costas e ofuscando boas atuações de coadjuvantes (que parecem escolhidos a dedo pelas semelhanças físicas com seus personagens), e recriações meticulosas de eventos reais, com destaque para a eletrizante apresentação do quarteto no Live Aid. Por outro lado, tem-se anacronismos, desvios, omissões ou reinvenções de fatos e a suavização de elementos da vida pessoal de Mercury. Mas, os que criticam precisam entender que cinema não é aula de história e cinebiografias não são documentários. O roteiro é, de fato, esquemático e acrescenta pouco ao gênero e aos mais fanáticos com a banda, mas o filme se move com o poder de músicas emblemáticas e torna a história de um artista, e sua arte, acessível a uma gama muito maior de pessoas. "Anyway the wind blows..."

Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody), 2018




De forma recorrente durante seu primeiro longa-metragem, os integrantes dos Jovens Titãs ouvem "Vocês são uma piada!". E são mesmo. E isso é ótimo. Com referências incessantes à Warner, à DC, à concorrente Marvel (com direito a uma ponta surpreendente do, agora saudoso, Stan Lee)  e a outros ícones do universo pop-geek, a animação provê diversão pura simplesmente ao não se levar a sério. Bem como Os Simpsons: O Filme, não consegue deixar de parecer um episódio esticado para ser configurado como 'cinema', mas sem demérito algum. Pouco mais de um ano depois de LEGO Batman: O Filme, a DC conseguiu lançar sua segunda melhor produção em que reúne Batman com Superman. Nesse ritmo, o DCU se tornará descartável.

Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas (Teen Titans Go! To the Movies), 2018


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O terror, o terror, o terror...


Pra ir entrando no clima do Halloween...



"Se pelo menos servisse para nos unir mais" diz, em determinado momento de Hereditário, a desamparada personagem de Toni Collete na busca de um propósito face à gratuidade de uma tragédia que aplaca sua família. Porém, ela está diante da realidade amarga de que não há nada a mais, não há um bem maior e, infelizmente, esse é também o mote do filme como um todo. Na contramão das melhores produções de terror, cujos desfechos são recompensatórios ou cujas jornadas funcionam bem como metáforas, não há nada substancial de se tirar do enredo. Aterrorizante e perturbador, prefere chocar a assustar. Não recomendado para pais e mães. 

Hereditário (Hereditary), 2018






“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido.”  É com essa citação a H.P. Lovecraft que a produção independente O Culto abre e se sustenta. O clima é de constante apreensão, mas à medida que a trama faz a esperada transição de paranoia para sobrenatural, passa a perder viés de terror e vai mergulhando em ficção científica pesada. Interessante, mas aquém de outras produções de baixo orçamento, como o mais complexo Coherence, o mais acessível Complicações do Amor e o mais bem amarrado Crimes Temporais.

O Culto (The Endless), 2018






"O cérebro enxerga o que quer enxergar" é uma frase recorrente de Ghost Stories, um filme de fantasma tradicional que se faz valer também do humor (negro) britânico. Contando com pelo menos dois atores de destaque, Martin Freeman (o Dr. Watson de Sherlock) e Alex Lawther (de um dos episódios mais intrigantes -e deprimentes- de Black Mirror), a principal aposta é em sustos, muitos deles clichês, mas praticamente todos eficazes. O problema é que o roteiro se acha mais inteligente do que é e tira da manga um desfecho certo de que o público demandará mais uma assistida para pegar as pistas. Só que a conclusão não passa de anticlimática e batida (praticamente igual à de determinada produção de 2005).

Ghost Stories (Ghost Stories), 2018




sábado, 8 de setembro de 2018

Colhendo


Fim de almoço, TV ligada no 'Terras de Minas'. De repente, me dou conta que mudou para 'Só Toca Top'. Começa a tocar Harmonia do Samba e meu filho (agora com 7 anos) de olho.

- Tá na hora de trocar de canal, hein?!

- Mas, pai, vai ter Beatles no Só Toca Top!

- Não, filho, não vai.

- Vai! Eu vi um cara dos Beatles.

- Não, filho, não viu.

- Vi, sim. Um cara dos Beatles com violão.

- Não era um cara dos Beatles.

- Era, sim! Eu vi.

- Menino, era outra coisa, mas não Beatles!

- Era. Dos Beatles. Com violão.

- Não, não era!

- Eu vi e ponto final.
(pronto, não há mais como conter a irritação)

- Olha, um cara dos Beatles NÃO vai no Só Toca Top!

- Vaaaai.

- Não vai, não!
(ele aponta pro cara do Harmonia do Samba:)

- Eu vi esse cara aí antes e ele tá tocando agora, então o cara dos Beatles vai tocar também.

- Olha, se tiver um cara dos Beatles no Só Toca Top, você pode me chamar de Priscilla!!!
(3 segundos de silêncio, meu filho processando a informação)

- Ei Priscilla...

- Ou! Não!!! Não pode!

- Uai, pode! Eu vi um cara dos Beatles com violão no Só Toca Top.

- Não! É a partir de agora!

- É a partir de agora que eu tenho que te chamar de Priscilla?

- Não! Arrgh. É a partir de agora que tem que aparecer um cara dos Beatles pra você poder me chamar de Priscilla!
(silêncio permanece até o fim do Harmonia do Samba)

- Pai... do que é pra eu te chamar mesmo?

- De nada, menino!

- Não, se aparecer um cara dos Beatles, do que é pra eu te chamar?

- De nada! Você pode prestar atenção aí nessa porcaria de programa, que NÃO VAI tocar um cara dos Beatles.

- É de Priscilla, né?

- ...

- Mãe... me mostra uma foto dos quatro Beatles?


