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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Um Solo é pouco


Quem imaginar que Han Solo: Uma História de Star Wars é o equivalente àquela sequência inicial de Indiana Jones e a Última Cruzada em que River Phonenix encena como um jovem Indy conseguiu seu chapéu, sua cicatriz no queixo, seu medo de cobras, etc, só que esticado em mais de duas horas, não está totalmente errado. A boa notícia é que é são duas horas empolgantes e divertidas, que fazem jus a um dos melhores personagens da história do cinema. 

É verdade que nem todas as (se alguma das) características e marcas registradas do carismático contrabandista precisavam de uma história de origem e também que um bocado delas decepciona nesse filme, mas outras tantas agradam e, mesmo esperadas,  ainda surgem como elemento surpresa. Não que toda reviravolta funcione, mas a produção tem material original suficiente para fugir do óbvio e surpreender um espectador que já conhece o desfecho geral da história.


Esta condição de pré-continuação para as 'histórias de Star Wars' é algo de que a Lucasfilm e a Disney ainda não conseguiram se desvencilhar.  A proposta de construir narrativas independentes naquele universo ainda não foi cumprida. Enquanto Rogue One contava eventos que precediam diretamente o Guerra nas Estrelas original, Episódio IV: Uma Nova Esperança, o filme de Han Solo se aproveita fortemente de personagens já conhecidos da saga dos Skywalkers. E é também curioso como que ambos se prestam para aludir a supostos furos, dúvidas e até picuinhas dos fãs mais ardorosos da trilogia original.

A produção também traz conexões com os Episódios I, II e III, com uma passagem que gera confusão para quem assistiu somente às obras feitas para o cinema e não acompanhou as séries animadas Star Wars: The Clone Wars e Star Wars Rebels. Mais um momento inesperado e indesejado por aqueles que querem esquecer que a era Jar Jar Binks sequer existiu e/ ou que não concordam que conhecer os derivados para televisão deveria ser premissa para apreciação de um filme.

Quando está se divertindo sendo uma mistura de "filme de assalto" e faroeste intergalático é que Han Solo ganha mais pontos. Quando tenta se levar a sério e ser engajado, se perde. Maior exemplo é o da androide L3, que serve tanto como alívio cômico quanto como voz política ao pregar o livre pensamento dos robôs, mas recebe um desfecho totalmente incoerente e questionável (principalmente para quem está na mesma linha filosófica de alguns episódios de Black Mirror). Certas decisões dos roteiristas Lawrence e Jonathan Kasdan (pai e filho) são incompreensíveis. 

Mas, o veterano Lawrence, como não podia deixar de ser, é peça fundamental na construção respeitosa do mesmo personagem que o público sempre conheceu. Sua sensibilidade e a excelente, inspirada e precisa atuação de Alden Ehrenreich, consagram o trabalho quase impossível de recriar Han sob a sombra de Harrison Ford, sem se limitar ou parecer uma imitação e nem se distanciar ou se esconder atrás da desculpa de ser "uma nova versão" do mesmo.

As concepções visuais também não se restringem a homenagear às dos filmes existentes e há bastante espaço para criatividade, como o design de Lady Proxima e os elementos que circundam o vilão Dryden Vos: sua nave verticalizada, suas "adagas de luz" (?) e a dupla cantante em sua festa, que traz uma sonoridade que parece verdadeiramente alienígena. A própria trilha sonora de John Powell acrescenta algo de novo, com destaque para o tema de Enfys Nest e seu bando, e pega emprestado as melodias conhecidas do seu xará Williams somente na medida certa.

Na contramão do recém confirmado filme centrado em Boba Fett, esta história de Star Wars supera o ceticismo e não se apresenta como um caça-níquel. E, principalmente, não se tornou o frankenstein que poderia ter sido após sua produção atribulada por problemas de bastidores que levaram à troca de diretores no meio do caminho. Quando a Millenium Falcon salta para o hiperespaço e as luzes se do cinema se acendem, as falhas parecem ficar pra trás e só segue viagem a vontade de testemunhar novas aventuras que Han e Chewie ainda têm para desbravar antes de conhecerem Luke em Mos Eisley.


Han Solo: Uma História de Star Wars (Solo: A Star Wars Story), 2018

sábado, 12 de maio de 2018

Jogando tudo pro ar


A proposta é conhecida. Um grupo de amigos de meia idade se reúne em um encontro noturno inocente e eventos inesperados começam a acontecer. Os desdobramentos vão se intensificando e saindo de controle, muito em consequência de decisões erradas dos personagens, por simples falta de experiência ou de noção da realidade que os acerca. Mesmo não deixando de parecer uma mistura de Os 7 Suspeitos (comédia inspirada no jogo Detetive) com Vidas em Jogo (thriller dirigido por David Fincher), além de filmes sobre o submundo do crime moderno, A Noite do Jogo consegue parecer original e empolgante, em meio a tanta comédia genérica e apática.


Jogos de tabuleiro clássicos moldam a produção, tanto no seu enredo, quanto na composição de cenas e personagens. Os diretores abraçam o tema e inserem situações em que personagens agem tal como se estivessem participando de jogos, muitas vezes involuntariamente, como na cena que se desenrola como uma brincadeira de "batata quente" num divertido e bem feito plano sequência. Destaque também para o uso de tilt-shift em alguns planos gerais, quando as imagens dão uma ilusão de miniatura, remetendo a peças e cenários de um tabuleiro.

Com destaque para Jesse Plemons interpretando o vizinho policial pra lá de esquisito, a escolha do elenco é acertada, ainda que a pegada cômica pareça por vezes exagerada. O problema é que enquanto o já mencionado Os 7 Suspeitos assumia sua postura caricata, o roteiro de A Noite do Jogo tenta em alguns momentos dosar o humor da comédia com os perigos concretos de um thriller policial, sem ter completo sucesso em equilibrar o tom nessa mescla de gêneros.

Despretensioso e engraçado, o filme vale ser o substituto de uma noitada de jogatina com os amigos. E, pro bem ou pro mal, é tão memorável quanto.


A Noite do Jogo (Game Night), 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

Darker things


Uma pequena cidade, uma instalação misteriosa, conexões com outras dimensões, crianças desaparecidas, mapas, passagens subterrâneas, buscas noturnas, ambientação nos anos 80, componentes fantásticos e muito mistério. Esses elementos, misturados com temas maduros (suicídio, morte de crianças, adultério, sexo, crise existencial, para citar alguns), fizeram Dark ser rotulada de 'Stranger Things para adultos'. Mas, a comparação não sobrevive além destes pontos básicos e a primeira série alemã da Netflix se mostrou bem diferente da encabeçada por Dustin, Eleven e o Demogorgon.

