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terça-feira, 2 de julho de 2019

Com quantas mentiras se faz uma tragédia?


A esta altura, tudo o que precisava ser dito sobre Chernobyl, a usina nuclear soviética e sua tragédia em 1986, já foi brilhantemente dito pela minissérie homônima. E tudo o que precisava ser pontuado sobre a produção da HBO, já foi exaustivamente feito internet afora. Mas, nem por isso vou deixar de registrar uma coisinha ou outra.

Do ponto de vista técnico, Chernobyl é impecável. As recriações dos cenários, o trabalho de maquiagem, a direção, a fotografia mais crua e realista, as atuações... E todo este trabalho serve a um roteiro que sabe dosar com maestria o que foi de fato real com as liberdades narrativas para se adequar ao formato da história. As partes mais chocantes não são em nenhum momento gratuitas ou apelativas e são balanceadas na medida certa como exposição informativa e com respeito aos que sofreram direta ou indiretamente com o acidente nuclear. (acidente?)


Mais do que prover detalhes interessantes e inquietantes, muitas vezes tão minuciosos que passam despercebidos, a série também dá as devidas dimensões do potencial da catástrofe como um todo. A noção do poder devastador do mal invisível acredito que todos já tinham, mas muito do que poderia ter sido, e muito do que foi, certamente não veio à tona na época. E, como toda história memorável, o que mais importa para a trama é o lado humano.

Destacam-se não somente os protagonistas, mas também o heroísmo dos mergulhadores, dos mineiros, dos trabalhadores no telhado e de tantos outros que se submeteram a uma exposição de alto risco simplesmente por seu senso de comunidade. Ou porque seu Governo pediu.

Não há como ignorar que a doutrina soviética é um fator gritante no ocorrido, com seus líderes arrogantes e prepotentes que se preocupavam com as consequências dos problemas para suas próprias carreiras e não para a comunidade, ao contrário da população trabalhadora. Mas, a série expõe sem floreio, as verdadeiras causas de tudo são intrinsecamente humanas: as mentiras.

Mentiras pequenas, mentiras grandes, mentiras para cima, mentiras para baixo, mentiras para os outros, mentiras para si próprio. Todas estão lá, com diversas motivações. E todas contribuem para a tragédia maior e para as tragédias pessoais.

"Cada mentira que contamos gera uma dívida com a verdade. Mais cedo ou mais tarde, a conta é cobrada." Para uma série que começou a ser escrita quatro anos atrás, sobre um episódio ocorrido há mais de trinta, Chernobyl é assustadoramente atual. E, lamentavelmente, Chernobyl será atual ainda por muito tempo.


Chernobyl (Minissérie em 5 episódios - HBO), 2019




quinta-feira, 27 de junho de 2019

Isso não é muito Black Mirror...


Se com a temporada anterior parecia que Black Mirror estava desbotando, com a mais recente parece que a série está brilhando. Mas, não no bom sentido.

Existem poucos resquícios da ironia, da acidez e da ambiguidade sombria que tanto marcaram os episódios mais inspirados da série. Como um Batman Eternamente para os filmes de Tim Burton,  não seria absurdo se esta curta temporada fosse rebatizada como Neon Mirror.

Os episódios de abertura e encerramento, Striking Vipers e Rachel, Jack e Ashley Too, trazem lá os tradicionais conflitos do comportamento humano com o perigo da tecnologia, mas acabam sendo otimistas demais (e cheios de gordurinhas). O primeiro parece mais preocupado em mexer com a percepção e conceitos do espectador do que contar uma história, enquanto o último tem a estrutura frágil e batida de uma novela mexicana, com os elementos de um conto-de-fadas.


Mesmo com uma mensagem muito direto ao ponto, como talvez Black Mirror nunca foi, o que salva é o episódio do meio, Smithereens. Boas atuações (bacana rever Andrew "Moriarty" Scott) sustentam a trama simples, mas bem construída com uma escalada envolvente de drama e tensão. E com um final, aí sim, mais blackmirroresco.