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

is ação

Na última postagem escrevi que "os 14 anos de evolução nas técnicas de animação" (...que separam o primeiro filme deste...) "se fazem presentes em tela e Os Incríveis 2 proporciona cenas inventivas e inspiradas que se destacam mesmo depois da Marvelização do cinema neste meio tempo".

Por algum motivo, o termo 'marvelização' soou negativo e pareceu pejorativo. Não é essa a intenção.

O primeiro Os Incríveis surgiu em uma era pré-Universo Cinematográfico da Marvel e, pra citar outro exemplo, pré-Trilogia Cavaleiro das Trevas. Mesmo com uns dois X-Men e uns dois Homens-Aranhas (espero ter acertado o plural) no mercado, ainda havia um certo ceticismo (quiçá preconceito) em torno do subgênero de super-heróis. Além disso, seja por restrições orçamentárias ou técnicas (ou ambas), as produções passavam bastante tempo com os heróis sem máscara e fora de cenas de ação. Para Os Incríveis, a Pixar usou seu DNA cativante e concebeu um filme de super-herói como realmente um filme de super-herói deveria ser: emocionante, empolgante e espetacular.


Quatro anos depois, partindo da cena pós-créditos de Homem de Ferro, a Marvel deu o pontapé inicial do seu Universo Cinematográfico e, com todo o mérito, sacudiu o subgênero. O feito de Os Incríveis (uma animação) passou a parecer algo corriqueiro, pois todo filme de super-herói (com atores de carne-e-osso) se tornara emocionante, empolgante e espetacular.  E o balizamento por estes novos patamares de qualidade em ação e entretenimento neste tipo de filme é o que chamo de 'marvelização'. Algo difícil de se superar, ou até mesmo de se manter.

A própria Marvel, em seus dez anos de MCU com 19 filmes lançados, nem sempre se superou em termos de inventividade e inspiração. Não há como negar que raramente criou algo tedioso ou mal feito, mas, cenas realmente memoráveis dentre tantas tão bem elaboradas, também é difícil de se elencar. Destaques existem, como a imbatível sequência de Doutor Estranho que se desenrola em duas orientações temporais, mas a cada filme lançado, mais alto ficou o padrão e maior passou a ser o desafio para a produção seguinte.

É nesse sentido que "Os Incríveis 2 proporciona cenas inventivas e inspiradas que se destacam mesmo depois da Marvelização do cinema". Partindo de um nível já alto, a animação traz sequências que ainda parecem novas, como a da perseguição da Mulher Elástica usando uma moto bipartida, as cenas com as mudanças ininterruptas de poder de Zezé e, principalmente, as com as intervenções da nova personagem, Voyd, e seus portais. Vários acenos de genialidade, mesmo que advindos de um roteiro longe de perfeito.

E a resposta à (ou evolução da) Marvelização pode ser a, nada fácil,  Incrivelização do cinema.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

O mundo (jurássico) gira e o que foi incrível nunca deixa de ser



Depois de uma boa sacudida na franquia, o mundo jurássico volta às telas dependendo novamente do carisma de Chris Pratt e do fascínio do imaginário popular pelas criaturas (ops, agora "animais", não "criaturas"). E se o frescor de ideias já está quase extinto, pelo menos o diretor espanhol J.A. Bayona deixa sua marca e garante sequências de ação empolgantes e, por vezes, verdadeiramente assustadoras, como não se via há 25 anos, desde o Jurassic Park original. O roteiro, na busca (desesperada?) por escavações mais profundas, se aventura em uma temática de ficção científica ainda inexplorada na série e abre novas possibilidades para a terceira parte desta nova trilogia, prevista para 2021.

Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom), 2018





A temporada de férias da criançada é recheada de continuações, mas talvez a mais aguardada (pelos velhotes inclusive) tenha sido a do Sr. Incrível e sua família. E a longa espera valeu à pena, pois os 14 anos de evolução nas técnicas de animação se fazem presentes em tela e Os Incríveis 2 proporciona cenas inventivas e inspiradas que se destacam mesmo depois da Marvelização do cinema neste meio tempo. Claro que a trama de 'cuidado ao confiar no milionário que ofereceu um emprego' com 'precisamos aprender a combater como um família' é extremamente similar à do primeiro e a parcela de 'o homem tem que aprender a cuidar da casa, enquanto a mulher sai para ganhar o sustento do lar' é datada. Mas, a aventura, o humor e, como não podia deixar de ser, Zezé garantem uma diversão daquelas.

Os Incríveis 2 (The Incredibles 2), 2018




quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Uma história que não ficou na história e uma história que não foi da história



Uma produção que dificilmente entraria no meu radar, não fosse a temporada de premiações é Eu, Tonya. Uma grata surpresa, o filme faz muito mais que uma cinebiografia padrão e impõe seu estilo para brincar com o que foi de fato verdade e o que pode não ter sido.  O maior exemplo é um personagem secundário, esquisito e sem noção beirando o caricato, cuja figura na vida real aparece nos créditos finais, em imagens documentais, se expressando da mesma forma surreal como foi interpretado. As atuações de Margot Robbie e Alisson Janney (que renderam respectiva e merecidamente uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz e uma estatueta de Atriz Coadjuvante) são memoráveis.

Eu, Tonya (I, Tonya), 2017






A Morte de Stalin é outro que, se não estivesse figurando nas principais listas dos melhores filmes do ano até o momento, dificilmente teria chamado minha atenção. Só que, embora tenha um elenco de peso e um roteiro repleto de boas sacadas e tiradas, esta sátira não decola. Por vezes arrastada, a comédia dramática não tem compromisso qualquer com a história e simplesmente não é tão engraçada quanto acha que é: menos Monty Python do que dizem por aí e mais Irmãos Coen do que deveria.