Por vários motivos como tom, ritmo, escolhas para desenvolvimento dos personagens, a singularidade européia e o fato de não ser falada em inglês, além de uma recorrente e insistente trilha sonora que potencializa o suspense, a proximidade é muito maior com a francesa Les Revenants. E o ingrediente principal é bem destoante da série americana situada em Hawkins: viagem no tempo.


Alternando-se em saltos de 33 anos (entre 1953, 1986 e 2019), Dark se esbalda com paradoxos temporais de deixar qualquer fã de ficção-científica maluco. No bom sentido. É preciso bastante atenção para que detalhes não passem batido e há que se estar no clima correto para abraçar a natureza complexa de um presente que só existe porque personagens interferiram originalmente no passado. Não que seja tão difícil de acompanhar como Primer, já que existem vários momentos em que a edição pega na mão do espectador, como no em que a tela se divide em duas para comparar personagens do passado com suas versões do presente. Recurso, aliás, desnecessário já que um dos grandes trunfos da série é a escolha de um elenco em que  crianças/ adolescentes se parecem muito com suas contrapartes adultas/ idosas.

Ao lidar com este tipo de enredo a palavra-chave é planejamento. O roteiro não é tão redondo quanto ao do filme espanhol Crimes Temporais, mas se sai muito bem com um escopo muito maior e mais ambicioso.Porém, embora a jornada da primeira temporada seja interessantíssima, a conclusão é insatisfatória. Não há o fechamento de um arco principal e perguntas novas são criadas em uma taxa muito superior à de perguntas respondidas. Caso não tivesse sido anunciada uma segunda temporada, Dark deixaria um gosto amargo, que por enquanto está suspenso na confiança de que esteja mesmo amparada por um grande planejamento ao longo prazo.

Fica a torcida para que as mentes criativas não se percam e que os espectadores não terminem com a sensação de tempo perdido. Pois, não há como voltar no tempo.

A não ser que já tenha acontecido. E que ninguém tenha alterado a linha temporal em loop. Ou não. O tempo dirá.


Dark (1a. temporada), 2017




domingo, 8 de abril de 2018

Silêncio gritante


John Krasinski é um ator conhecido por comédias que teve acesso ao roteiro de um longa-metragem de terror e decidiu abraçá-lo como um projeto pessoal. Dedicou-se a reescrever parte do mesmo e, além de atuar, assumiu o papel de produtor executivo e a cadeira de diretor. De quebra, elencou a esposa Emily Blunt no papel feminino principal. Tamanha paixão acabou transparecendo no resultado surpreendente de Um Lugar Silencioso.


Pegando muito emprestado de Tubarão, ao provocar a plateia com o subentendido - o não explícito, e de Alien, o Oitavo Passageiro, com cenas enervantes envolvendo o desconhecido em espaços restritos, a produção também parece muito um filme de M. Night Shyamalan. O ritmo mais lento e o clima latente de medo do diretor indiano são observados neste filme e Kransiski demonstra maestria ao compor sequências, enquadrar imagens e criar conceitos genuinamente apavorantes, que fazem os espectadores prenderem a respiração. Nem que seja para não fazer barulho.

A trilha sonora colabora e a esperta edição de som é um diferencial, jogando muito bem com o papel do silêncio e do som, tema motriz da trama. Com a missão difícil de não se sustentar em diálogos, as atuações são inspiradas, destacando-se a jovem Millicent Simmonds, surda desde a infância, em apenas seu segundo longa-metragem.

Krasinski só não se arrisca em uma reviravolta shyamalesca, mesmo porque aqui seria desnecessária, e também esbarra em alguns pontos que podem facilmente ser alvos de críticas. Sua história simples não deixa de se assemelhar em vários aspectos ao ótimo Sinais e, em ambos, as premissas assumidas, a dinâmica das regras e o próprio funcionamento da sociedade no cenário proposto podem fazer a lógica do filme desmoronar se analisados com um pouco mais de critério.

Seja como for, Um Lugar Silencioso é uma experiência intensa e aterradora, pelos bons motivos, e vale ser visitado por todos fãs de cinema.


Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), 2018


domingo, 1 de abril de 2018

Bola quadrada


Em uma época em que as animações são, em sua maioria esmagadora, feitas por computador, é revigorante ver que existe mercado para técnicas tradicionais como o stop-motion com massinhas. Porém, mesmo sendo um chamativo à parte, o formato nunca vai ser mais importante que um bom roteiro.


O Homem das Cavernas tem o visual charmoso de outros lançamentos da Aardman, como Wallace e Gromit, A Fuga da Galinhas e Piratas Pirados!, mas ficam aquém dos mesmos por escorregar no roteiro. Existem os toques únicos e característicos da produtora, e o divertido pombo(papagaio?)-correio é prova de seu potencial. Só que de uma forma geral, as piadinhas são fracas e a história é previsível e pouco inspirada.

Em sua versão dublada, o protagonista que precisa liderar sua tribo da idade da pedra em uma "batalha campal" contra os invasores da idade do bronze ganha voz através do humorista Marco Luque, com direito a piadinha interna desnecessária: "serhumaninho passando!". Seu trabalho só ajuda a expor os diálogos ruins e aumenta a sensação de que este projeto teria se beneficiado se fosse, como o anterior da Aardman Shaun, o Carneiro, um filme mudo.

Apesar de não valer uma ida ao cinema, O Homem das Cavernas é entretenimento garantido para a criançada, e certamente formará um conveniente programa paralelo à Copa do Mundo quando chegar nos serviços de streaming. Ponto para a Era da Informação.


O Homem das Cavernas (Early Man), 2018




sexta-feira, 30 de março de 2018

Aventura no.1

Bem-vindo à tela de configuração, Jogador Nº 1.




Defina suas seleções:


Qualidade Visual: De Cair o Queixo

Qualidade de Efeitos Sonoros: Excelente

Qualidade de Trilha Sonora: Excepcional

Modo História Profunda, Totalmente Coerente e Com Reviravoltas Surpreendentes: Desativado

Modo Personagens Complexos: Desativado

Modo Escapismo Puro: Ativado

Nível de Referências Oitentistas: Insano, incessante e com toda a gama: desde pequenas chamadas visuais escondidas até as explícitas e escancaradas

Nível de Ação e Emoção: Alto

Nível de Diversão: Máximo


Rejogabilidade: Elevado


Pronto, Jogador Nº 1.