Mas então, excluindo o (telefilme? experimento?) Bandersnatch lançado ano passado, como as novas histórias se comparam com as demais? Por enquanto, na minha opinião, assim:

01. Toda a Sua História - The Entire History of You (T01, E03), 2011
02. Natal - White Christmas (Especial - T02, E04), 2014
03. San Junipero (T03, E04), 2016
04. Queda Livre - Nosedive (T03, E01), 2016
05. Smithereens (T05, E02), 2019
06. Metalhead (T04, E05), 2017
07. Engenharia Reversa - Men Against Fire (T03, E05), 2016
08. Hang the DJ (T04, E04), 2017
09. Odiados pela Nação - Hated in the Nation (T03, E06), 2016
10. Versão de Testes - Playtest (T03, E02), 2016
11. Manda Quem Pode - Shut Up and Dance (T03, E03), 2016
12. Crocodilo - Crocodile (T04, E03), 2017
13. USS Callister (T04, E01), 2017
14. Urso Branco - White Bear (T02, E02), 2013
15. Black Museum (T04, E06), 2017
16. Arkangel (T04, E02), 2017
17. Hino Nacional - The National Anthem (T01, E01), 2011
18. Volto Já - Be Right Back (T02, E01), 2013
19. Striking Vipers (T05, E01), 2019
20. Momento Waldo - The Waldo Moment (T02, E03), 2013
21. Quinze Milhões de Méritos - Fifteen Million Merits (T01, E02), 2011
22. Rachel, Jack e Ashley Too - Rachel, Jack and Ashley Too (T05, E03), 2019

A Netflix ainda não confirmou uma 6a. temporada. Se meu ranking é algum indício, tomara que não deixem de fazê-la, pois a série merece uma despedida melhor.


Black Mirror (5a. Temporada), 2019




segunda-feira, 24 de junho de 2019

E nós com isso?


(Texto com SPOILER e com sentido só para quem assistiu Nós (Us). Para quem gosta de terror fora do óbvio, recomendado assistir - antes de ler, obviamente)

O primeiro longa de Jordan Peele como diretor, Corra!, foi muito bem recebido e rendeu a ele inclusive um Oscar de Roteiro Original. Assim, a expectativa por sua obra seguinte, Nós, era alta e comparações com sua anterior acabariam sendo inevitáveis.

Mas, embora formem uma interessante "sessão dupla de filmes de terror não convencionais", elas não são tão parecidas quanto se poderia imaginar. Corra! mirava um escopo bem menor e, talvez por isto mesmo, tinha um foco maior e apresentava alegorias mais bem lapidadas. Mesmo tendo uma roupagem bem menos usual, enquanto Nós consegue ser vendido como terror de fato, Corra pedia menos 'suspensão de descrença' do espectador.


Quando chegamos ao clímax de Nós, uma série de questionamentos surgem, em desserviço à história: Exatamente todos 'de cima' têm um 'amarrado' embaixo? Como que um relacionamento 'espelho' embaixo necessariamente cria filhos fisicamente idênticos aos de cima? Tem túnel debaixo dos EUA inteiro? O que acontece quando os de cima viajam para fora do país? E quando chegam estrangeiros? Como os amarrados conseguiram tantos macacões vermelhos e tesouras idênticas? E por aí vai...

É preciso fazer muita vista grossa, mas se estivermos dispostos a dar um salto de fé, há muito o que curtir nesta produção assustadora, mas por vezes divertida, e repleta de metáforas. A começar pelo elenco, todo ele, inclusive os atores mirins. É uma lástima que filmes do gênero, e lançados tão cedo no ano, sejam esquecidos ou deliberadamente ignorados na temporada de premiações, porque Lupita Nyong'o merecia abocanhar todos de Melhor Atriz. Simplesmente incrível.

A narrativa em si prende e surpreende, mas o principal é que a trama é instigante e abre possibilidades para diversas leituras.  Há quem veja no simbolismo do vermelho uma alusão ao agora em baixa Partido Republicano dos EUA (US?) e suas causas pela minoria oprimida. Mas, quando a 'Adelaide de Vermelho' diz "Nós somos americanos", enxergo mais como "Nós somos alguém também."

Mais do que político, vejo o subtexto como social: um grito pelos desfavorecidos, subjugados ou esquecidos. E, o filme ressalta, não somente por consequência dos mais ricos, mas também pela classe média. Um "já parou para pensar que para ter a boa vida que você tem, pode existir um submundo de sofrimento por trás"? Um "já parou para pensar que uma outra pessoa qualquer, menos favorecida, poderia alcançar o mesmo que você, dadas as mesmas oportunidades"?

