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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Avalanchezinha


Se não fosse pelo burburinho que causou no festival de Sundance, talvez Operação Avalanche não teria entrado no meu radar. Se não fosse pelo tema, a suposta encenação em estúdio da chegada do homem à Lua, talvez eu não o teria assistido. E talvez teria sido melhor assim.

O primeiro problema desta produção independente é o estilo: câmera na mão. Ainda não consigo deixar de ficar (mesmo que ligeiramente) nauseado com este desnecessário formato. Neste caso, ele poderia até ser justificável já que o filme se posa como um documentário perdido da época do programa Apollo. Mas, como todos sabem que ele é falso, filmá-lo assim pouco contribui e só faz evidenciar de que trata-se de um filme barato (sem conotações pejorativas). Sua artificialidade se dá não somente por ser notório que os atores são contemporâneos nossos, mas também porque já está muito fora de moda duvidar de que o homem foi à Lua. (Se ainda há algum pingo de vontade de abraçar teorias da conspiração, recomendo o curto e ótimo episódio 199 do Nerdologia no YouTube).


Falando em atores, eles são a raiz do segundo problema. Matt Johnson pode ser um bom diretor, mas como ator é só irritante. Os protagonistas eram para ser uma dupla de agentes da CIA infiltrados na NASA se passando por estudantes de cinema. Mas, mesmo fora do disfarce eles parecem o tempo todo ser o que são na vida real: estudantes de cinema. Ninguém ali convence e a jornada parece existir só para se apreciar um bom trabalho amador. Se os realizadores fossem da família, ou amigos íntimos, seria uma experiência excelente, mas a obra exposta para o mundo pouco tem a agregar.

Apesar do roteiro fraco, que para um pseudo-documentário traz pouca lógica e coerência, há o que se apreciar no filme, especialmente nas passagens envolvendo o cineasta Stanley Kubrick à la Forrest Gump. Mas, no fim das contas é somente mesmo uma ótima ideia executada com boas intenções. E sabe o que dizem por aí sobre boas intenções, né?


Operação Avalanche (Operation Avalanche), 2016




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Saul que há de melhor


Continuo sendo o (desacreditado) cara que se diz fã de cinema e que nunca viu Breaking Bad. O problema é que perdi o zeitgeist da série protagonizada pelo famoso Walter White e acabei traçando uma meta: assistir ao seu spin-off, Better Call Saul, só para ver se funcionaria independentemente.

E já no começo da primeira temporada descobri que sim.

Agora, se tudo que foi demonstrado até a conclusão da terceira e mais recente temporada for algum indício, cada vez aumenta mais a sensação de que todo mundo com quem converso está certo e estou perdendo uma das melhores séries de todos os tempos ao evitar Breaking Bad. Porque Better Call Saul, um "mero derivado", já é uma das melhores séries de todos os tempos.


Como escrevi após o quinto episódio ainda da primeira temporada, "o grande trunfo aqui é o desenvolvimento de um personagem agridoce, ambíguo e divertido. Um advogado inteligente, mas que não deixa de fazer bobagens homéricas e que mesmo arquitetando golpes e trambiques ainda tem um senso moral nato, tentando racionalizar seus atos para se convencer de que faz a coisa certa."

Porém, não é só Bob Odenkirk quem brilha como o personagem-título (ou quase lá). Todo o elenco coadjuvante  merece aplausos e, sem entregar muito, os roteiristas dão aos seus personagens dimensões substanciais e verossímeis. De Mike, Kim e Chuck, passando por Howard e Francesca, até Nacho, Hector e Gus, todos protagonizam momentos tensos, engraçados, sensíveis e memoráveis dignos de protagonistas. E os personagens que são recorrentes de Breaking Bad quando roubam a cena não o fazem por serem rostos conhecidos (pois pra mim não são), mas sim por estarem servindo a um enredo engenhoso que se dá o tempo necessário para ser bem desenvolvido. Isso tudo confeccionado com uma fotografia belíssima, uma edição habilidosa e direção(ões) de altíssimo nível. É também notável como que é entregue um conteúdo maduro de qualidade, sem a necessidade de se recorrer a palavrões, nudez, sexo ou violência explícita.