Coloque os óculos e aproveite uma legítima aventura spielberguiana como não se via há tempos.


Jogador Nº 1 (Ready Player One), 2018


sábado, 24 de março de 2018

Aniquilando o paradoxo


Os sentimentos são contraditórios. Por um lado, surge a euforia com a oportunidade quase que imediata, sem complicações logísticas nem a dependência de terceiros, para ver um filme que estava na sua lista de mais aguardados do ano. Por outro, uma grande desconfiança, pois um estúdio desistir de lançar uma produção feita para o cinema e vendê-la para um serviço de streaming pode ser mau sinal.

E acontece que só neste primeiro trimestre de 2018 isto ocorreu não só uma vez, mas duas: com O Paradoxo Cloverfield e com Aniquilação.

Como ambos são da Paramount Pictures pode-se imaginar que, após um péssimo 2017 (Monster Trucks, xXx: Reativado, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, Baywatch, Transformers: O Último Cavaleiro e Mãe! numa batelada só) a produtora esteja em uma fase de extrema aversão ao risco. Mas, é igualmente estranho não investir nem acreditar em dois títulos que poderiam muito bem pegar carona em dois de seus maiores sucessos de público e crítica em 2016 (e para este blog os dois melhores filmes daquele ano): A Chegada e Rua Cloverfield, 10. Ora, Paradoxo não só compartilha de parte do título do Rua, mas também se passa oficialmente dentro do mesmo universo. E o material inicial de divulgação de Aniquilação apontava fortes semelhanças em atmosfera, ritmo e tema com A Chegada.

Então, com seus dois primeiros títulos do ano tendo uma base sólida para se venderem, por que será que a Paramount desistiu deles? Depois de conferi-los na Netflix, a resposta parece clara: porque um é simplesmente ruim e outro não consegue cativar o público.


O Paradoxo Cloverfield traz um cenário já manjado em Hollywood, um grupo diverso de pessoas preso em uma situação misteriosa e perigosa. E não acrescenta novidade alguma ao mesmo. Pelo contrário, bate nos mesmos clichês e, sendo astronautas-cientistas em uma estação espacial, Paradoxo se parece muito com e comete os mesmos erros de outro filme do ano passado, Vida (que não é ruim e perto deste vira quase uma obra-prima). Raso, desperdiçando um bom elenco e falhando em criar tensão (algumas sequências são risíveis de forma não intencional, embora a trilha sonora insista em criar um clima contrário) o filme ainda tenta impressionar com um tema que é explorado com muito mais propriedade e peso em Rick and Morty (assumidamente comédia). Num ato desesperado, e fruto de refilmagens segundo as más línguas, a produção esticou as cenas que se passam na Terra, tentando fortalecer conexões com o Cloverfield: Monstro original. Mas, só conseguiu deixar os fãs mais confusos.


Aniquilação é um longa que tem um miolo marcado por bom terror/ ficção-científica e que desenvolve conceitos originais com bastante firmeza (além de apresentar a criatura mais assustadora neste gênero desde o Alien de 1979). O problema é que antes do miolo tudo é insípido e após é amargo. O primeiro ato, uma versão de empoderamento feminino para as aventuras típicas de Michael Crichton (onde uma equipe multi-tarefa e de personalidades bem distintas é formada), é superficial, frustando ao não conseguir estabelecer os lastros da realidade por trás da missão e nem se aprofundar nas personagens, apesar do gabarito das atrizes que as vivem. Já o ato final é um primor visual, mas se perde na abstração e se torna uma verdadeira viagem sonífera na maionese. Remete ao pior de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Uns vão argumentar que o importante é a jornada interior da protagonista, cada uma das metáforas - depressão, auto-destruição, etc. Sim, as boas obras de ficção-científica são as que se preocupam em criar metáforas e tornam viagens intergaláticas, multidimensionais ou temporais em um mecanismo para a redenção, realização ou crescimento de personagens. Mas, elas também se sobressaem ao fisgar com sucesso o espectador nos aspectos fictícios, imaginários ou fantasiosos. Talvez seja para o bem de Aniquilação não ter ido para o cinema, pois a internet é mais propícia para que seja descoberto por aquele público específico que gosta de cultuar filmes ditos intelectuais.

A Netflix tem se mostrado uma produtora de conteúdo original de muita qualidade, sobretudo com suas séries. Do ponto de vista prático, não é nada ruim que a mesma possa adquirir os direitos de distribuição de grandes produções destinadas ao cinema e as disponibilizar para seus assinantes com uma janela pequena de lançamento - ou até nenhuma. O que desanima é que parece que isto está só ocorrendo com as "desmerecedoras".

A questão não é torcer para que filmes não sejam vendidos para a Netflix, mas torcer para que os motivos passem a ser mais nobres.


O Paradoxo Cloverfield (The Cloverfield Paradox), 2017




Aniquilação (Annihilation), 2017




sexta-feira, 16 de março de 2018

Desbotando


Depois de três temporadas sólidas e consistentes, a série cult-transformada-em-pop Black Mirror começa apresentar sinais de perda de fôlego. O tom ainda é marcante e muitas ideias são criativas o suficiente para aguçar a curiosidade do espectador, mas talvez a janela mais curta entre a temporada anterior e esta tenha prejudicado o cuidado com os roteiros. Ou pode ser que tenha chegado a hora do criador Charlie Brooker dar oportunidade para outros roteiristas expandirem o universo de Black Mirror, que na verdade parece estar se fechando.

A série continua acima da média, mas o que permeia em geral a quarta temporada é a sensação de um pouco mais do mesmo.

O episódio de abertura, USS Callister, surge com uma nova, e até interessante, roupagem para conceitos já bem definidos e explorados antes, sobretudo nos episódios Natal e Versão de Testes. Arkangel , dirigido por Jodie Foster, traz ares do (muito superior) Toda a Sua História, mas com os perigos ocultos da tecnologia - tema recorrente da série- reduzidos simplesmente a péssimas decisões de uma mãe. Crocodilo, o episódio que tem Islândia como cenário numa belíssima fotografia, acerta quando está desenvolvendo o conceito do capturador de memórias, mas derrapa ao forçar o desencadear das ações, ficando mais parecido com uma passagem de Relatos Selvagens.


Tentando ser o San Junipero da temporada, Hang the DJ é bom, mas opta por se sustentar em uma reviravolta que dá para ser percebida a milhas de distância. Totalmente em preto-e-branco, Metalhead é o menos Black Mirror de todos episódios já feitos - um exercício de gênero ficção-terror, tenso e muito bem executado com uma história simples e direta, se inspirando em Encurralado e Exterminador do Futuro. Por fim, a temporada conclui com Black Museum, um episódio à la Contos da Cripta que escancara as referências à própria série e que se assemelha estruturalmente e conceitualmente a Natal, mais uma vez, e a Urso Branco.

