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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Pequenas grandes enrolações


Três dos cinco prêmios que Big Little Lies levou este ano no Emmy são mais que merecidos: Atriz, Atriz Coadjuvante e Ator Coadjuvante. E, nesta linha, poderia até ter levado mais, se houvesse categorias como “Coatriz Principal”, “Coator Coadjuvante”, “Atriz Coadjuvante Secundária”, “Atriz Mirim” (em especial) e sabe-se lá mais o quê.  Porém, os outros dois prêmios, de Direção e Minissérie, são discutíveis, pra não dizer indevidos.

Boa parte do trabalho de um diretor é saber extrair o melhor do seu elenco, e nisto Jean-Marc Vallée (do ótimo Clube de Compras Dallas) se destaca. Com um plantel desses, há o risco de se imaginar analogias como “a seleção tem tanto jogador bom que nem precisa de técnico”. Mas, tanto na origem quanto na forma análoga, essa afirmação é absurda. Caso não deixasse faltar à minissérie ritmo e empatia, a premiação do diretor canadense seria também inquestionável.


Não basta o público estar diante de rostos conhecidos e talentosos, é necessário que os seus personagens sejam cativantes. E, seja por estarem em uma realidade distante e pouco palpável ou seja por raramente serem agradáveis , os habitantes de Monterey aqui retratados, com seus comportamentos sucessivamente bizarros, reprováveis ou até incompreensíveis, não são nada relacionáveis. E para se ter vontade de desprender tanto tempo com eles, o mínimo de afetividade com o espectador teria que ter sido conquistada.

Se não isto, ao menos uma história amarrada e intrigante deveria ser contada. Partindo de um bom pontapé inicial, o primeiro episódio faz jus ao seu título ,“Alguém morreu”, e apresenta a minissérie não somente como um whodunnit tradicional, mas também como um whowasitdoneto ao esconder também a vítima, deixando tudo em aberto. Mas, o suspense é só este e Jean-Marc Vallée acredita ser mais que suficiente para esticar por sete longos episódios o que poderia ter sido contado em menos de duas horas. Apresentando-se em flashbacks, quase desconexos com os depoimentos desinteressantes (mesmo que vez ou outra engraçados) de personagens sub-secundários e irrelevantes, a narrativa falha em criar tramas paralelas atrativas. Os episódios terminam de forma apática, sem ganchos, despertando apenas uma vontade recorrente de se livrar logo daquele incômodo e ir contra a curiosidade básica por saber o desfecho – e a esperança por alguma surpresa que justifique a consagração como melhor do ano.

A conclusão do mistério em si – que só acontece mesmo no último capítulo, com evolução quase nula até então - não surpreende e passa longe do memorável. Dois anos atrás, este blog apontou que parecia que a Globo estava tentando aproximar suas novelas das séries da HBO. Agora, parece que a HBO tentou aproximar sua série de novelas da Globo.


Big Little Lies (1a. temporada), 2017




quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Um livro sem editor


O cineasta Colin Trevorrow surgiu para o mundo com a produção independente Sem Segurança Nenhuma, cujo maior fruto foi levá-lo a ser escolhido a dedo por ninguém menos que Steven Spielberg para dirigir Jurassic World: O Mundo Jurássico. E depois destes dois tiros certeiros, outro salto gigantesco: a Lucasfilm o anunciava como diretor de Star Wars: Episódio IX. Natural então que seu próximo filme antes da imersão na saga Skywalker, O Livro de Henry, recebesse o holofote (e figurasse na lista dos 10 mais esperados do ano deste blog).

Porém, mais rápido que sua ascensão meteórica foi sua queda. O Livro de Henry foi massacrado pela crítica e ignorado pelo público. Relatos de bastidores começaram a apontar distúrbios na Força durante a pré-produção do Episódio IX. Não demorou muito, a Lucasfilm demitiu Trevorrow de seu posto por "diferenças criativas".