A Morte de Stalin (The Death of Stalin), 2018




terça-feira, 14 de agosto de 2018

Carrie perto do fim, Dolores sabe-se lá quando, Marty no começo

O que andou rolando na telinha...



Sempre se reinventado, a série consegue se manter relevante e tensa, sustentado-se principalmente em bons personagens, amparados por excelentes atuações e roteiros redondos, que entretêm ao mesmo tempo em que discutem temas atuais. Foi que escrevi sobre a sexta temporada de Homeland. E exatamente o mesmo pode ser escrito para a sétima. A diferença é que esta penúltima temporada termina com um tom sombrio e deixa uma enorme (e boa) interrogação sobre qual será o mote da conclusão da série em seu oitavo e derradeiro ano.

Homeland (7a. temporada), 2018





Reinvenção também é a palavra para Westworld, com uma segunda temporada que não é mais do mesmo - tanto em termos de estrutura quanto em termos de temas. Sem deixar de lado as viagens filosóficas (desta vez entrando em território mais Black Mirror), agora o avançar da trama e a expansão da mitologia se sobrepõem ao desenvolvimento de personagens. Tecnicamente, o drama da HBO continua primoroso, com uma belíssima fotografia, mas seu roteiro sofre para equilibrar diversas linhas temporais não lineares. A coisa acaba ficando especialmente confusa com o último episódio (potencializado pela cena pós-créditos) que ainda descarrega uma enxurrada de reviravoltas. Tanta reinvenção que fica incerto o rumo que a série poderá tomar (e até se fará sentido continuar com o mesmo título).

Westworld (2a. temporada), 2018





Com tanta TV de qualidade na atualidade, é difícil para uma série nova realmente se destacar. E Ozark quase consegue. Sombria, tensa, intrigante e com personagens interessantes em situações inesperadas, como tantas outras, a produção da Netflix tenta se diferenciar ao mirar o impactante, como tantas outras. Buscando conquistar com um tom realista, escorrega justamente por recorrer a tanto desdobramento inverossímil. E se a vertente dramática de Jason Bateman, tão conhecido por suas atuações em comédias, é o ponto alto, a direção de Jason Bateman é ponto baixo, com enquadramentos óbvios e escolhas narrativas corriqueiras.

Ozark (1a. temporada), 2017




sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Não deixe o blog morrer, não deixe o blog acabar...


"Não diga que você não tem tempo, seja honesto e diga que não é sua prioridade."

Li essa frase outro dia e ela me desarmou na desculpa de 'não ando tendo tempo pro blog'.

Há mais de dois meses não publico nada por aqui, apesar de já ter assistido nesse ínterim a séries e filmes (poucos, é verdade, mas...) que poderiam ter rendido comentários. Mesmo ainda gostando da ideia de fazer um registro para mim mesmo no futuro (e para as duas ou três boas almas que persistem em gastar tempo com o Padecin), o fato é que o temp... as prioridades pessoais e profissionais se sobrepuseram e restou ao blog bolas de feno rolando como numa cidade-fantasma ao som de um tema melancólico de faroeste.

Cheguei em pensar num post derradeiro encerrando as atividades, mas ficou o receio de bater um arrependimento depois. Novembro está logo ali com o marco de 10 anos após a primeira postagem. Seria possível esticar um pouquinho mais a sobrevida do blog para alcançar esta data simbólica? E de repente a empolgação e as prioridades se rearranjariam?

Bom, vou tentar.

De cara, acho que o objetivo é fazer um post periódico com tudo que assisti desde o post anterior, contendo apenas um resumo do que eu iria escrever sobre cada filme (que já eram textos pequenos) e simplesmente jogando a nota que eu iria dar. Cúmulo da preguiça na era em que ler é um luxo.

Mas, ao menos uma vez por mês nas atuais circunstâncias é algo factível. Não é bem uma meta - vou deixar a meta aberta, mas, quando atingir a meta, vou dobrar a meta. Aí, dobrando a meta, de repente aos poucos volto ao ritmo das épocas de glória do blog.

De qualquer forma, declaro o Padecin ressuscitado.


Mesmo que corra o risco mais de parecer um twitter.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Um Solo é pouco


Quem imaginar que Han Solo: Uma História de Star Wars é o equivalente àquela sequência inicial de Indiana Jones e a Última Cruzada em que River Phonenix encena como um jovem Indy conseguiu seu chapéu, sua cicatriz no queixo, seu medo de cobras, etc, só que esticado em mais de duas horas, não está totalmente errado. A boa notícia é que é são duas horas empolgantes e divertidas, que fazem jus a um dos melhores personagens da história do cinema. 

É verdade que nem todas as (se alguma das) características e marcas registradas do carismático contrabandista precisavam de uma história de origem e também que um bocado delas decepciona nesse filme, mas outras tantas agradam e, mesmo esperadas,  ainda surgem como elemento surpresa. Não que toda reviravolta funcione, mas a produção tem material original suficiente para fugir do óbvio e surpreender um espectador que já conhece o desfecho geral da história.


Esta condição de pré-continuação para as 'histórias de Star Wars' é algo de que a Lucasfilm e a Disney ainda não conseguiram se desvencilhar.  A proposta de construir narrativas independentes naquele universo ainda não foi cumprida. Enquanto Rogue One contava eventos que precediam diretamente o Guerra nas Estrelas original, Episódio IV: Uma Nova Esperança, o filme de Han Solo se aproveita fortemente de personagens já conhecidos da saga dos Skywalkers. E é também curioso como que ambos se prestam para aludir a supostos furos, dúvidas e até picuinhas dos fãs mais ardorosos da trilogia original.