E como as novas histórias se comparam com as demais? Até que se prove o contrário, assim:

01. Toda a Sua História - The Entire History of You (T01, E03), 2011
02. Natal - White Christmas (Especial - T02, E04), 2014
03. San Junipero (T03, E04), 2016
04. Queda Livre - Nosedive (T03, E01), 2016
05. Metalhead (T04, E05), 2017
06. Engenharia Reversa - Men Against Fire (T03, E05), 2016
07. Hang the DJ (T04, E04), 2017
08. Odiados pela Nação - Hated in the Nation (T03, E06), 2016
09. Versão de Testes - Playtest (T03, E02), 2016
10. Manda Quem Pode - Shut Up and Dance (T03, E03), 2016
11. Crocodilo - Crocodile (T04, E03), 2017
12. USS Callister (T04, E01), 2017
13. Urso Branco - White Bear (T02, E02), 2013
14. Black Museum (T04, E06), 2017
15. Arkangel (T04, E02), 2017
16. Hino Nacional - The National Anthem (T01, E01), 2011
17. Volto Já - Be Right Back (T02, E01), 2013
18. Momento Waldo - The Waldo Moment (T02, E03), 2013
19. Quinze Milhões de Méritos - Fifteen Million Merits (T01, E02), 2011

Em tempo, a Netflix já confirmou uma 5a. temporada.


Black Mirror (4a. Temporada), 2017




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Bom, mas não extraordinário


Além de classificados em diversos gêneros e seus sub-gêneros, os filmes costumam também receber informalmente vários rótulos como, por exemplo, "isca do Oscar", "crowdpleaser" (algo como "agrada todos") e "tearjerker" ("arrancador" ou "derramador" "de lágrimas"). Pro bem ou pro mal, muitas vezes o chavão não traduz uma realidade, seja na intenção dos realizadores, seja nos resultados. O recente The Post: A Guerra Secreta que o diga. Tido como uma "isca do Oscar", não foi produzido com esta motivação em mente e, concretamente, acabou recebendo apenas duas indicações.

Extraordinário é um longa facilmente classificável nas três "categorias" exemplificadas.

Embora seja impossível afirmar que algo está sendo produzido para tentar conquistar a Academia, vários dos mesmos ingredientes que levam filmes como The Post a virarem uma "isca do Oscar" se aplicam aqui: um elenco de peso (os queridinhos e anteriormente vencedora e indicado ao Oscar, Julia Roberts e Owen Wilson, além do talentoso e carismático ator mirim, Jacob Tremblay), um tema comovente, o cuidado com a qualidade técnica, a carona em uma obra literária de sucesso, a época de lançamento, o foco do trabalho de divulgação... Enquanto o resultado foi somente a indicação incontestável a Melhor Maquiagem, para as outras duas "categorias" é inegável: o filme realmente agrada e arranca lágrimas. O problema é que as intenções deveriam ser mais ocultas, ou inexistentes, sendo estes efeitos apenas consequências naturais de uma bela história sendo bem contada.


O filme agrada. E faz questão disto. Ao tratar alguns temas pesados, as escolhas são sempre leves e as saídas de conflitos são muito simples. A condição do protagonista Auggie sequer é intitulada e em uma rápida citação é revelado tudo pelo qual o menino passou. Falta uma profundidade não somente nas consequências médicas, mas também nas psicológicas e sociais. Não há o peso de o que é ser tão diferente como ele, nem de quanto sofrimento o levou até ali. A própria questão do bullying na escola é tratada como nos casos corriqueiros (mas não menos importantes), em que crianças e adolescentes acabam sendo más, mesmo sem motivos chamativos.  Poderia-se alegar que a superficialidade advém da escolha por uma narrativa sob a ótica do garoto. Mas, é daí mesmo que surge a maior oportunidade perdida da produção, que decide dividir a história em capítulos, teoricamente com o ponto de vista de outros personagens. Neste momento poderiam entrar outras perspectivas, outras implicações sobre a complexa convivência com esta situação. Mas, o modo Pollyanna continua ligado e, infelizmente, o Rashomon é descartado.

O filme arranca lágrimas. E, sem precisar, faz esforço para isto. É difícil não enxergar que o diretor Stephen Chbosky constantemente manipula as emoções do público, determinando o tempo todo o que o espectador deve sentir, como deve reagir. O próprio tema já é terreno fértil para mexer com as pessoas, mas falta sutileza e, algumas vezes, surge artificialidade.

Para não terminar de forma pessimista, muito longe do tom do filme, vale ressaltar que, com ótimas atuações, uma bela mensagem sobre gentileza e divertidas referências a Star Wars, Extraordinário é um filme tranquilamente recomendável. Com tanta obra cínica no mercado, é mais do que saudável  (é necessário) se deixar cair nas graças de um "feel good movie" (ops, mais um rótulo).


Extraordinário (Wonder), 2017




domingo, 25 de fevereiro de 2018

Noscardamus 2018


Prever os vencedores do Oscar este ano parecia que ia ser uma tarefá mais fácil. Mas, com as outras premiações em andamento e com a maior parte dos filmes entrando em cartaz, a coisa complicou um pouco. Se meu preferido, Dunkirk, certamente não vai levar Melhor Filme, ficou difícil escolher entre o que tem boa chance (e que gostei) e o mais provável (e que não gostei). No fim das contas, o "não gostar" pesou e aumentei o risco de errar a categoria pelo quarto ano consecutivo. Roteiro Original está com uma disputa muito acirrada (entre três, inclusive) e Filme Estrangeiro é uma verdadeira incógnita. Fotografia e Edição podem pregar peças também.


Sem mais delongas, em negrito, meus palpites sobre quem serão os premiados com Oscar.

ATUALIZAÇÃO: os vencedores sublinhados.