A questão é que existem apenas duas coisas boas em Henry: o garotinho Jacob Tremblay, que já havia dado show em O Quarto de Jack, e a trilha sonora de Michael Giacchino, que raramente erra a mão. O primeiro infelizmente não salva o filme, apesar de quase ser motivo o suficiente para o público gastar seu tempo. Quase. E o segundo evidencia o grande problema do longa - as constantes mudanças de tom.

A musiquinha alegre com a sequência animada que compõe os créditos iniciais indicam um determinado tipo de filme. Mas, seja por ambição e ousadia, seja por estar simplesmente perdido, Trevorrow inesperadamente e sem muita sensibilidade transforma o filme em um drama leve, depois em um drama pesado, depois em uma história de suspense e depois finaliza como alguma outra coisa. Sem Segurança Nenhuma não deixava de ser uma mistura de ficção, comédia e drama, mas o resultado parecia bem dosado e homogêneo. Já O Livro de Henry é um balaio confuso de emoções que não engrena, preenchido por motivações obscuras e mensagens duvidosas.

Todo grande cineasta tem seu tropeço. Mas, o importante é que todo grande cineasta aprende com seu tropeço. Pelas declarações arrogantes, Colin Trevorrow não tem se mostrado grande. É torcer para que o tempo e outros estúdios deem oportunidade para ele se redimir.


O Livro de Henry (The Book of Henry), 2017




quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mais estranho não é pior


Coisas estranhas continuam acontecendo em Hawkins, Indiana. E o que é mais estranho, mas não surpreendente, é que a segunda temporada de Stranger Things é simplesmente tão boa quanto a primeira. A mesma diversão, o mesmo suspense, a mesma nostalgia. Mas, sem ser exatamente apenas mais do mesmo.

O enredo agora expande a mitologia da série, buscando inserir novidades e ampliar o que está em jogo - de certa forma não muito diferente do que várias produções cinematográficas já fizeram, como por exemplo Aliens - O Resgate foi para Alien - O Oitavo Passageiro. Só que não se contém em repetir a fórmula e aumentar a dose, mas arrisca novas abordagens, mudando significativamente a dinâmica anterior.


Mesmo em meio a um escopo maior, há a devida dedicação para o desenvolvimento dos personagens. Os atores mirins se mostram profissionalmente mais maduros, mas ainda com um charme infantil e sem apresentar trejeitos ou caracterizações exageradas. Há uma nítida evolução em Millie Bobby Brown e Noah Schnapp, agora que seus Eleven e Will Byers têm mais material para trabalhar. Os atores jovens e adultos mantêm o nível da temporada passada, com destaque para uma Winona Ryder com menos excessos e Joe Keery entregando um Steve muito mais relacionável. As novidades no elenco são bem vindas e os novos personagens têm o que acrescentar à trama, não estão ali somente para tapar buracos. Mais indicações ao Globo de Ouro e ao Emmy para atores e atrizes seriam mais do que merecidos.

Os criadores irmãos Duffer continuam responsáveis pela direção da maioria dos episódios. Mas, é interessante que criaram oportunidades para outros diretores entrarem na jogada, como é o caso do bicampeão do Oscar pela Pixar, Andrew Staton, que assume o comando de dois episódios. A temporada funciona como um excelente crescendo musical e, após o (injustamente) menosprezado sétimo episódio (uma pequena "interrupção" para um essencial solo), culmina nos dois excelentes episódios derradeiros.

O desfecho funcionaria como um perfeito final de série, se o conjunto da obra não fosse tão cativante  e não deixasse um desejo incontrolável de continuar vendo aquilo ali por mais temporadas.


Stranger Things (2a. temporada), 2017




terça-feira, 21 de novembro de 2017

Isto(não)É


Qualquer texto da Isto É hoje em dia tá parecendo jogo dos 7 erros:


Desse jeito até eu tô escrevendo melhor que a revista.

