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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cinco voltaram, mudados


A escalação é de endoidar qualquer cinéfilo.

De um "lado", cinco grandes diretores clássicos: John Ford (No Tempo das Diligências, Vinhas da Ira, Rastros de Ódio); William Wyler (Os Melhores Anos de Nossas Vidas, A Princesa e o Plebeu, Ben-Hur);  John Huston (O Falcão Maltês, O Tesouro da Sierra Madre, Moby Dick); Frank Capra (Aconteceu Naquela Noite, A Mulher Faz o Homem, A Felicidade Não Se Compra); e George Stevens (Os Brutos Também Amam, Assim Caminha a Humanidade, O Diário de Anne Frank).

De outro, cinco renomados cineastas da atualidade: Paul Greengrass (O Ultimato Bourne, A Supremacia Bourne); Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno, Círculo de Fogo); Lawrence Kasdan (roteirista de O Império Contra-Ataca, Caçadores da Arca Perdida); Francis Ford Coppola (trilogia O Poderoso Chefão, Apocalypse Now); e Steven Spielberg (sério, precisa??).


A minissérie documental da Netflix, Five Came Back, traz Spielberg & cia dando seus depoimentos sobre as obras e feitos de Ford & cia, da época em que essas cinco figuras então já respeitadas em Hollywood se alistaram para participar e registrar de perto a II Guerra Mundial. Um alinhamento astral em torno de um tema ainda rico em histórias e que tem como cereja no topo do bolo Meryl Streep como narradora, que (claro, né?) ganhou um Emmy de Melhor Narração este ano por este trabalho.

Desde a sequência de abertura, que não deve nada às demais séries de ficção de hoje em dia e conta com um tema musical emblemático de Thomas Newman, é possível perceber que houve o devido investimento e o devido cuidado que o material merecia. É visível a paixão, mesmo que existam desapontamentos, nas falas dos cineastas atuais para com seus antecessores, em uma mesma proporção com que havia paixão e desapontamentos daqueles para com Hollywood e a guerra em si.

Utilizando bastantes imagens de bastidores e cenas dos próprios documentários produzidos à época pelos cineastas (muitos deles também disponíveis atualmente na Netflix), Five Came Back é, em mesma escala, um presente tanto para amantes dos cinema, quanto para interessados pela história da II Guerra. É possível que os menos interessados em um dos dois temas se sinta um pouco perdido no 'quem era quem' de Hollywood ou na relevância do contexto da II Guerra em cada situação, mas mesmo assim a série consegue ser acessível, sem ser didática.

Após três envolventes capítulos, com toda glamourização e todos horrores que uma guerra pode trazer, o espectador termina com uma visão mais clara sobre a influência do cinema na II Guerra e a influência da II Guerra no cinema.


Five Came Back (Netflix), 2017




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Maravilha, DC


Em um filme que nem era dela, Batman V Superman: A Origem da Justiça, ela já se destacou. Como contraponto ao Superman amargurado, que desde Homem de Aço parece pouco se importar com os homens, a Mulher Maravilha dessa geração surge muito parecida com o Superman do Christopher Reeve: idealista, por vezes inocente e, principalmente, uma heroína nata, convicta na missão de salvar a humanidade, mesmo que ela não mereça.

Em seu longa-metragem solo, a personagem Diana (que curiosamente nunca é referida como Mulher Maravilha) é sustentada pelo carisma, pela confiança e, claro, pela beleza de Gal Gadot. Seu companheiro em tela, Chris Pine, traz charme e bom-mocismo na medida certa, e a química perfeita entre os dois rende momentos divertidos e tenros. A produção transpira empoderamento feminino e a diretora Patty Jenkins conduz cenas de ação memoráveis de tirar o fôlego.


Os problemas estão no roteiro, escrito por homens, óbvio.

A dinâmica do envelhecimento da heroína não fica clara. Ela para de envelhecer em certa idade? Ou ela envelhece muuuuuuito devagar e foram séculos que se passaram em Themyscira? E qual o motivo daquele mistério em torno das origens de Diana? Por que sua mãe não conta a verdade logo quando a filha vai embarcar em uma jornada "talvez sem volta"? Ela espera que o vilão explique tudo para Diana no momento de maior perigo de sua vida??

A própria reviravolta em torno do vilão não é nada surpreendente e se desenrola em meio a vários clichês do gênero. Aliás (SPOILERS a seguir), teria sido muito mais interessante se Ares não fosse uma só pessoa, mas várias, ou melhor ainda, uma espécie de entidade não física, uma manifestação coletiva, difícil de se combater - o que justificaria a eterna luta da Mulher Maravilha na terra dos homens. Afinal, onde ela estava durante a II Guerra Mundial? Tirando poeira de múmia no Louvre enquanto esperava ser chamada para Liga da Justiça nos anos 2010?? (E, pior, onde estava o Deus da Guerra??)

Mas, francamente, pouco importa... Só o fato do universo da DC nos cinemas ter finalmente entregue um filme com genuíno espírito de super-herói já ameniza os erros dos homens.