Independente de sua interpretação pessoal, ou mesmo se prefere só ficar com a superfície do filme, Nós ainda tem o mérito de tirar da manga uma reviravolta final, que é ao mesmo tempo deliciosa (pelo valor cinematográfico) e perversa (pela natureza dos fatos). Com a transição de uma Adelaide que vai manchando de vermelho sua roupa branca, revelando gradativamente sua real natureza, o filme nos faz questionar o que temos como valores, o que julgamos ser correto, e para quem e pelo que deveríamos torcer... Provocativo, como todo bom terror é.


Nós (Us), 2019


terça-feira, 4 de junho de 2019

Pontos finais



Depois de 12 temporadas de uma boa mistura de sitcom tradicional com muita nerdice, Big Bang Theory chegou ao final se não com uma explosão, ao menos com a devida emoção. Assim como foi com (a superior, é verdade) Friends, o charme residiu em acompanhar o grupo de amigos: seus relacionamentos, seus maneirismos, seus sucessos, seus fracassos e sua evolução. O fim não deixa de ser agridoce, pois é impossível se livrar do sentimento de despedida definitiva. Mas, se paro de zapear toda vez que Chandler, Monica, Rachel, Ross, Phoebe e Rachel surgem na tela, sinto que o mesmo vai acontecer com Sheldon, Amy, Leonard, Penny, Raj, Howard e Bernadette. Com prazer.

The Big Bang Theory (12 temporadas), 2007-2019






Já com um pouco de saudade de Game of Thrones e acostumado com o padrão dos especiais sobre bastidores da TV e do cinema, sentei para ver The Last Watch com nenhuma expectativa, além da de revisitar alguns cenários e atores da série da HBO. Mas, os realizadores surpreenderam positivamente ao optar por seguirem "personagens" mais empatizáveis, mas não menos interessantes, do cotidiano da produção, em vez de entregarem um amontoado de depoimentos de astros do primeiro escalão. Divertido e até emocionante, este documentário é obrigatório para todos que acompanharam a saga de Westeros: os que gostaram e os que absurdamente acham viável fazer uma petição pedindo toda uma nova última temporada.

Game of Thrones: The Last Watch (HBO), 2019






Dentre as sugestões sem noção que ouvi dos que odiaram o desfecho de Game of Thrones, uma se destacou: "Por que não lançaram uns cinco ou seis finais diferentes?" Minha reação de "E quem escolheria o final, VOCÊ???" saiu filtrada na forma de "Você já assistiu Bandersnatch?". A questão é que o episódio especial da cultuada Black Mirror parte de uma ideia genial, em teoria, e que só pôde existir neste formato (comum em games e até na literatura) graças à Netflix, ao streaming. Ao tomar decisões respondendo perguntas simples que surgem em tela, o espectador influencia diretamente os rumos que a história vai tomar. Apesar de se enveredar por uma metalinguagem curiosa, a fórmula de  Bandersnatch cansa rapidamente, justamente por não fornecer um senso de propósito. E de conclusão. Se não ficar satisfeito com final que acabou de assistir, você pode continuar "tentando" até ver quantos outros finais quiser. O resultado está mais para um experimento sem identidade, que sequer consegue fomentar as discussões filosóficas típicas de um pós-episódio de Black Mirror.  Diga o que quiser sobre os destinos de Cersei, Daenerys, Bran ou Jon: te garanto que Game of Thrones com cinco ou seis finais à la carte seria infinitamente pior.


Black Mirror: Bandersnatch (Netflix), 2018




sábado, 1 de junho de 2019

Raios!



Com pouquíssimo conhecimento sobre o universo Pokemón (um papo ou outro sobre o assunto com meu filho, a assimilação de que o mais importante é o amarelinho, e ícone pop, Pikachu e que seu poder maior é soltar raios pelo rabo - graças a um clipe alternativo do John Ulhoa), não precisa ser investigador  para afirmar que eu não sou o público alvo de Detetive Pikachu. Todavia, mesmo indo ao cinema só para tentar ser um bom pai, não fiquei entediado. Aliás, posso admitir que até gostei. Certamente a produção é um prato cheio para fãs, cheia de detalhes e referências, mas ainda apresenta uma base mínima para engajar os marmanjos. O visual do filme como um todo é bem cuidado e os monstrinhos são bem feitos. Se o recente (e merecidamente execrado) trailer de Sonic - O Filme é exemplo, ser "bem feito" ainda é um elogio hoje em dia e não algo óbvio. Em termos de roteiro, há furos por todos os lados. Só que não deixa de ser uma boa iniciação para os pequenos em filmes noir e em reviravoltas.