A verdade é que Better Call Saul  me deixa num conflito entre perseverar ou abandonar o experimento social-artístico. O que será que Jimmy McGill aconselharia?


Better Call Saul (3a. temporada), 2017




terça-feira, 8 de agosto de 2017

Só com favas e um bom Chianti


Não que isso faça diferença alguma para ele -ou para o mundo- e nem que isso diminua seu magnífico trabalho, mas... não sei mais o que pensar de Sir. Anthony Hopkins.


Alguns trechos da entrevista que concedeu à revista Preview de Julho/17 (Ed. 94) em ocasião do lançamento do seu filme mais recente... ehrrr... Transformers: O Último Cavaleiro:

(...)

O que o senhor gosta neste filme e nesta franquia?
Eu só gosto de trabalhar. É isso.

Mas esse é o tipo de produção que o atrai?
Não, é apenas um filme bom e divertido que resolvi fazer.

(...)

Acha que tem algum filme que todos deveriam ver?
Oh, Deus, eu não sei. Eu não sei. Eu não tenho nenhum interesse neles, realmente.

O senhor assiste a filmes frequentemente ou séries de TV?
Não.

Mas assiste aos filmes e seriados em que trabalha?
Não. Se eu fiz, está feito e acabou.

Gosta de ir ao cinema?
Não. Só assisto na televisão a clássicos e filmes antigos.

Quem foi o melhor diretor com quem trabalhou?
Acho que Michael Bay é um dos melhores junto com Spielberg e Oliver Stone.

(...)

Ele tem 80 anos de idade, 50 de carreira. Quem sou eu pra pensar qualquer coisa...

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Wolverine cansado (e cansativo)


Quase não assisti a Logan.

Após o fraco X-Men: O Confronto Final ainda arrisquei o péssimo X-Men Origens: Wolverine antes de abandonar os heróis mutantes. Mesmo com as boas recomendações de Primeira Classe e Dias de um Futuro Esquecido, não animei de retomar a franquia. Então surgiu a aclamação de público e crítica a Logan e ficou a sensação de que eu poderia estar perdendo algo especial.

Por ser em teoria um filme solo que não dependia diretamente dos que vieram antes, resolvi assistir. E descobri que não estava perdendo nada especial.


A exemplo do recente e também superestimado Deadpool, a comoção e a expectativa em torno de Logan pareciam se sustentar no fato de que a dobradinha Fox-Marvel estava lançando (mais) um filme de super-herói direcionado para adultos. O problema é que o filme parece fazer questão de usar isso como ferramenta de promoção e não por demanda de desenvolvimento narrativo.  Abrindo de cara com um Wolverine exclamando "f**k" e tendo uma cena em que uma moça gratuitamente mostra seus seios para o herói, o longa parece um amontoado de artifícios para gritar "vejam como sou um filme diferente!".

Se a surpresa da violência exacerbada por um momento traz um senso de "tudo pode acontecer", rapidamente ela se torna previsível virando um "tudo vai acontecer". E a produção se transforma em um exercício de paciência, uma espera pelo esperado.

Hugh Jackman e Patrick Stewart, que não contribuíram com suas declarações de antes do lançamento do filme sobre seus envolvimentos futuros com a franquia, até fazem um bom trabalho,  juntamente com a surpreendente novata Dafne Keen. O diretor James Mangold acerta no clima de faroeste, mas erra ao escancarar suas influências com uma cena em que personagens assistem a Os Brutos Também Amam, que acaba sendo referenciado mais para o final, com pouquíssimo efeito dramático.

Logan poderia até ter sido um filme melhor, se não ficasse ocupado em pontuar que possui crianças assassinas e que Wolverine fala, sim, palavrões e tem o costume de repetidamente usar suas garras para atravessar os crânios dos vilões. De certa forma é um alívio que o filme ganhe classificação de censura como inadequado para menores, não somente pelos motivos óbvios, mas principalmente por seu cenário soturno, onde os X-Men estão mortos (aparentemente por decorrência de uma doença mental do próprio Professor X) e os heróis remanescentes estão decadentes e sequer conseguem salvar e se importar com uma família que os acolhe.