A produção também traz conexões com os Episódios I, II e III, com uma passagem que gera confusão para quem assistiu somente às obras feitas para o cinema e não acompanhou as séries animadas Star Wars: The Clone Wars e Star Wars Rebels. Mais um momento inesperado e indesejado por aqueles que querem esquecer que a era Jar Jar Binks sequer existiu e/ ou que não concordam que conhecer os derivados para televisão deveria ser premissa para apreciação de um filme.

Quando está se divertindo sendo uma mistura de "filme de assalto" e faroeste intergalático é que Han Solo ganha mais pontos. Quando tenta se levar a sério e ser engajado, se perde. Maior exemplo é o da androide L3, que serve tanto como alívio cômico quanto como voz política ao pregar o livre pensamento dos robôs, mas recebe um desfecho totalmente incoerente e questionável (principalmente para quem está na mesma linha filosófica de alguns episódios de Black Mirror). Certas decisões dos roteiristas Lawrence e Jonathan Kasdan (pai e filho) são incompreensíveis. 

Mas, o veterano Lawrence, como não podia deixar de ser, é peça fundamental na construção respeitosa do mesmo personagem que o público sempre conheceu. Sua sensibilidade e a excelente, inspirada e precisa atuação de Alden Ehrenreich, consagram o trabalho quase impossível de recriar Han sob a sombra de Harrison Ford, sem se limitar ou parecer uma imitação e nem se distanciar ou se esconder atrás da desculpa de ser "uma nova versão" do mesmo.

As concepções visuais também não se restringem a homenagear às dos filmes existentes e há bastante espaço para criatividade, como o design de Lady Proxima e os elementos que circundam o vilão Dryden Vos: sua nave verticalizada, suas "adagas de luz" (?) e a dupla cantante em sua festa, que traz uma sonoridade que parece verdadeiramente alienígena. A própria trilha sonora de John Powell acrescenta algo de novo, com destaque para o tema de Enfys Nest e seu bando, e pega emprestado as melodias conhecidas do seu xará Williams somente na medida certa.

Na contramão do recém confirmado filme centrado em Boba Fett, esta história de Star Wars supera o ceticismo e não se apresenta como um caça-níquel. E, principalmente, não se tornou o frankenstein que poderia ter sido após sua produção atribulada por problemas de bastidores que levaram à troca de diretores no meio do caminho. Quando a Millenium Falcon salta para o hiperespaço e as luzes se do cinema se acendem, as falhas parecem ficar pra trás e só segue viagem a vontade de testemunhar novas aventuras que Han e Chewie ainda têm para desbravar antes de conhecerem Luke em Mos Eisley.


Han Solo: Uma História de Star Wars (Solo: A Star Wars Story), 2018

sábado, 12 de maio de 2018

Jogando tudo pro ar


A proposta é conhecida. Um grupo de amigos de meia idade se reúne em um encontro noturno inocente e eventos inesperados começam a acontecer. Os desdobramentos vão se intensificando e saindo de controle, muito em consequência de decisões erradas dos personagens, por simples falta de experiência ou de noção da realidade que os acerca. Mesmo não deixando de parecer uma mistura de Os 7 Suspeitos (comédia inspirada no jogo Detetive) com Vidas em Jogo (thriller dirigido por David Fincher), além de filmes sobre o submundo do crime moderno, A Noite do Jogo consegue parecer original e empolgante, em meio a tanta comédia genérica e apática.


Jogos de tabuleiro clássicos moldam a produção, tanto no seu enredo, quanto na composição de cenas e personagens. Os diretores abraçam o tema e inserem situações em que personagens agem tal como se estivessem participando de jogos, muitas vezes involuntariamente, como na cena que se desenrola como uma brincadeira de "batata quente" num divertido e bem feito plano sequência. Destaque também para o uso de tilt-shift em alguns planos gerais, quando as imagens dão uma ilusão de miniatura, remetendo a peças e cenários de um tabuleiro.

Com destaque para Jesse Plemons interpretando o vizinho policial pra lá de esquisito, a escolha do elenco é acertada, ainda que a pegada cômica pareça por vezes exagerada. O problema é que enquanto o já mencionado Os 7 Suspeitos assumia sua postura caricata, o roteiro de A Noite do Jogo tenta em alguns momentos dosar o humor da comédia com os perigos concretos de um thriller policial, sem ter completo sucesso em equilibrar o tom nessa mescla de gêneros.

Despretensioso e engraçado, o filme vale ser o substituto de uma noitada de jogatina com os amigos. E, pro bem ou pro mal, é tão memorável quanto.


A Noite do Jogo (Game Night), 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

Darker things


Uma pequena cidade, uma instalação misteriosa, conexões com outras dimensões, crianças desaparecidas, mapas, passagens subterrâneas, buscas noturnas, ambientação nos anos 80, componentes fantásticos e muito mistério. Esses elementos, misturados com temas maduros (suicídio, morte de crianças, adultério, sexo, crise existencial, para citar alguns), fizeram Dark ser rotulada de 'Stranger Things para adultos'. Mas, a comparação não sobrevive além destes pontos básicos e a primeira série alemã da Netflix se mostrou bem diferente da encabeçada por Dustin, Eleven e o Demogorgon.

Por vários motivos como tom, ritmo, escolhas para desenvolvimento dos personagens, a singularidade européia e o fato de não ser falada em inglês, além de uma recorrente e insistente trilha sonora que potencializa o suspense, a proximidade é muito maior com a francesa Les Revenants. E o ingrediente principal é bem destoante da série americana situada em Hawkins: viagem no tempo.