Pokémon: Detetive Pikachu (Pokemon Detective Pikachu), 2019






(Contém SPOILERS de Shazam!)
Talvez pelo já bastante criticado tom sombrio de vários dos filmes mais recentes da DC, a campanha de marketing de Shazam! investiu pesado no lado cômico da produção. E nada do que foi previamente divulgado nos prepara para os momentos mais pesados do filme. Não me refiro nem à violência, típica de quadrinhos, principalmente envolvendo os monstros que personificam os sete pecados capitais, mas às decisões do roteiro em trazer uma crueldade realista para seus personagens. Estamos falando de um filme que abre com um menino sofrendo bullying de seus próprios pai e irmão, que vem a crescer e se tornar o vilão que acaba matando os dois. Sem falar no arco do protagonista, que passa a maior parte do longa na busca por sua mãe, só para no clímax encontrá-la e ouvir secamente da sua boca que ela não o perdeu quando criança, mas simplesmente o abandonou. No entanto, na maior parte de sua duração, o filme cumpre o que promete (e ali tem seus melhores momentos) sendo essencialmente uma comédia, por vezes quase besteirol, que chega até a lembrar a série oitentista Super-Herói Americano, em que um adulto imaturo tenta descobrir e controlar seus novos superpoderes. O que distrai um pouco é que, ao contrário de tantas outras produções com a situação de "mesmo personagem, corpo diferente", o divertido Shazam adulto de Zachary Levy não se parece nem um pouco (comportamento, temperamento, etc) com o retraído adolescente Billy Batson.

Shazam! (idem), 2019







Quando Shrek 2 foi lançado, três anos depois do seu antecessor, já não existia mais o frescor da novidade e havia pouco a se acrescentar nos cruzamentos malucos dos personagens de vários contos de fadas. A continuação estava alicerçada meramente no peso dos seus já icônicos protagonistas. Uma Aventura Lego 2 sofre dos mesmos males que Shrek, com um agravante. Embora o primeiro filme e seu spin-offLego Batman: O Filme, tenham sido muito bons, seus protagonistas não conquistaram relevância cultural o suficiente para carregar um longa inteiro nas costas. Assim, a produção tem lá seus momentos divertidos, suas sacadas, suas referências, mas ironicamente ecoa a nova canção principal: "nada é tão incrível"...

Uma Aventura Lego 2 (The Lego Movie 2: The Second Part), 2019




terça-feira, 21 de maio de 2019

A guerra após a Guerra

(contém SPOILERS do último episódio de Game of Thrones, mas pelo tanto de meme que você já recebeu até agora, tanto faz)

Não há discussão de que as duas últimas temporadas de Game of Thrones foram mais corridas e perderam qualidade de roteiro. Mas, mesmo com diálogos mais fracos e menos maquinação, é correto afirmar que o fim "estragou" a série? Sou do time que diz que não. Avalio que houve material suficiente para manter a cria da HBO entre as melhores de todos os tempos. E... gostei do desfecho. Amei, achei a melhor coisa do mundo? Não. Mas, gostei de forma sólida.

Só que parece que cometi um crime. Agora, preciso passar pelos pontos mais polêmicos do último episódio, mostrando porque achei que foram coerentes. E eu gostei justamente porque achei que foram coerentes. Impossível convencer alguém a gostar ou não gostar de algo, e nem tenho a pretensão disto. Só quero me justificar perante a acusação de apunhalar pelas costas o senso comum dos fãs internet afora.


Então...