(se estiverem pensando, o sétimo erro é a falta de coerência ao escrever 'Steppenwolf'' em vez de 'Lobo da Estepe')


NOTA importante (não é fake news): este é a postagem de número 500 do blog! A que ponto chegamos...
0,5mil.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Se Liga nessa


A produção de Liga de Justiça não se deu sem atribulações. O diretor Zack Snyder, acusado por muitos de não entender os personagens da DC e criticado por dar um tom sombrio demais aos filmes que comandou anteriormente, acabou abandonando seu posto na reta final para se recuperar de uma tragédia familiar. O nerd de plantão e profundo conhecedor do universo geek, Joss Whedon, ex-Marvel, assumiu a direção com a missão de finalizar o longa. O que se deu nos bastidores foram extensivas refilmagens, que fontes apontam algo como 15 a 20% do filme sendo modificado, e que acabaram lhe rendendo o crédito de corroteirista.  O importante é que o produto final não parece um frankenstein filho de dois criadores distintos, mas uma obra coesa, mesmo com suas falhas, que recoloca o chamado DC Extended Universe no trilho certo.

Patty Jenkins já havia acertado a mão mais cedo este ano com Mulher Maravilha, mas ainda havia desconfiança sobre a condução dos principais heróis masculinos. E depois de Homem de Aço e Batman V Superman, finalmente o cinema conseguiu trazer o Superman (não, não é spoiler que ele volta) para o tom correto, como o bom exemplo que todos esperavam que ele fosse (sim, dados os últimos filmes, isto é um spoiler). Chega a parecer que tudo vai desandar assim que o personagem é reintroduzido na trama, mas logo os fãs podem respirar tranquilos ao ver o último filho de Krypton sorrindo, pregando boas maneiras e... salvando pessoas! Este é o Superman que deixa a pancadaria momentaneamente com os colegas, para simplesmente ir proteger civis. Este é o Superman que todos queriam. Este é o Superman que o mundo de hoje precisava ter de volta.


Mas, até pelo tempo em tela, Batman e Mulher Maravilha são os protagonistas. E não decepcionam. Ben Affleck parece mais à vontade com um enredo que permite um homem-morcego menos sisudo e Gal Gadot continua no mesmo embalo do seu filme solo. Essa merece ir longe neste universo. Jason Momoa, o eterno brutamontes Khal Drogo de Game of Thrones, faz um Aquaman bad boy como nunca antes visto, tirando a má impressão que o personagem tem. E o Flash é o responsável por trazer a carga de alívio cômico tão demandada para o DCEU. Só o Cyborg que, mesmo sendo crucial para a trama toda, diz pouco a que veio. Ainda assim, ele dá Liga. É empolgante ver estes heróis juntos.

O que não empolga é o Lobo da Estepe. Obscuro até para fãs mais dedicados, suas motivações são ridiculamente unidimensionais (dominar o mundo simplesmente porque pode e quer) e sua composição é através de um CGI distrator, para não dizer simplesmente ruim e barato. Sorte que ele está ali apenas para ser o fio condutor que levará a Liga a se formar. Talvez se Joss Whedon tivesse chegado um pouco mais cedo, o vilão poderia ter sido isso e algo mais. Mas, já é o suficiente.

O que Whedon conseguiu mudar a tempo, para o bem, mas não sem polêmicas, foi o compositor. No lugar de Junkie XL, escolhido por Snyder, ele colocou o experiente Danny Elfman. Mesmo sem emplacar melodias originais marcantes, Elfman entregou uma das trilhas mais interessantes do DCEU e ainda arrumou jeito de encaixar referências ao recente tema da Mulher Maravilha, o clássico e inigualável Superman de John Williams e o seu próprio tema do Batman, do filme de 1989 de Tim Burton.

Se os últimos minutinhos da produção são meio mornos, a recompensa vem com os créditos finais. No meio, uma rápida, divertida e inevitável cena com Flash e Superman. E, após tudo, uma cena não tão curta e essencial para uma, não só inevitável também, mas agora desejável e esperada, continuação da Liga da Justiça.