Alternando-se em saltos de 33 anos (entre 1953, 1986 e 2019), Dark se esbalda com paradoxos temporais de deixar qualquer fã de ficção-científica maluco. No bom sentido. É preciso bastante atenção para que detalhes não passem batido e há que se estar no clima correto para abraçar a natureza complexa de um presente que só existe porque personagens interferiram originalmente no passado. Não que seja tão difícil de acompanhar como Primer, já que existem vários momentos em que a edição pega na mão do espectador, como no em que a tela se divide em duas para comparar personagens do passado com suas versões do presente. Recurso, aliás, desnecessário já que um dos grandes trunfos da série é a escolha de um elenco em que  crianças/ adolescentes se parecem muito com suas contrapartes adultas/ idosas.

Ao lidar com este tipo de enredo a palavra-chave é planejamento. O roteiro não é tão redondo quanto ao do filme espanhol Crimes Temporais, mas se sai muito bem com um escopo muito maior e mais ambicioso.Porém, embora a jornada da primeira temporada seja interessantíssima, a conclusão é insatisfatória. Não há o fechamento de um arco principal e perguntas novas são criadas em uma taxa muito superior à de perguntas respondidas. Caso não tivesse sido anunciada uma segunda temporada, Dark deixaria um gosto amargo, que por enquanto está suspenso na confiança de que esteja mesmo amparada por um grande planejamento ao longo prazo.

Fica a torcida para que as mentes criativas não se percam e que os espectadores não terminem com a sensação de tempo perdido. Pois, não há como voltar no tempo.

A não ser que já tenha acontecido. E que ninguém tenha alterado a linha temporal em loop. Ou não. O tempo dirá.


Dark (1a. temporada), 2017




domingo, 8 de abril de 2018

Silêncio gritante


John Krasinski é um ator conhecido por comédias que teve acesso ao roteiro de um longa-metragem de terror e decidiu abraçá-lo como um projeto pessoal. Dedicou-se a reescrever parte do mesmo e, além de atuar, assumiu o papel de produtor executivo e a cadeira de diretor. De quebra, elencou a esposa Emily Blunt no papel feminino principal. Tamanha paixão acabou transparecendo no resultado surpreendente de Um Lugar Silencioso.


Pegando muito emprestado de Tubarão, ao provocar a plateia com o subentendido - o não explícito, e de Alien, o Oitavo Passageiro, com cenas enervantes envolvendo o desconhecido em espaços restritos, a produção também parece muito um filme de M. Night Shyamalan. O ritmo mais lento e o clima latente de medo do diretor indiano são observados neste filme e Kransiski demonstra maestria ao compor sequências, enquadrar imagens e criar conceitos genuinamente apavorantes, que fazem os espectadores prenderem a respiração. Nem que seja para não fazer barulho.

A trilha sonora colabora e a esperta edição de som é um diferencial, jogando muito bem com o papel do silêncio e do som, tema motriz da trama. Com a missão difícil de não se sustentar em diálogos, as atuações são inspiradas, destacando-se a jovem Millicent Simmonds, surda desde a infância, em apenas seu segundo longa-metragem.

Krasinski só não se arrisca em uma reviravolta shyamalesca, mesmo porque aqui seria desnecessária, e também esbarra em alguns pontos que podem facilmente ser alvos de críticas. Sua história simples não deixa de se assemelhar em vários aspectos ao ótimo Sinais e, em ambos, as premissas assumidas, a dinâmica das regras e o próprio funcionamento da sociedade no cenário proposto podem fazer a lógica do filme desmoronar se analisados com um pouco mais de critério.

Seja como for, Um Lugar Silencioso é uma experiência intensa e aterradora, pelos bons motivos, e vale ser visitado por todos fãs de cinema.


Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), 2018


domingo, 1 de abril de 2018

Bola quadrada


Em uma época em que as animações são, em sua maioria esmagadora, feitas por computador, é revigorante ver que existe mercado para técnicas tradicionais como o stop-motion com massinhas. Porém, mesmo sendo um chamativo à parte, o formato nunca vai ser mais importante que um bom roteiro.


O Homem das Cavernas tem o visual charmoso de outros lançamentos da Aardman, como Wallace e Gromit, A Fuga da Galinhas e Piratas Pirados!, mas ficam aquém dos mesmos por escorregar no roteiro. Existem os toques únicos e característicos da produtora, e o divertido pombo(papagaio?)-correio é prova de seu potencial. Só que de uma forma geral, as piadinhas são fracas e a história é previsível e pouco inspirada.

Em sua versão dublada, o protagonista que precisa liderar sua tribo da idade da pedra em uma "batalha campal" contra os invasores da idade do bronze ganha voz através do humorista Marco Luque, com direito a piadinha interna desnecessária: "serhumaninho passando!". Seu trabalho só ajuda a expor os diálogos ruins e aumenta a sensação de que este projeto teria se beneficiado se fosse, como o anterior da Aardman Shaun, o Carneiro, um filme mudo.

Apesar de não valer uma ida ao cinema, O Homem das Cavernas é entretenimento garantido para a criançada, e certamente formará um conveniente programa paralelo à Copa do Mundo quando chegar nos serviços de streaming. Ponto para a Era da Informação.


O Homem das Cavernas (Early Man), 2018




sexta-feira, 30 de março de 2018

Aventura no.1

Bem-vindo à tela de configuração, Jogador Nº 1.