FILME
A Forma da Água
Dunkirk
Lady Bird: É Hora de Voar
Corra!
The Post: A Guerra Secreta
Três Anúncios Para um Crime
Me Chame Pelo Seu Nome
Trama Fantasma
O Destino de uma Nação

DIRETOR
Christopher Nolan (Dunkirk)
Guillermo del Toro (A Forma da Água)
Greta Gerwig (Lady Bird)
Jordan Peele (Corra!)
Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)


ATOR
Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)
Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Daniel Kaluuya (Corra!)
Gary Oldman (O Destino de uma Nação)
Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq)

ATRIZ
Sally Hawkins (A Forma da Água)
Margot Robbie (Eu, Tonya)
Saoirse Ronan (Lady Bird)
Meryl Streep (The Post)
Frances McDormand (Três Anúncios Para um Crime)

ATOR COADJUVANTE
Willem Dafoe (Projeto Flórida)
Woody Harrelson (Três Anúncios Para um Crime)
Sam Rockwell (Três Anúncios Para um Crime)
Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)
Richard Jenkins (A Forma da Água)

ATRIZ COADJUVANTE
Mary J. Blige (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi)
Lesley Manville (Trama Fantasma)
Allison Janney (Eu, Tonya)
Laurie Metcalf (Lady Bird)
Octavia Spencer (A Forma da Água)

ROTEIRO ADAPTADO
Me Chame Pelo Seu Nome
Artista do Desastre
Logan
A Grande Jogada
Mudbound

ROTEIRO ORIGINAL
A Forma da Água
Lady Bird
Doentes de Amor
Três Anúncios Para um Crime
Corra!


ANIMAÇÃO
Viva – A Vida é uma Festa
Com Amor, Van Gogh
The Breadwinner
O Poderoso Chefinho
O Touro Ferdinando

FILME ESTRANGEIRO
Uma Mulher Fantástica (Chile)
O Insulto (Líbano)
Sem Amor (Rússia)
The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)
Corpo e Alma (Hungria)

FOTOGRAFIA
Blade Runner 2049
Dunkirk
O Destino de uma Nação
A Forma da Água
Mudbound

TRILHA SONORA
Star Wars - Os Últimos Jedi
Dunkirk
Trama Fantasma
A Forma da Água
Três Anúncios Para um Crime

CANÇÃO ORIGINAL
Mystery of Love (Me Chame Pelo Seu Nome)
Remember Me (Viva – A Vida é uma Festa)
This is Me (O Rei do Show)
Stand up for Something (Marshall)
Mighty River (Mudbound)


FIGURINO
A Bela e a Fera
Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha
Trama Fantasma
A Forma da Água
O Destino de uma Nação

DESIGN DE PRODUÇÃO
A Bela e a Fera
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
O Destino de uma Nação

MAQUIAGEM E PENTEADO
O Destino de uma Nação
Extraordinário
Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha

EFEITOS VISUAIS
Blade Runner 2049
Guardiões da Galáxia Vol. 2
Star Wars – Os Últimos Jedi
Planeta dos Macacos: A Guerra
Kong: A Ilha da Caveira


EDIÇÃO
Em Ritmo de Fuga
Dunkirk
Eu, Tonya
A Forma da Água
Três Anúncios Para um Crime

EDIÇÃO DE SOM
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi

MIXAGEM DE SOM
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi


Como tradição, costumo tirar dos meus palpites as categorias de Documentário e todas as três de Curta-Metragem.

ATUALIZAÇÃO: Já é o 4o. ano consecutivo sem acertar Melhor Filme. Quase desistindo. O percentual geral subiu um pouco, 85%, 17 acertos em 20 categorias. Filme Estrangeiro tava meio complicado mesmo e Efeitos Visuais talvez tenha sido a única verdadeira surpresa da noite. De qualquer forma, foi sensacional ver outro grande momento esperado: Kobe Bryant vencer o seu Oscar. Go Lakers!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Relembrar pra não repetir


Aproveitando que está chegando a grande noite do cinema, vou fazer um repost de um texto que escrevi para o portal de gestão de projetos PMKB pouco após o Oscar do ano passado...

"
Anatomia de um erro


Não houve destruição, danos materiais, feridos nem morte. Mas, em termos de imagem, reputação profissional e abalo emocional, o fiasco no anúncio do Melhor Filme no Oscar de 2017 foi uma verdadeira catástrofe. E, como toda catástrofe, não foi causada por um só erro, mas uma sucessão deles. O que resta é entender o que aconteceu e tirar lições importantes, para que não sejam repetidas. Mesmo quem nunca vai ter ocupação ou projeto relacionado com anúncio de vencedores tem o que refletir.


O cenário

Considerada a maior premiação mundial do cinema, a cerimônia de entrega do Oscar é um evento formador de opinião em diversas áreas e que já chegou a 55 milhões de espectadores nos EUA, atraindo outras centenas de milhões ao redor do mundo todo ano. Além de promover um aumento considerável das bilheterias dos vencedores, pode também nortear a empregabilidade de vários envolvidos na indústria cinematográfica, ditar moda e engajar discussões políticas. Os premiados são guardados com extremo sigilo nem tanto pela graça da surpresa do anúncio ao vivo, mas porque também movimentam o milionário mercado das casas de apostas tradicionais e de sites globais.


Como funciona

Os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (atualmente 6.687 profissionais do cinema entre atores, diretores, produtores, roteiristas, figurinistas, compositores, etc, que incluem brasileiros como Fernando Meirelles, Walter Salles e Fernanda Montenegro) votam para escolher os indicados em 24 categorias, dentre os filmes lançados no ano anterior que atendem às regras de elegibilidade da Academia. Após a divulgação dos concorrentes de cada categoria, inicia-se a votação que define o vencedor em cada uma delas. A festa de premiação é normalmente marcada para cerca de um mês após e os membros têm prazos determinados para submeter por correio os seus votos. A empresa de auditoria e consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC) é a responsável pela contabilização sigilosa dos votos - somente dois de seus membros se envolvem no processo e ficam sabendo o resultado, sob forte acordo de confidencialidade. Estes dois membros da PwC montam os envelopes com os cartões que apontam o vencedor de cada categoria. No cartão há o nome do vencedor e logo abaixo o filme pelo qual ganhou o prêmio. No rodapé, em letras pequenas, está escrito a categoria. No caso de Melhor Filme, a única diferença é que primeiro vem o nome do filme e logo abaixo o nome dos produtores do mesmo. São gerados dois envelopes para cada prêmio, sendo que cada um dos dois consultores fica com uma cópia durante a cerimônia. Nos bastidores da premiação, um consultor se posiciona à direita do palco e outro à esquerda, para atender aos apresentadores. Quando um consultor entrega o envelope que vai ser aberto, o outro elimina a sua própria cópia. Além disto, ambos memorizam todos vencedores para atuar com rapidez caso algum imprevisto aconteça.