Qual foi a do Jon?
Sempre foi claro que Jon nunca quis se sentar no Trono de Ferro, mesmo antes dos roteiristas passarem a obrigá-lo a dizer isso em voz alta. Mas, mesmo assim, muita gente ainda torcia para ele terminar lá. O chamado, a recusa, as provações, a recompensa e, caramba, até a ressurreição estavam lá. A Jornada do Herói estava mais que desenhada. Mas Game Of Thrones acabou sendo Game Of Thrones, e o arco de Jon terminou, sob este aspecto, de forma anticlimática.
Só que mesmo com essa quebra, Jon Snow ainda foi um grande herói e teve uma conclusão digna.  Esfaquear Daenerys, foi um ato de covardia? Não. Ele terminou como algo que ele sempre foi (ou aspirava ser), nobre. Acima de tudo. Ele se sacrificou, por um bem maior. Matou a pessoa que amava, porque era o correto para o mundo. Um raro momento na série em que alguém não matou por vingança, maldade ou pela disputa pelo poder. Ele fez o que era certo, altruisticamente, sabendo das consequências. Se tivesse sido a Arya a dar a facada, como muita gente queria, ela seria perseguida como assassina, regicida pelo resto da vida. E, SE ela quisesse matar Daenerys, o teria feito. Teve oportunidade muito mais fácil que a do Rei da Noite.
No fim das contas, Jon até termina com um posto condizente com sua grandeza, um Rei Além da Muralha, Mance Rayder 2.0 ou melhor. Há ali um outro mundo inteiro, uma extensão territorial gigantesca e uma quantidade enorme de pessoas. Sem falar que ele  passou a maior parte da série naquele núcleo de "Povo Livre/ Selvagens". E lá se encontrou. (Nem me venham com papo de Azor Ahai, essa coisa que só foi mencionada nos livros e que eu teria achado ridículo tirarem da manga aos 45 minutos do segundo tempo).

Qual foi a de Daenerys, Nascida da Tormenta, a Não Queimada, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos dos Rhoinares e dos Primeiros Homens, Khaleesi do Grande Mar de Grama, Quebradora de Correntes, Mãe de Dragões, Amante de Sobrinhos Desde Que Não Contem Pra Ninguém, a Que Caiu do Lado Errado da Moeda Targaryen?
Como não tem hospício em Porto Real...

Qual foi a do Drogon?
Num ataque de fúria ele percebeu que o que realmente matou sua mãe não foi aquele homenzinho que estava ao alcance dos seus dentes (caso seu bafo falhasse em queimá-lo), mas sim a busca cega dela por aquele maldito trono de ferro. E o derreteu. Qual o problema? Quem disse que dragão não pode ter sensatez e tino poético?

Qual foi a do Bran?
O Bran ser o novo Rei é mais do que apropriado pois, conforme Tyrion expôs, ele tem "todas as histórias" dentro de si. E consegue ver o passado e o presente. Se isto não for potencial para ser o governante mais justo da história da ficção, eu não sei mais o que é. Claro, existe aquela sensação de "mais do mesmo" ao vermos o Pequeno Conselho reunido discutindo futilidades? Sim, mas com algumas diferenças. Agora é um grupo mais diverso e, aparentemente, mais digno do que antes. E, estão cuidando de futilidades. Tenho convicção de que os poderes de Bran serão decisivos nos assuntos cruciais. Entendo quando muitos enxergam paralelos com nossa política (não somente a nacional, mas a mundial) e este é um filtro difícil de se tirar. Consumimos ficção sempre sob a visão irônica das nossas realidades. Mas, pode ser só o idealista dentro de mim, tenho a esperança de que pelo menos em Westeros a mudança verdadeira vai acontecer, mesmo que lentamente. O que foi instituído pode, em teoria, terminar aquele monte de disputas dentro de famílias, entre famílias e guerras pelo trono. (Nem me venham com teorias de que o Bran é o Rei da Noite ou que ele está manipulando todos, porque é ridículo, incoerente e teria sido tirado da manga aos 45 minutos do segundo tempo).

Qual foi a do Tyrion?
A grande implicância que ouvi por aí foi: por que a decisão que moldou todo o reino surgiu de uma cena improvável em que Lordes deram ouvidos a um prisioneiro? A isto eu respondo: porque Tyrion é o cara. De longe o personagem mais interessante, com direito a indicação ao Emmy para Peter Dinklage em todas as temporadas até agora, rendendo três vitórias e, se justiça for feita e Bran der uma força, com uma quarta no forno. Viram? Tudo tem explicação lógica.