Defina suas seleções:


Qualidade Visual: De Cair o Queixo

Qualidade de Efeitos Sonoros: Excelente

Qualidade de Trilha Sonora: Excepcional

Modo História Profunda, Totalmente Coerente e Com Reviravoltas Surpreendentes: Desativado

Modo Personagens Complexos: Desativado

Modo Escapismo Puro: Ativado

Nível de Referências Oitentistas: Insano, incessante e com toda a gama: desde pequenas chamadas visuais escondidas até as explícitas e escancaradas

Nível de Ação e Emoção: Alto

Nível de Diversão: Máximo


Rejogabilidade: Elevado


Pronto, Jogador Nº 1.

Coloque os óculos e aproveite uma legítima aventura spielberguiana como não se via há tempos.


Jogador Nº 1 (Ready Player One), 2018


sábado, 24 de março de 2018

Aniquilando o paradoxo


Os sentimentos são contraditórios. Por um lado, surge a euforia com a oportunidade quase que imediata, sem complicações logísticas nem a dependência de terceiros, para ver um filme que estava na sua lista de mais aguardados do ano. Por outro, uma grande desconfiança, pois um estúdio desistir de lançar uma produção feita para o cinema e vendê-la para um serviço de streaming pode ser mau sinal.

E acontece que só neste primeiro trimestre de 2018 isto ocorreu não só uma vez, mas duas: com O Paradoxo Cloverfield e com Aniquilação.

Como ambos são da Paramount Pictures pode-se imaginar que, após um péssimo 2017 (Monster Trucks, xXx: Reativado, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, Baywatch, Transformers: O Último Cavaleiro e Mãe! numa batelada só) a produtora esteja em uma fase de extrema aversão ao risco. Mas, é igualmente estranho não investir nem acreditar em dois títulos que poderiam muito bem pegar carona em dois de seus maiores sucessos de público e crítica em 2016 (e para este blog os dois melhores filmes daquele ano): A Chegada e Rua Cloverfield, 10. Ora, Paradoxo não só compartilha de parte do título do Rua, mas também se passa oficialmente dentro do mesmo universo. E o material inicial de divulgação de Aniquilação apontava fortes semelhanças em atmosfera, ritmo e tema com A Chegada.

Então, com seus dois primeiros títulos do ano tendo uma base sólida para se venderem, por que será que a Paramount desistiu deles? Depois de conferi-los na Netflix, a resposta parece clara: porque um é simplesmente ruim e outro não consegue cativar o público.


O Paradoxo Cloverfield traz um cenário já manjado em Hollywood, um grupo diverso de pessoas preso em uma situação misteriosa e perigosa. E não acrescenta novidade alguma ao mesmo. Pelo contrário, bate nos mesmos clichês e, sendo astronautas-cientistas em uma estação espacial, Paradoxo se parece muito com e comete os mesmos erros de outro filme do ano passado, Vida (que não é ruim e perto deste vira quase uma obra-prima). Raso, desperdiçando um bom elenco e falhando em criar tensão (algumas sequências são risíveis de forma não intencional, embora a trilha sonora insista em criar um clima contrário) o filme ainda tenta impressionar com um tema que é explorado com muito mais propriedade e peso em Rick and Morty (assumidamente comédia). Num ato desesperado, e fruto de refilmagens segundo as más línguas, a produção esticou as cenas que se passam na Terra, tentando fortalecer conexões com o Cloverfield: Monstro original. Mas, só conseguiu deixar os fãs mais confusos.


Aniquilação é um longa que tem um miolo marcado por bom terror/ ficção-científica e que desenvolve conceitos originais com bastante firmeza (além de apresentar a criatura mais assustadora neste gênero desde o Alien de 1979). O problema é que antes do miolo tudo é insípido e após é amargo. O primeiro ato, uma versão de empoderamento feminino para as aventuras típicas de Michael Crichton (onde uma equipe multi-tarefa e de personalidades bem distintas é formada), é superficial, frustando ao não conseguir estabelecer os lastros da realidade por trás da missão e nem se aprofundar nas personagens, apesar do gabarito das atrizes que as vivem. Já o ato final é um primor visual, mas se perde na abstração e se torna uma verdadeira viagem sonífera na maionese. Remete ao pior de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Uns vão argumentar que o importante é a jornada interior da protagonista, cada uma das metáforas - depressão, auto-destruição, etc. Sim, as boas obras de ficção-científica são as que se preocupam em criar metáforas e tornam viagens intergaláticas, multidimensionais ou temporais em um mecanismo para a redenção, realização ou crescimento de personagens. Mas, elas também se sobressaem ao fisgar com sucesso o espectador nos aspectos fictícios, imaginários ou fantasiosos. Talvez seja para o bem de Aniquilação não ter ido para o cinema, pois a internet é mais propícia para que seja descoberto por aquele público específico que gosta de cultuar filmes ditos intelectuais.

A Netflix tem se mostrado uma produtora de conteúdo original de muita qualidade, sobretudo com suas séries. Do ponto de vista prático, não é nada ruim que a mesma possa adquirir os direitos de distribuição de grandes produções destinadas ao cinema e as disponibilizar para seus assinantes com uma janela pequena de lançamento - ou até nenhuma. O que desanima é que parece que isto está só ocorrendo com as "desmerecedoras".

A questão não é torcer para que filmes não sejam vendidos para a Netflix, mas torcer para que os motivos passem a ser mais nobres.


O Paradoxo Cloverfield (The Cloverfield Paradox), 2017




Aniquilação (Annihilation), 2017




sexta-feira, 16 de março de 2018

Desbotando


Depois de três temporadas sólidas e consistentes, a série cult-transformada-em-pop Black Mirror começa apresentar sinais de perda de fôlego. O tom ainda é marcante e muitas ideias são criativas o suficiente para aguçar a curiosidade do espectador, mas talvez a janela mais curta entre a temporada anterior e esta tenha prejudicado o cuidado com os roteiros. Ou pode ser que tenha chegado a hora do criador Charlie Brooker dar oportunidade para outros roteiristas expandirem o universo de Black Mirror, que na verdade parece estar se fechando.