Principais envolvidos na gafe do Oscar 2017

Warren Beatty e Faye Dunaway - atores veteranos, do clássico Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas, que foram escolhidos para apresentar e entregar o último e mais importante prêmio da noite: Melhor Filme.
Brian Cullinan e Martha Ruiz - experientes consultores da PwC, designados para este Oscar
Produtores de La La Land: Cantando Estações - considerados os favoritos para vencer Melhor Filme
Produtores de Moonlight: Sob a Luz do Luar - considerados como a maior ameaça a La La Land
Emma Stone - atriz de La La Land que veio a vencer Melhor Atriz, o antepenúltimo prêmio da noite


O que todo mundo viu

Quando chegou o grande momento, Warren Beatty abriu o envelope de Melhor Filme e, sorrindo, hesitou durante alguns segundos. A plateia riu, achando que ele estava querendo aumentar o suspense. Ele acabou mostrando o cartão para Faye Dunaway que anunciou La La Land como Melhor Filme. Os produtores subiram no palco, levando consigo a equipe e elenco, e começaram seus agradecimentos, já com as estatuetas em mãos. Aos poucos se formou um vai-e-vém atrás dos discursantes e, longos minutos depois, um produtor de La La Land acabou informando que havia um erro e mostrou o cartão do verdadeiro vencedor: Moonlight. Todo um constrangimento se estabeleceu e Warren Beatty foi ao microfone esclarecer que no envelope dele estava escrito "Emma Stone - La La Land", por isso havia hesitado. Finalmente, os produtores de Moonlight apareceram para -sem graça- receber o prêmio e agradecer.

Foto: Produtor de La La Land mostra o cartão de Melhor Filme


A sequência de erros

1) O consultor Brian Cullinan não eliminou seu envelope de Melhor Atriz depois que Martha Ruiz entregou o seu para o apresentador que anunciou Emma Stone como vencedora. Há relatos de que Brian 'twittou' ferozmente durante a noite, inclusive colocando uma foto da Emma Stone nos bastidores com a estatueta na mão;

2) Warren Beatty, sob pressão, imaginou que podia ter algo errado - afinal, Emma Stone não era produtora de La La Land, mas não agiu. Aliás, agiu errado: a) falhou em perceber que embaixo, em letras pequenas, estava escrito Melhor Atriz; b) não buscou assistência com um dos dois consultores da PwC; c) mostrou o cartão para Faye Dunaway achando que ela não ia simplesmente ler o nome do filme, mas que iria tentar ajudá-lo a decifrar o que estava acontecendo;

3) Faye Dunaway simplesmente leu o nome do filme, ignorando os demais dizeres;

4) Os produtores de La La Land, no calor do momento, dá para entender, sequer olharam para o cartão escrito Emma Stone;

5) Martha Ruiz e Brian Cullinan demoraram, muito, para reagir e corrigir.


Foto: Warren Beatty segurando o envelope errado


Lições Aprendidas

Atenção aos procedimentos:
Brian Cullinan cometeu a falha inicial e principal da catástrofe. Não seguiu os procedimentos, deixou de executar uma ação simples. Muito comum em, mas não exclusivo de, profissionais experientes como ele, a tendência de subestimar tarefas fáceis e corriqueiras pode ser o pilar de um erro fatal. E, novamente Brian, junto com Martha Ruiz, não soube aplicar o procedimento que demandava uma reação rápida e precisa em caso de engano no anúncio do vencedor.

Comunicação correta:
Alicerce do sucesso ou fracasso de qualquer projeto, empreendimento ou relacionamento, a comunicação (ou a falta dela) foi primordial para agravar a falha. Começando por Brian Cullinan, que utilizava a ferramenta de comunicação errada (Twitter), no momento errado, para as pessoas erradas. Warren Beatty não soube aproveitar a totalidade da informação escrita que lhe foi entregue, não se permitiu comunicar com as pessoas que poderiam precisamente esclarecer sua dúvida e apenas deixou subentendida sua intenção ao mostrar o cartão a Faye Dunaway. Ela, por sua vez, cometeu a mesma primeira falha de Warren e ainda deu o golpe final fazendo o anúncio publicamente.


Desta vez tudo isto pode ser visto só como uma gafe que mexeu com os ânimos de alguns milionários de Hollywood, causou o afastamento de dois consultores da PricewaterhouseCoopers, rendeu centenas de memes internet afora e marcou negativamente a história do Oscar para sempre. Mas, desatenção e falha de comunicação podem ser o que separa a normalidade de uma verdadeira tragédia.
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Particularmente, se eu fosse o apresentador do Melhor Filme este ano, abriria o envelope e diria: "Ah, o envelope certo!", seguido de: "Moonlight!", antes de dar uma pausa e anunciar o verdadeiro vencedor.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Horas escuras com Winston


O tema já foi explorado quase que à exaustão na sétima arte. E, tratando-se de uma passagem histórica plenamente conhecida, a missão de O Destino de Uma Nação era ainda mais difícil. Mesmo assim, o longa de Joe Wright consegue deixar sua marca.

Não são apresentadas novidades sobre os bastidores dos primeiros dias de Winston Churchill como Primeiro Ministro Britânico, nem tampouco revelações inéditas sobre sua vida pessoal. Para quem por acaso não conhecia, ou não se lembrava, os desdobramentos do ponto de maior impacto e suspense já haviam sido revelados meses antes no Dunkirk de Christopher Nolan. Restou ao filme, então, se concentrar e se apoiar no brilho de Gary Oldman.


Como um Daniel Day Lewis em Lincoln, Oldman simplesmente é Churchill. Facilmente o público é levado a se esquecer do ator para passar a enxergar apenas o personagem. Transfigurado sob uma maquiagem perfeita, o veterano não se limita a uma imitação de maneirismos e tom vocal, nem se esconde atrás dos tradicionais chapéu e charuto. O que acontece em tela é uma verdadeira imersão na figura histórica. E o roteiro ajuda a humanizar um líder estereotipado pelos seus feitos.

Confinando a maior parte da trama dentro de prédios governamentais, Joe Wright fica sem muito espaço para exercer sua criatividade e não repete o impacto visto em obras anteriores, como no excelente Desejo e Reparação. Mas, as tentativas estão presentes e mesmo carregado em (e por) diálogos, o filme flui em bom ritmo, sem nunca entediar. O que falta é estabelecer um senso maior do que estava em jogo, talvez atrapalhado pelo tom leve, quase humorístico, que perdura em quase toda a produção.

Se a ideia é experenciar a Operação Dínamo, Dunkirk é a melhor escolha. Para quem quer apenas passar alguns dias com Winston Churchill (e testemunhar uma fantástica atuação de Gary Oldman), O Destino de Uma Nação é seu destino.