Mulher-Maravilha (Wonder Woman), 2017





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ainda a melhor do Brasil


Gilberto Gil
Ricky Martin
João Bosco
Raimundos
Eduardo Dussek
Rita Pavone
Genival Lacerda
The Police
Rita Lee
The B-52’s
Jane e Herondy

Um junta-junta bizarro?

Não, eclético: segundo volume do projeto mais inusitado da melhor (e invariavelmente criativa) banda do país.


Chegou Música de Brinquedo 2!

Pato Fu 25 anos.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Na lista negra


A premissa de Death Note é instigante: e se um ser humano ficasse de posse do caderno de uma entidade da Morte, no qual as pessoas cujos nomes fossem escritos em suas páginas seriam mortas? Porém, o que poderia ser uma engajada e sombria discussão sobre moral e poder, na verdade é um filme policial bobinho com toques de terror. Não li nem assisti aos cultuados mangás/ animes/ filmes japoneses que precederam esta adaptação americana bancada pela Netflix, mas consigo pressentir que os fãs dos originais devem estar decepcionados.

O filme passa correndo por seus temas, apresentando mortes gráficas (que parecem saídas diretamente da franquia Premonição), até uma correria literal – uma perseguição a pé no terceiro ato que logo se torna repetitiva e que culmina em um diálogo que só serve para “entregar” o protagonista no desfecho da história. Muita coisa parece cair do céu, como o próprio caderno da morte, e fica a nítida impressão de que o roteiro não soube alocar no tempo restrito de um longa-metragem tudo o que queria trazer à mesa.


Qual é a de Ryuk e as maçãs? Qual é a de L e os doces? Qual é a de Watari e o papo do sono? Qual é a da antiga sociedade secreta que transformava órfãos em ultrasherlockholmeses modernos? As ações de Kira, que deveriam dar o devido peso à história, são resumidas em uma montagem que não deixa transparecer seu escopo nem a passagem de tempo. As próprias regras de uso do caderno (e parece haver dezenas delas)  vão surgindo e sendo pinceladas por conveniência.

O ator principal, que prova ser fraco desde seus primeiros gritos histéricos forçados após encontrar com Ryuk (este com aspecto realmente assustador e bom trabalho de voz de William Dafoe), não traz credibilidade nem ao romance central, reforçado pela falta de química com a parceira de cena. Ambos protagonizam uma das trocas de “eu te amo” mais chochas da história do cinem... ehrrr... das produções originais de provedores de streaming.

O diretor Adam Wingard até emprega um estilo interessante e acerta em várias composições visuais, mas não consegue ajustar o tom de sua obra. Um reflexo disto é a incompreensível inclusão de imagens de bastidores nos créditos finais. Como em uma comédia, ali também estão pequenos erros de gravação. Isso porque os maiores erros de gravação já vinham sendo apresentados ao longo dos 100 minutos anteriores.


Death Note (Death Note), 2017




sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Volume 2 do Vol. 2


Mais de uma pessoa (e duas já são muito aqui pra este blog, rsrs) me questionaram porque eu praticamente só escrevi coisa boa sobre Guardiões da Galáxia Vol. 2, mas dei "apenas" 3,5 como nota. Bom, antes de mais nada, esclareço que 3,5 já é mais que "bom". Agora, o lance é que os pontos negativos estavam basicamente inseridos em contexto de spoilers e eu tento evita-los ao escrever.

Mas, já que insistem, vamos lá...

(A partir de agora, alerta: SPOILERS para o filme)


O primeiro ponto que me incomodou foi influenciado por uma questão pessoal, de momento. Sei que não é profissional deixar situações externas alterarem a percepção e, ultimamente, a análise da obra, mas... eu não sou profissional do assunto. Rsrsrs.

Eu já tinha exposto no post original que o drama do filme se baseava "principalmente em defender que pais são péssimos". Eu assisti ao filme poucos dias após o dia dos pais, em uma semana em que eu estava longe dos meus filhos, a trabalho. Guardiões 2 tem (ou menciona) apenas dois pais -Ego e Thanos- e ambos são simplesmente os piores pais do mundo. Da galáxia, quer dizer. Não funcionou pra mim. Pais e filhos por aí mereciam um pouquinho mais.

Os outros pontos giram em torno do vilão Ego.

Para começar, ele surge em um momento muito oportuno, como uma demanda de roteiro e não algo lógico na trama. Por que ele não surgiu no momento crítico ao final do Guardiões "Vol.1", por exemplo? (A resposta é porque Kurt Russel não estava contratado e nem sabiam que o filme ia fazer sucesso e ter uma continuação).

Ele se diz uma Divindade (ou algo assim) e estava procurando por Peter Quill há muito tempo. Esse cara ia sofrer com Onde Está Wally?. No Guardiões "Vol.1", o Senhor das Estrelas era mega-conhecido e procurado, até deu entrada oficial em presídio intergaláctico e tudo mais.