Qual foi a da Sansa e Arya?
Bom, nem preciso mencionar a Sansa já que, junto com Jon afagando o Ghost, ela parece ser a única unanimidade dos fãs (ex-fãs?) da série. Talvez porque todos enxergaram (e a palavra é, mais uma vez) coerência. Com a personagem e com o seu desenvolvimento. Já, com a Arya, alguns tiveram ressalvas. O que é estranho, pois ela sempre esteve "na estrada", sempre teve espírito aventureiro. Se era para dar um final feliz para uma personagem tão estimada, não vejo outra saída melhor. Aliás, as conclusões das irmãs não tinham como ser mais adequadas, seguras e positivas. E ainda renderam uma bela montagem final, com seus destinos interpostos com o de Jon.

Mais uma vez, respeito os que estão chateados (aliás, a única certeza que eu tinha antes da última temporada começar era de que ela iria agradar a poucos). É direito de cada um fantasiar sobre finais alternativos. E muitas grandes obras, com desfechos ambíguos ou em aberto, dependem disto. Mas, Game of Thrones teve um final concreto. A vida segue. E os debates também.

Eu só não quero ser condenado por gostar de algo. Agora, se insistirem, eu exijo Julgamento por Combate!


Game of Thrones (HBO), 2011-2019




(sim, o texto foi só do episódio final, mas a nota é pra série inteira - fazer o quê? aqui não é democracia. Sam bem que tentou)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A jogada final dos Vingadores

(Texto com SPOILERS para Vingadores Guerra Infinita e Ultimato. Mas, pela bilheteria deles, certamente você já assistiu)

Naturalmente, as HQs fizeram parte da minha infância/ adolescência. Talvez por influência do Superman, de 1978, do desenho dos Superamigos na TV nos anos 1980 e do Batman, de 1989, eu tinha uma afinidade maior com a DC Comics. Mas, li bastante Marvel também, com certa predileção por Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e a incrível minissérie Guerras Secretas, que me fascinava por reunir todos os principais heróis numa história única.

Porém, minha estima pelos gibis foi se dissipando por culpa da necessidade da Marvel de entrelaçar suas tramas. Estava lá eu lendo um Homem-Aranha e algo que parecia estar fora do contexto era mencionado. Surgia uma nota de rodapé: *Leia Capitão-América no. 27. Três páginas depois, outra nota: *Leia Vingadores no. 31. O caso era que nem toda banca de revista tinha tudo, a mesada era limitada e eu simplesmente não achava certo ser obrigado a ler um monte de outra coisa para poder acompanhar a história que eu queria. Infelizmente, o mesmo aconteceu comigo com a incursão da Marvel nos cinemas com seu Marvel Cinematic Universe. Começou a ter tanto filme, com tanta "nota de rodapé", que bateu uma preguiça. A verdade, doída, é que não vi exatamente todos os cerca de 20 filmes que deveriam ser assistidos antes dos dois Vingadores derradeiros.

E Vingadores: Guerra Infinita definitivamente está sob este paradigma. Só é possível entender 100% do ponto de partida da história, e do pano de fundo de todos os (incontáveis) personagens, se tiver assistido a 100% dos filmes que o antecederam. Mas, claro, é possível curtir o filme com conhecimento de apenas parte da filmografia do MCU, pois o roteiro usa alguns poucos minutos aqui e ali para dar uma relembrada no (ou situar o) espectador.

E há, sim, bastante o que curtir nesta convergência mágica de personagens, estrelas e narrativas, em uma escala talvez sem precedentes na história do cinema. Mas, há muito. E, julgo, não das coisas certas.

Os grandes momentos da Marvel no cinema quase sempre foram os de desenvolvimento e interação de personagens. A esta altura, as origens estão realmente mais que estabelecidas e muitos heróis estão mais para o fim dos seus arcos do que demandando mais maturação. Mas, ainda há bastante para se explorar no relacionamento daqueles vários egos - sendo o exemplo maior (e as melhores partes de Guerra Infinita) a dinâmica entre Thor e os Guardiões da Galáxia.

Além também de um pouco de Tony Stark "versus" Doutor Estranho e de Wanda e Visão num romance sem graça e nada eficaz em estabelecer a carga emocional necessária para decisões que levam ao clímax do filme, o roteiro se esforça para investir em Thanos.

Ainda assim, a ação em torno do vilão é muito corrida: levou sabe-se lá quantos anos para conseguir uma única Joia do Infinito e agora, duma vezada só, consegue todas. E, mesmo com uma boa atuação de Josh Brolin sob o CGI, seu momento maior de "humanização" não me conquistou, nem me convenceu. Não vi material suficiente nos dois longas dos Guardiões, nem neste, que me fizessem acreditar no tamanho do amor de Thanos por Gamora. Não me pareceu ser uma tarefa árdua para ele o "sacrifício" para conquistar a Joia da Alma, assim como ele não esboçou ser uma alma torturada depois.