O Destino de Uma Nação (The Darkest Hour), 2017




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Só a forma é pouco


Abrindo com “Aconteceu muito tempo atrás... no reino de uma princesa sem voz...  uma história de amor e perda... e do monstro que tentou destruir tudo” ao som de uma bela e bem típica trilha sonora, o cineasta Guillermo del Toro de cara estabelece uma natureza fabulosa para seu já aclamado e premiado A Forma da Água. Tido como uma mistura de fantasia e romance, a história sobre uma mulher muda que se envolve com um ser (o Homem-Anfíbio, segundo os créditos), que está preso no laboratório secreto no qual faz faxina, é muito mais fantasia que romance. Embora acredite piamente que não.

Construído de forma meticulosa, repleto de detalhes e tecnicamente deslumbrante (com direção de arte, cenografia, maquiagem, efeitos visuais e fotografia incontestáveis) o filme fraqueja no roteiro. E no romance. As atuações marcantes do elenco principal disfarçam, mas não apagam, a faceta unidimensional dos personagens, desde a protagonista deficiente até o antagonista sádico. E não consertam o modo corriqueiro e artificial com que o vínculo entre a mulher e a criatura é criado. Se o público não consegue simpatizar com um relacionamento desses, o filme vai (perdão do trocadilho) por água abaixo. E, ao contrário de incontáveis outras produções que já cativaram com o laço entre humano e criatura, A Forma demanda muito do espectador.


Isto se dá, principalmente, porque del Toro não está preocupado com romance. Desde os primeiros minutos, fica bem claro que a protagonista, no marasmo de seu dia-a-dia, não é carente de afetividade, mas sim de sexo. Ouvir música, bater um papo em linguagem de sinais, matar o tempo em boa companhia e... compartilhar ovos cozidos, isto tudo ela pode fazer (e já faz) todos os dias com o seu vizinho, gay dentro do armário. O ápice de seu relacionamento com o homem-anfíbio é “partir pros finalmentes” na primeira oportunidade. (Lá vem spoiler até o fim do parágrafo) Apesar de estampar o pôster do filme, o beijo do amor verdadeiro -com, vejam só, uma mistura do improvável de A Bela e Fera, a salvação de A Branca de Neve, a transformação “sou parte do seu mundo” de A Pequena Sereia e até o sapatinho caindo de Cinderela- só se dá nos segundos finais e já ofuscado por sessões de coito interespécies. Caso se esforçasse para construir um vínculo mais verossímil e tangível, o filme conquistaria um público maior. 

E não é o caso de pedir ao roteiro para procurar saídas fáceis com o objetivo de direcionar as emoções do espectador. Porque isso ele faz, em mais de uma situação, como a do atendente de restaurante que, após rejeitar uma investida do personagem homossexual, não somente se mostra homofóbico, mas também racista, contra um casal de negros que oportunamente acaba de entrar no estabelecimento. Uma escolha nada sutil, a exemplo das inúmeras que acercam o vilão vivido por Michael Shannon.

A forma de A Forma demonstra que del Toro continua um diretor com uma criatividade visual singular. E quase esconde sua deficiência na criação de histórias.


A Forma da Água (The Shape of Water), 2017




terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Bastidores da verdade


Mesmo com a política sendo peça fundamental em entradas recentes de seu currículo, como em Munique, Lincoln e Ponte dos Espiões, é somente agora com The Post: A Guerra Secreta que Steven Spielberg mergulha no universo de bastidores da notícia e do poder e mostra mais uma ponta de seu ecletismo com um genuíno e notável thriller político. Em apenas 9 meses, dos preparativos iniciais até o lançamento,  o diretor gestou um indicado ao Oscar de Melhor Filme. E dá para entender a “correria”. Ambientado no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, a trama real que envolveu o embate entre imprensa e governo sobre mentiras acerca da guerra do Vietnã é mais do que atual e serve para estimular debates importantes.

O que poderia facilmente ser um arrastado e didático reconto de uma passagem sem graça (não fossem os desdobramentos) do dia-a-dia da equipe do jornal Washington Post, nas mãos de Spielberg ganha um ar da urgência, tensão e novidade. Os diálogos expõem conflitos pessoais e interesses ocultos, tanto de jornalistas quanto de políticos, sempre ressonando com a atualidade.


O destaque é o elenco estelar, liderado por Meryl Streep em (já é clichê, mas vamos lá) uma atuação digna de Oscar e por Tom Hanks, sempre excelente, embora com menos material para brilhar como em outros momentos de sua carreira. Sarah Paulson, Bradley Whitford, Matthew Rhys, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross e Dan Bucatinsky são alguns dos coadjuvantes - todos eles experientes e já com, ao menos, indicações ao Emmy na bagagem. Assim como também o eterno Saul Goodman, Bob Odenkirk, que é de longe o melhor em tela (dentre os homens, claro).

Embora a produção tenha o trunfo de usar gravações telefônicas reais de Richard Nixon à época, suas falas acabam parecendo caricatas e não somente pela natureza do presidente (as frases públicas de alguns presidentes são surreais já hoje, imaginem as particulares daqui a algumas décadas). O enquadramento que Spielberg escolhe para mostrar Nixon e a trilha sonora digna de vilão de quadrinhos que o acompanha acentuam o tom de uma artificialidade que não era para existir. Mas, é um incômodo menor, como outros pequenos, que não atrapalha uma obra consistente.

Esta espécie de prelúdio de Todos Os Homens do Presidente não deixa nada a dever ao aclamado filme de Alan J. Pakula nem a nenhum outro clássico do gênero. Essencial.


The Post: A Guerra Secreta (The Post), 2017




quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Mães e filhas


No atual momento de Hollywood, onde há um clamor pelo empoderamento feminino e uma aparente pressão por prestigiar os trabalhos realizados e/ou protagonizados por mulheres, a existência de um filme como Lady Bird: É Hora de Voar pode parecer oportunista. Se ganhar quaisquer das categorias pelas quais foi indicada ao Oscar (Filme- Roteiro- Direção- Atriz- Atriz Coadjuvante), a produção irá levar uma mulher ao palco do Dolby Theater para discursar. Mas, sendo um trabalho tão pessoal e de tão longa gestação por parte da criadora Greta Gerwig, julgá-lo como tal é injusto e incorreto.

As indicações nas categorias de atuação são incontestáveis. Saoirse Ronan e Laurie Metcalf são a razão do filme existir e esbanjam uma química fora do comum, estabelecendo uma dinâmica entre mãe e filha crível e comovente. É um projeto claramente movido pela paixão e Greta Gerwig deixa isto transparecer em sua direção sólida e segura e em seu roteiro repleto de diálogos espertos.