A série continua acima da média, mas o que permeia em geral a quarta temporada é a sensação de um pouco mais do mesmo.

O episódio de abertura, USS Callister, surge com uma nova, e até interessante, roupagem para conceitos já bem definidos e explorados antes, sobretudo nos episódios Natal e Versão de Testes. Arkangel , dirigido por Jodie Foster, traz ares do (muito superior) Toda a Sua História, mas com os perigos ocultos da tecnologia - tema recorrente da série- reduzidos simplesmente a péssimas decisões de uma mãe. Crocodilo, o episódio que tem Islândia como cenário numa belíssima fotografia, acerta quando está desenvolvendo o conceito do capturador de memórias, mas derrapa ao forçar o desencadear das ações, ficando mais parecido com uma passagem de Relatos Selvagens.


Tentando ser o San Junipero da temporada, Hang the DJ é bom, mas opta por se sustentar em uma reviravolta que dá para ser percebida a milhas de distância. Totalmente em preto-e-branco, Metalhead é o menos Black Mirror de todos episódios já feitos - um exercício de gênero ficção-terror, tenso e muito bem executado com uma história simples e direta, se inspirando em Encurralado e Exterminador do Futuro. Por fim, a temporada conclui com Black Museum, um episódio à la Contos da Cripta que escancara as referências à própria série e que se assemelha estruturalmente e conceitualmente a Natal, mais uma vez, e a Urso Branco.

E como as novas histórias se comparam com as demais? Até que se prove o contrário, assim:

01. Toda a Sua História - The Entire History of You (T01, E03), 2011
02. Natal - White Christmas (Especial - T02, E04), 2014
03. San Junipero (T03, E04), 2016
04. Queda Livre - Nosedive (T03, E01), 2016
05. Metalhead (T04, E05), 2017
06. Engenharia Reversa - Men Against Fire (T03, E05), 2016
07. Hang the DJ (T04, E04), 2017
08. Odiados pela Nação - Hated in the Nation (T03, E06), 2016
09. Versão de Testes - Playtest (T03, E02), 2016
10. Manda Quem Pode - Shut Up and Dance (T03, E03), 2016
11. Crocodilo - Crocodile (T04, E03), 2017
12. USS Callister (T04, E01), 2017
13. Urso Branco - White Bear (T02, E02), 2013
14. Black Museum (T04, E06), 2017
15. Arkangel (T04, E02), 2017
16. Hino Nacional - The National Anthem (T01, E01), 2011
17. Volto Já - Be Right Back (T02, E01), 2013
18. Momento Waldo - The Waldo Moment (T02, E03), 2013
19. Quinze Milhões de Méritos - Fifteen Million Merits (T01, E02), 2011

Em tempo, a Netflix já confirmou uma 5a. temporada.


Black Mirror (4a. Temporada), 2017




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Bom, mas não extraordinário


Além de classificados em diversos gêneros e seus sub-gêneros, os filmes costumam também receber informalmente vários rótulos como, por exemplo, "isca do Oscar", "crowdpleaser" (algo como "agrada todos") e "tearjerker" ("arrancador" ou "derramador" "de lágrimas"). Pro bem ou pro mal, muitas vezes o chavão não traduz uma realidade, seja na intenção dos realizadores, seja nos resultados. O recente The Post: A Guerra Secreta que o diga. Tido como uma "isca do Oscar", não foi produzido com esta motivação em mente e, concretamente, acabou recebendo apenas duas indicações.

Extraordinário é um longa facilmente classificável nas três "categorias" exemplificadas.

Embora seja impossível afirmar que algo está sendo produzido para tentar conquistar a Academia, vários dos mesmos ingredientes que levam filmes como The Post a virarem uma "isca do Oscar" se aplicam aqui: um elenco de peso (os queridinhos e anteriormente vencedora e indicado ao Oscar, Julia Roberts e Owen Wilson, além do talentoso e carismático ator mirim, Jacob Tremblay), um tema comovente, o cuidado com a qualidade técnica, a carona em uma obra literária de sucesso, a época de lançamento, o foco do trabalho de divulgação... Enquanto o resultado foi somente a indicação incontestável a Melhor Maquiagem, para as outras duas "categorias" é inegável: o filme realmente agrada e arranca lágrimas. O problema é que as intenções deveriam ser mais ocultas, ou inexistentes, sendo estes efeitos apenas consequências naturais de uma bela história sendo bem contada.


O filme agrada. E faz questão disto. Ao tratar alguns temas pesados, as escolhas são sempre leves e as saídas de conflitos são muito simples. A condição do protagonista Auggie sequer é intitulada e em uma rápida citação é revelado tudo pelo qual o menino passou. Falta uma profundidade não somente nas consequências médicas, mas também nas psicológicas e sociais. Não há o peso de o que é ser tão diferente como ele, nem de quanto sofrimento o levou até ali. A própria questão do bullying na escola é tratada como nos casos corriqueiros (mas não menos importantes), em que crianças e adolescentes acabam sendo más, mesmo sem motivos chamativos.  Poderia-se alegar que a superficialidade advém da escolha por uma narrativa sob a ótica do garoto. Mas, é daí mesmo que surge a maior oportunidade perdida da produção, que decide dividir a história em capítulos, teoricamente com o ponto de vista de outros personagens. Neste momento poderiam entrar outras perspectivas, outras implicações sobre a complexa convivência com esta situação. Mas, o modo Pollyanna continua ligado e, infelizmente, o Rashomon é descartado.