Toda aquela cena de Ego explicando o passado para Peter através de uma espécie de museu de cera animado é bem ruim. Desnecessariamente expositiva e sem sentido dentro da realidade da história. E o fato de ele ter causado a morte da mãe de Peter, e como causou, não foi um artifício de bom gosto para "vilanizá-lo" .

Por fim, a sequência final do filme expõe claramente como que os realizadores não estavam preparados para lidar com o escopo que prepararam: o indivíduo É o planeta em que os personagens estão e, só para citar um exemplo, precisa de criar tentáculos para lutar contra eles??

Taí. 3,5 padecinhos tá justo, sim.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

É melhor guardar do que vingar


A cena de abertura de Guardiões da Galáxia, com o protagonista em uma missão num planeta desconhecido dançando ao som dos anos 80, servia para já avisar: mesmo sob a marca da Marvel, aquele era um filme com espírito e estilo bem diferentes dos filmes de heróis até então. Grata surpresa, na verdade nem era um filme de super-heróis: estava muito mais para uma aventura espacial recheada de humor. Mesmo tendo se passado só três anos de lá pra cá, quem o assistiu só uma vez pode simplesmente ter se esquecido do clima diferenciado criado pelo diretor-roteirista James Gunn. Mas, Guardiões da Galáxia Vol. 2 apresenta, novamente, uma abertura que já joga o espectador na sintonia correta.


A sequência dos créditos iniciais desta continuação, que também traz um protagonista dançando ao som dos anos 80 durante uma missão num planeta desconhecido, é tão inventiva, divertida e cativante que chega a deixar a plateia até preocupada com o restante do filme – não tem como manter este ritmo e ser tão bom assim por mais duas horas. Mas, Guardiões 2 não deixa cair o nível da ação e da descontração durante toda sua duração. É impossível não gargalhar várias vezes, sozinho ou junto com Drax.

A produção também consegue investir no drama, proporcionando uma faceta emocional inesperada e bem-vinda, mesmo que se baseie principalmente em defender que pais são péssimos e que é melhor fazer dos amigos a família. Causa estranheza também que a dose de violência esteja um pouco acima dos padrões Disney-Marvel e, talvez, no limite da indicação etária. A recompensa é que as cenas mais intensas são criadas com imagens “quadrinhescas” com uma estética de se admirar.

O ponto extra para Guardiões é ter se sustentando até aqui sem as muletas do Universo Cinematográfico da Marvel. Há espaço (sideral) de sobra (e as várias pequenas pontas abertas no final são indícios disto) para que seus personagens principais e secundários continuem sendo desenvolvidos sem a necessidade de participações de Homem de Ferro & cia. Fica a torcida para que a confirmação da presença de Peter Quill e sua gangue no próximo filme dos Vingadores não force atos recíprocos para Guardiões Vol. 3.


Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy, Vol. 2)




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Avalanchezinha


Se não fosse pelo burburinho que causou no festival de Sundance, talvez Operação Avalanche não teria entrado no meu radar. Se não fosse pelo tema, a suposta encenação em estúdio da chegada do homem à Lua, talvez eu não o teria assistido. E talvez teria sido melhor assim.

O primeiro problema desta produção independente é o estilo: câmera na mão. Ainda não consigo deixar de ficar (mesmo que ligeiramente) nauseado com este desnecessário formato. Neste caso, ele poderia até ser justificável já que o filme se posa como um documentário perdido da época do programa Apollo. Mas, como todos sabem que ele é falso, filmá-lo assim pouco contribui e só faz evidenciar de que trata-se de um filme barato (sem conotações pejorativas). Sua artificialidade se dá não somente por ser notório que os atores são contemporâneos nossos, mas também porque já está muito fora de moda duvidar de que o homem foi à Lua. (Se ainda há algum pingo de vontade de abraçar teorias da conspiração, recomendo o curto e ótimo episódio 199 do Nerdologia no YouTube).


Falando em atores, eles são a raiz do segundo problema. Matt Johnson pode ser um bom diretor, mas como ator é só irritante. Os protagonistas eram para ser uma dupla de agentes da CIA infiltrados na NASA se passando por estudantes de cinema. Mas, mesmo fora do disfarce eles parecem o tempo todo ser o que são na vida real: estudantes de cinema. Ninguém ali convence e a jornada parece existir só para se apreciar um bom trabalho amador. Se os realizadores fossem da família, ou amigos íntimos, seria uma experiência excelente, mas a obra exposta para o mundo pouco tem a agregar.

Apesar do roteiro fraco, que para um pseudo-documentário traz pouca lógica e coerência, há o que se apreciar no filme, especialmente nas passagens envolvendo o cineasta Stanley Kubrick à la Forrest Gump. Mas, no fim das contas é somente mesmo uma ótima ideia executada com boas intenções. E sabe o que dizem por aí sobre boas intenções, né?


Operação Avalanche (Operation Avalanche), 2016