Porém, a composição como um todo transforma o trabalho em apenas mais um filme sobre a transição da adolescência-juventude. As cenas rápidas, de natureza episódica, atrapalham o desenvolvimento de um arco dramático ao longo prazo e deixa a impressão de que está sendo preenchido um check-list dos anseios e vivências mais comuns de uma adolescente. Família, escola, rebeldia, amizade, religião, namoro, virgindade, aparência, álcool, drogas, faculdade, dinheiro, individualidade, status social, futuro... todos os temas “obrigatórios” estão ali aglomerados em 01h30 de projeção, que parece durar muito mais do que isso. É muita coisa que já foi transportada para o cinema antes, muitas vezes de forma até melhor e com mais assunto.

Os méritos de Lady Bird são vários, mas os deméritos também existem. Assim, há os que enxergam os defeitos e incorrem no risco da acusação de oportunismo ou protecionismo. E há aqueles que, calejados com a infeliz estatística que pesa contra a quantidade de mulheres nos bastidores do cinema, acabam enxergando somente os pontos bem sucedidos. Porém, Greta Gerwig precisa apresentar um produto final melhor, como já fizeram Kathryn Bigelow, Patty Jenkins, Ava DuVernay, Michelle MacLaren e Lesli Linka Glatter (só para citar uma mão cheia, dentre as realmente poucas que existem) para não ficar só no “ótima direção, para uma mulher”.


Lady Bird: É Hora de Voar (Lady Bird), 2017




terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Viva a Pixar!


Festa no Céu, a animação que tem como pano de fundo as tradições mexicanas do Dia dos Mortos, teve uma passagem pelo plano dos vivos sem muita repercussão. É uma pena, pois a produção de Guillermo del Toro centrada em um jovem que contraria a tradição de sua família para perseguir o sonho de ser músico é melhor do que se imagina e merecia mais destaque. Ainda bem que existe vida pós-cinema para as obras serem celebradas em DVD, BluRay ou streaming.

Justamente por este filme de 2014 ter tido pouca visibilidade, foram poucos os que ficaram com o pé atrás quando a Pixar anunciou uma produção com temática bem similar. Normalmente, seria sinal de falta de criatividade, certeza de uma visão míope e americanizada de uma vertente da cultura latina já adaptada para o cinema com tanta propriedade.

Mas, Pixar é Pixar.

Viva - A Vida é Uma Festa realmente tem a mesma fonte de inspiração que Festa no Céu. Mas, restringe-se a isso. Não cabe comparação. O enredo, as mensagens e os objetivos são bem diferentes. E mesmo que Viva não esteja no patamar de outras preciosidades da Pixar, tem seu brilho próprio.


A história segue o menino Miguel em uma jornada de descobertas sobre família, tradição e morte. Este último tema, em especial, é manejado pelos realizadores com sensibilidade e de uma forma adequada para o público infantil. Mesmo quem não compartilha das mesmas crenças utilizadas como base para o enredo não consegue deixar de se emocionar e ainda pode encontrar ganchos para abrir diálogos necessários com os pequenos.

Acima de tudo, Viva é um filme alegre, divertido e comovente, com uma boa dose de reviravoltas (talvez óbvias para os mais safos, mas não menos interessantes). A qualidade da animação é de primeira e o elenco composto essencialmente por mexicanos está bem à vontade (incluindo o estreante Anthony Gonzalez que dá voz ao protagonista mirim). A música, elemento tão crucial para a trama, empolga - seja com a trilha instrumental de Michael Giacchino, seja com as canções originais de Kristen Anderson-Lopez (mais conhecida por seu trabalho em Frozen - Uma Aventura Congelante).

A esta altura do campeonato parece que é automático para a Pixar fazer rir e fazer chorar, entreter puramente enquanto chama para a reflexão. Parece simples, como seguir uma fórmula. Se há de fato este molde mágico na Pixar, os estúdios concorrentes parecem não estar dispostos a copiar. Ou estão tentando e passando longe.


Viva - A Vida é Uma Festa (Coco), 2017




domingo, 21 de janeiro de 2018

Botando a raiva pra fora

A temporada de premiações pode ser injusta com muitos filmes, que correm o risco de serem julgados não pelo que são, mas pela comparação com os principais concorrentes. Assim, quando uma obra grandiosa e cinematográfica como Dunkirk, por exemplo, está no páreo é fácil diminuir o valor de uma produção com escopo mais contido. Assim, foi um susto para muitos, mas não surpresa para todos, quando Três Anúncios Para Um Crime ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme este ano. Independente da concorrência, o fato objetivo é que o filme é realmente muito bom. Sim, por vezes parece um filme feito para televisão, mas com a qualidade da TV hoje em dia, isto é longe de ser demérito.


Três Anúncios lembra bastante as realizações dos irmãos Coen, só que mais palpável. Como se as excentricidades tivessem sido podadas (mesmo que remanesçam algumas situações inusitadas e comportamentos inesperados), em favor de uma ambientação mais realista e personagens mais verossímeis. Ajuda bastante estes serem construídos com atuações de primeira de todo um elenco, que conta com coadjuvantes como Woody Harrelson e Peter Dinklage e é encabeçado pela musa dos Coen, Frances McDormand. Destaca-se também Sam Rockwell, dando camadas de profundidade ao policial que poderia ser apenas mais um dos seus tipos caricatos.

Mérito seja dado também ao roteiro, que foge de ser um estiloso amontoado de diálogos afiados e traz complexidade a suas crias, evitando que se tornem esteriótipos unidimensionais (com exceção, talvez, da namoradinha do ex da protagonista). Em meio a passagens de pura crueldade no seu ensaio sobre a raiva, o longa consegue encontrar indícios de sensatez e compaixão. E com tanto tema pesado, ainda consegue acertar a mão no humor (com exceção, talvez, da namoradinha do ex da protagonista).

Atenção - spoilers no próximo parágrafo

Após passar toda a duração de seu filme testando a percepção do público, levando-o a julgar os personagens e convidando-o a se colocar no lugar deles, enquanto surpreende com novas facetas dos mesmos, o diretor-roteirista Martin McDonagh opta por um desfecho  deliciosamente inconclusivo. Mais uma vez, caberá ao espectador juntar o que foi apresentado e decidir o que vale a pena tirar como lição.

Fim de spoilers

Se o filme receber uns três anúncios para coletar estatueta na noite do Oscar, os que torcem por Dunkirk, A Forma da Água ou The Post - A Guerra Secreta precisarão entender que não se trata de um crime.


Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri), 2017