O filme arranca lágrimas. E, sem precisar, faz esforço para isto. É difícil não enxergar que o diretor Stephen Chbosky constantemente manipula as emoções do público, determinando o tempo todo o que o espectador deve sentir, como deve reagir. O próprio tema já é terreno fértil para mexer com as pessoas, mas falta sutileza e, algumas vezes, surge artificialidade.

Para não terminar de forma pessimista, muito longe do tom do filme, vale ressaltar que, com ótimas atuações, uma bela mensagem sobre gentileza e divertidas referências a Star Wars, Extraordinário é um filme tranquilamente recomendável. Com tanta obra cínica no mercado, é mais do que saudável  (é necessário) se deixar cair nas graças de um "feel good movie" (ops, mais um rótulo).


Extraordinário (Wonder), 2017




domingo, 25 de fevereiro de 2018

Noscardamus 2018


Prever os vencedores do Oscar este ano parecia que ia ser uma tarefá mais fácil. Mas, com as outras premiações em andamento e com a maior parte dos filmes entrando em cartaz, a coisa complicou um pouco. Se meu preferido, Dunkirk, certamente não vai levar Melhor Filme, ficou difícil escolher entre o que tem boa chance (e que gostei) e o mais provável (e que não gostei). No fim das contas, o "não gostar" pesou e aumentei o risco de errar a categoria pelo quarto ano consecutivo. Roteiro Original está com uma disputa muito acirrada (entre três, inclusive) e Filme Estrangeiro é uma verdadeira incógnita. Fotografia e Edição podem pregar peças também.


Sem mais delongas, em negrito, meus palpites sobre quem serão os premiados com Oscar.

ATUALIZAÇÃO: os vencedores sublinhados.

FILME
A Forma da Água
Dunkirk
Lady Bird: É Hora de Voar
Corra!
The Post: A Guerra Secreta
Três Anúncios Para um Crime
Me Chame Pelo Seu Nome
Trama Fantasma
O Destino de uma Nação

DIRETOR
Christopher Nolan (Dunkirk)
Guillermo del Toro (A Forma da Água)
Greta Gerwig (Lady Bird)
Jordan Peele (Corra!)
Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)


ATOR
Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)
Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Daniel Kaluuya (Corra!)
Gary Oldman (O Destino de uma Nação)
Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq)

ATRIZ
Sally Hawkins (A Forma da Água)
Margot Robbie (Eu, Tonya)
Saoirse Ronan (Lady Bird)
Meryl Streep (The Post)
Frances McDormand (Três Anúncios Para um Crime)

ATOR COADJUVANTE
Willem Dafoe (Projeto Flórida)
Woody Harrelson (Três Anúncios Para um Crime)
Sam Rockwell (Três Anúncios Para um Crime)
Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)
Richard Jenkins (A Forma da Água)

ATRIZ COADJUVANTE
Mary J. Blige (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi)
Lesley Manville (Trama Fantasma)
Allison Janney (Eu, Tonya)
Laurie Metcalf (Lady Bird)
Octavia Spencer (A Forma da Água)

ROTEIRO ADAPTADO
Me Chame Pelo Seu Nome
Artista do Desastre
Logan
A Grande Jogada
Mudbound

ROTEIRO ORIGINAL
A Forma da Água
Lady Bird
Doentes de Amor
Três Anúncios Para um Crime
Corra!


ANIMAÇÃO
Viva – A Vida é uma Festa
Com Amor, Van Gogh
The Breadwinner
O Poderoso Chefinho
O Touro Ferdinando

FILME ESTRANGEIRO
Uma Mulher Fantástica (Chile)
O Insulto (Líbano)
Sem Amor (Rússia)
The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)
Corpo e Alma (Hungria)

FOTOGRAFIA
Blade Runner 2049
Dunkirk
O Destino de uma Nação
A Forma da Água
Mudbound

TRILHA SONORA
Star Wars - Os Últimos Jedi
Dunkirk
Trama Fantasma
A Forma da Água
Três Anúncios Para um Crime

CANÇÃO ORIGINAL
Mystery of Love (Me Chame Pelo Seu Nome)
Remember Me (Viva – A Vida é uma Festa)
This is Me (O Rei do Show)
Stand up for Something (Marshall)
Mighty River (Mudbound)


FIGURINO
A Bela e a Fera
Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha
Trama Fantasma
A Forma da Água
O Destino de uma Nação

DESIGN DE PRODUÇÃO
A Bela e a Fera
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
O Destino de uma Nação

MAQUIAGEM E PENTEADO
O Destino de uma Nação
Extraordinário
Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha

EFEITOS VISUAIS
Blade Runner 2049
Guardiões da Galáxia Vol. 2
Star Wars – Os Últimos Jedi
Planeta dos Macacos: A Guerra
Kong: A Ilha da Caveira


EDIÇÃO
Em Ritmo de Fuga
Dunkirk
Eu, Tonya
A Forma da Água
Três Anúncios Para um Crime

EDIÇÃO DE SOM
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi

MIXAGEM DE SOM
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi


Como tradição, costumo tirar dos meus palpites as categorias de Documentário e todas as três de Curta-Metragem.

ATUALIZAÇÃO: Já é o 4o. ano consecutivo sem acertar Melhor Filme. Quase desistindo. O percentual geral subiu um pouco, 85%, 17 acertos em 20 categorias. Filme Estrangeiro tava meio complicado mesmo e Efeitos Visuais talvez tenha sido a única verdadeira surpresa da noite. De qualquer forma, foi sensacional ver outro grande momento esperado: Kobe Bryant vencer o seu Oscar. Go Lakers!