Liga de Justiça (Justice League), 2017




terça-feira, 14 de novembro de 2017

Ameaça atômica


Quem disser que Atômica é um "James Bond com saia" não está totalmente errado. Afinal, trata-se de um(a) agente secreto(a) do serviço de espionagem britânico MI-6 que se envolve em perigosas tramas de escala global. Mas, também não está totalmente certo. Mesmo baseada em uma história em quadrinhos, Atômica possui uma violência mais visceral, o que a distancia de que qualquer produção do 007.


Charlize Theron, como a agente Lorraine Broughton, já começa o filme com mais hematomas que Daniel Craig, Pierce Brosnan, Roger Moore e Sean Connery jamais tiveram. Talvez até juntos. E como a narrativa é estruturada em flashback, a origem de cada lesão acaba sendo escancarada para o espectador. O ponto forte do filme são as sequências de ação, herança do vasto histórico como coordenador de dublê do diretor David Leitch. Algumas são de tirar de fôlego, como uma que se inicia em um prédio, percorre escadarias e termina na rua com uma perseguição de carro, tudo isso em um longo plano sequência (provavelmente com cortes mascarados, mas, tanto faz, o efeito final é espetacular). Se Em Ritmo de Fuga não existisse, seria fácil escolher a melhor cena de ação do ano.

O roteiro é que não ajuda. Confuso e, ultimamente, sem conteúdo, se esforça para parecer mais inteligente do que realmente é. As reviravoltas são ou previsíveis ou sem graça. Ou ambos. Ainda há o fator do ‘narrador não confiável’, o que torna impossível distinguir o que realmente ocorreu do que foi apenas inventado pela agente para enganar seus superiores. Em cenários assim, são pouquíssimas obras que conseguem manter o público investido emocionalmente na história e no destino dos personagens.

Mas, parece que para os realizadores pouco importa. Com Charlize Theron estonteante e durona enchendo a tela ao som de uma inspirada compilação de hits dos anos 1980, história é o de menos. E, de fato, quando Under Pressure do Queen termina de tocar no meio dos créditos finais, tudo o que ainda permanece marcado é a estilosa dupla formada por Charlize e ação.


Atômica (Atomic Blonde), 2017




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Infinitas possibilidades


A primeira coisa que precisa-se saber sobre a animação Rick and Morty é algo que já deveria estar bem claro para todo mundo, mas uma enormidade de pessoas insiste em não assimilar. Só porque algo é um “desenho animado” não significa que seja para crianças.

Rotuladas como adequadas para maiores de 14 anos pelo Cartoon Network em sua faixa Adult Swim, as aventuras do avô cientista alcoólatra (um Doc Brown doidão e insensível) e seu neto (um Marty McFly bobinho e fracassado) poderiam muito bem ter uma recomendação etária até maior - nem tanto pela violência (estilo ficção científica, mas muito vezes crua) nem pelo linguajar (“bleepado”, mas fortemente presente), mas por conceitos e valores que não deixam de ser perigosos para uma mente em formação. Um público mais maduro (e menos conservador), porém, pode desfrutar da acidez e do entretenimento que a série tem a oferecer.


Comédia e ficção-científica são os pilares de todos episódios. No primeiro pilar, sobram humor negro e o politicamente incorreto, variando desde risíveis pequenas críticas até o puramente ofensivo e cruel. O segundo pilar abusa (no bom sentido) de sátiras e paródias (um festival de alegria para fãs de cinema e séries), mas não se limita a isto, esbanjando criatividade e desenvolvendo ideias inteligentes e originais que poderiam render episódios muito maiores que aqueles 20 minutos ou até mesmo longa-metragens completos. Não é raro o espectador perder detalhes interessantíssimos e chamadas visuais inventivas em meio a tanta correria.

Por vezes a animação decide explorar arcos dramáticos e não pega leve com seus personagens e nem, por consequência, com seu público. Seja em qual vertente, Rick and Morty não é de fácil consumo, nem é de se recomendar para qualquer pessoa. É um programa para poucos. Mas, para poucos gostarem muito.


Rick and Morty (1a., 2a. e 3a. temporadas), 2013 a 2017