No mundo atual, já suficientemente amargurado, não é nada disso que queremos de um filme de herói.


Logan (Logan),2017




sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sem escape


A vinheta que exalta as qualidades e faz a propaganda da única sala IMAX de BH termina com um aviso: “IMAX, não se contente com menos”. Para Dunkirk, o novo filme do diretor-roteirista Christopher Nolan, a afirmação é mais que verdadeira.

Desde a simples primeira cena, com soldados sob uma chuva de folhetos propagandistas, até às últimas e memoráveis imagens, absolutamente tudo no longa-metragem é magnífico de se ver (mesmo que os horrores da II Guerra estejam sendo retratados). A fotografia é simplesmente deslumbrante e a tela gigante coloca o espectador em uma experiência imersiva sem precedentes. A produção de som contribui fortemente e, também, desde o primeiro tiro a plateia já sente o desconforto da guerra, atenuado pela excelente e enervante trilha sonora de Hans Zimmer. Cansaço físico e a sensação de não ter visto um filme, mas sim ter sobrevivido a ele, podem ser reações comuns após o término da projeção.


Quem ficou imaginando “o que diabos Christopher Nolan tem para acrescentar em meio a tantos filmes de II Guerra?” terá a resposta não somente no visual arrebatador, mas também em outra característica do cineasta: a estrutura narrativa não-linear. Três pontos de vista de um mesmo episódio histórico são contados em três passagens de tempo distintas, que acabam se interpondo. Mas, esta edição que é um dos charmes da produção pode também deixar parte dos espectadores um pouco confusos.

É um dos riscos que Nolan assume, em favor de criar praticamente uma sensação em vez de mais uma história básica de batalha campal. Aliás, pode ser apontado que há pouca história no filme e, de fato, o mesmo parece uma longa cena esticada para esmiuçar todos os seus detalhes. O que não o torna menos profundo.

A emoção está à flor da pele e mesmo com poucos diálogos e sem exposição dá para acompanhar e entender as ações e motivações dos personagens. É verdade que leva um tempo para que seja criada uma conexão afetiva com os mesmos, e provavelmente não será possível lembrar seus nomes terminada a sessão, mas no final fica uma ponta de honra de ter lutado junto com eles.

Não que o filme levante a bandeira pró-guerra. O peso da perda é grande, ainda que não haja sanguinolência e desmembramentos como em outras produções. É com sutilezas em determinadas cenas e com grandiosidade hollywoodiana em outras (há tempos que não se empregava 6.000 figurantes como aqui) que Nolan pondera sobre a quantidade de pessoas que não voltam da guerra e pontua que não há covardia nem falta de patriotismo nos que querem fugir da mesma.

Dunkirk já é um novo clássico. E merece ...não... precisa ser visto no cinema, em IMAX. Não tem como se contentar com menos.


Dunkirk (Dunkirk), 2017




quinta-feira, 27 de julho de 2017

Ali, hein?!


Por um período o diretor Ridley Scott esteve desenvolvendo uma continuação da sua ficção-científica de 2012, Prometheus. Tendo abominado este primeiro filme, fiquei torcendo para que o cineasta abandonasse a ideia e fosse usar seu talento em outras empreitadas. Porém, quando Prometheus 2 virou Alien: Covenant, a coisa mudou de figura. Uma simples troca de título me fez acreditar que haveria uma ‘mudança de espírito’ e meu interesse pelo filme foi de nulo a moderadamente alto. Algo me dizia que Scott poderia voltar às origens do terror da sua obra-prima, Alien - O Oitavo Passageiro, ou até mesmo investir na ação, ponto forte do excelente Aliens - O Resgate, de James Cameron.