A morte de Gamora é, sim, impactante, construída em uma cena bela e dramática. Este impacto, porém, se contrapõe à sensação de provisoriedade das outras mortes que ocorrem, principalmente no 'grande momento' da produção.

Já é sintomático em filme de heróis e a Marvel sabe disso. A morte de Lóki, por exemplo, é precedida por um "Sem ressurreição desta vez" e sucedida por um "Desta vez é definitivo, ele não voltará", para tentar (sem sucesso, no meu ponto de vista) dar algum peso ao que está por vir.

Embora as imagens sejam momentaneamente tocantes, assim que começam a ser revelados quem são os afetados pelo estalar de dedos do Thanos, o filme me perdeu. A obviedade de que haverá uma reversão no próximo Vingadores fica estampada no momento em que são eliminados personagens que já têm suas continuações garantidas, como Pantera Negra, Guardiões da Galáxia, Doutor Estranho e Homem-Aranha. O elemento surpresa e o choque são rapidamente substituídos pelo desânimo de "é, lá vem mais um filme de ressurreição de heróis". Mesmo sem a mínima noção dos (amplamente divulgados) planos da Marvel para as telonas, um espectador imerso consegue ter a mesma percepção: acabou de ver minutos antes Thanos revertendo uma morte, a do Visão.

Fica de fato uma certa expectativa do como vão fazer, mas nenhuma dúvida de que realmente vão. Eu senti mais pelo povo de Gamora no flashback do que pelos protagonistas.

(Até aqui o texto foi escrito antes que eu tivesse visto Ultimato)


E, então, tudo nos leva a Vingadores: Ultimato.

Sob a ótica da família de Gavião Arqueiro, o filme abre ainda no espírito de Guerra Infinita: perturbador num primeiro momento, mas, pela dimensão e pelo "tipo de filme que é", sem margem para dúvida da reversibilidade. E, pelos próximos 15 minutos, assim segue. Na correria e, com Thor decapitando Thanos, no choque seguido da certeza de que nada é definitivo. Afinal, ainda é o começo de um longa de super-herói produzido pela Disney!

Mas, as coisas começam a ficar interessantes e o salto de cinco anos traz um desconforto necessário. Mesmo que a metade da vida do universo volte em algum momento, temos a oportunidade de presenciar o quanto a ausência dela afeta o planeta e, principalmente, os personagens. O filme tira o pé do acelerador e o roteiro cuida de nos situar nas consequências psicológicas e emocionais. À medida que a equipe vai se recompondo para a execução do novo plano, os diretores acertam em construir momentos tenros ou engraçados, calmos e pequenos em escopo, tão escassos em Guerra Infinita.

Os assaltos temporais, como foram batizados pelo Scott, criaram formas inventivas para o público revisitar momentos do MCU sob outros pontos de vista, lembrando bastante De Volta Para o Futuro 2. Isso sem perder o foco nos relacionamentos e em meio a sequências de ação empolgantes.

De uma forma geral, sou um fã de viagem no tempo e, talvez com exceção do contido Crimes Temporais e do confuso e complexo Primer, praticamente é impossível se criar uma história em torno deste tema sem incorrer em furos ou paradoxos. Pensar um pouquinho demais nas ações e consequências do que é feito na maior parte deste filme é ser puramente implicante e esquecer que trata-se de uma obra de entretenimento. Claro que o que o Capitão América faz no final beira o absurdo e dificilmente sustenta a lógica de muita coisa que já aconteceu nestes filmes todos, mas não me importo. Eu me diverti com o que vi e fiquei bem satisfeito que a solução não foi simplesmente fazer o tempo voltar para trás. As mortes acabaram não sendo definitivas, como previsto, mas o impacto daquelas ausências modelou fortemente os que ficaram. E suas decisões.

Avalio que Ultimato é uma conclusão digna para os que encerraram seu ciclo e um bom empurrão para os que continuam suas jornadas. Ainda sinto resquícios de saturação de filmes de super-heróis, mas se lançarem 'Asgardiões da Galáxia' semana que vem, meu ingresso está garantido.


Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War), 2018




Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame), 2019