E, de fato, Covenant funciona justamente quando emula o original de 1979 e a continuação de 1986. O terror sanguinolento ainda impressiona, mesmo que não haja o mesmo suspense intrínseco à novidade e à surpresa, e a ação empolga, mesmo que seja carregada de computação gráfica e não tenha o mesmo senso de realismo que os efeitos visuais práticos proporcionavam.


Da mesma forma, o longa também é mais fraco quando evoca Prometheus. O alento é que parece que Scott aprendeu a lição e tenta não se prender em responder a todas as perguntas do filme anterior, apenas passa pelas mais necessárias e essenciais para dar sequência à história. Satisfatório para quem é fã das raízes da franquia Alien, decepcionante para os (poucos) que gostaram de Prometheus.

Para não ser totalmente injusto com o filme anterior, vale dizer que vem de herança dele o que tem de melhor neste novo filme: Michael Fassbender, revivendo o robô David (que está ainda mais complexo) e encarnando outro robô, Walter, fisicamente idêntico, mas diferente em vários outros aspectos. Vê-lo(s) em cena é um prazer à parte.

A nova heroína tem a ingrata missão de sair da sombra da Ellen Ripley de Sigourney Weaver. E não obtém sucesso, apesar da boa atuação de Katherine Waterston. O potencial de engajar discussões relevantes que poderiam orbitar o personagem de Billy Crudup é totalmente desperdiçado em um roteiro que se limita a anunciá-lo como "o homem de fé". Não é mistério que o tema principal de Covenant é a relação criador/ criatura, o 'brincar de Deus'.

Ao mesmo tempo em que fica uma curiosidade sobre como tudo isso vai se conectar com a tripulação da Nostromo, resta também a sensação de que gradativamente o charme do Oitavo Passageiro está se perdendo. Algo bem parecido como ver que Darth Vader foi um menino bobinho e um adolescente chatinho antes de sair tocando terror na galáxia.


Alien: Covenant (Alien: Covenant), 2017




terça-feira, 25 de julho de 2017

Começo enrolado


Depois que provou-se lucrativa a moda da Marvel de “universo cinematográfico” (uma série de filmes com algum nível de conexão – seja por repetição de personagens, por entrelaçamento de histórias ou um pouco de ambos), veio a enxurrada. A rival DC Comics, por exemplo, criou o DCEU (DC Extended Universe, com Superman, Batman, Mulher Maravilha e cia.) e a Warner estabeleceu o MonsterVerse (que conta com Godzilla, King Kong e outros monstros gigantescos). Pretendendo revisitar figuras do terror clássico, como Drácula, Lobisomem, A Criatura do Lago Negro e o Fantasma da Ópera, a Universal decidiu lançar o que intitulou de Dark Universe.

E A Múmia é o ponto de partida. Além da personagem-título óbvia, o filme traz também Russel Crowe como Dr. Jekyll (e Sr. Hyde), o chefão de uma espécie de agência especializada em caçar criaturas, já consolidando para este universo mais um nome conhecido.


O problema é que o roteiro pena para criar uma identidade para o astro Tom Cruise.  O tal Nick Morton concebido para ele não consegue marcar nem despertar interesse similar aos dos personagens já populares e seu arco termina com um começo pouco animador para a franquia. Sem entrar no território de spoiler, basta dizer que o “poder” de seu personagem é a pior coisa que pode existir para o desenvolvimento dramático de qualquer história.

Jogada para escanteio frente à necessidade de se explorar a presença de Cruise, a múmia não bota medo e a produção não funciona como filme de terror. Existem sequências de ação realmente boas, sendo o ápice a cena da queda do avião, e há uma investida grande no humor que, embora funcione boa parte das vezes, está longe de alcançar o nível de diversão genuína atingido em A Múmia com Brandon Fraser 18 anos atrás.

Por respeito ao potencial dos personagens clássicos, e do elenco já anunciado até agora (Johnny Depp como O Homem Invisível e Javier Bardem como Frankenstein), o interesse pelo Dark Universe se mantém vivo. Mas, se dependesse somente desta porta de entrada, ele já estaria todo enrolado de esparadrapo fechado em uma catacumba a metros debaixo da areia.


A Múmia (The Mummy), 2017