Pesquisar neste blog:

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Uma noite na ópera e um dia na corrida



"Is this the real life? Is this just fantasy?" Parece até proposital que tenha sido escolhida a canção que se inicia com estes dizeres para dar título ao filme sobre o grupo britânico Queen. Por um lado, tem-se a atuação incrível de Rami Malek como Freddie Mercury, carregando a produção nas costas e ofuscando boas atuações de coadjuvantes (que parecem escolhidos a dedo pelas semelhanças físicas com seus personagens), e recriações meticulosas de eventos reais, com destaque para a eletrizante apresentação do quarteto no Live Aid. Por outro lado, tem-se anacronismos, desvios, omissões ou reinvenções de fatos e a suavização de elementos da vida pessoal de Mercury. Mas, os que criticam precisam entender que cinema não é aula de história e cinebiografias não são documentários. O roteiro é, de fato, esquemático e acrescenta pouco ao gênero e aos mais fanáticos com a banda, mas o filme se move com o poder de músicas emblemáticas e torna a história de um artista, e sua arte, acessível a uma gama muito maior de pessoas. "Anyway the wind blows..."

Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody), 2018




De forma recorrente durante seu primeiro longa-metragem, os integrantes dos Jovens Titãs ouvem "Vocês são uma piada!". E são mesmo. E isso é ótimo. Com referências incessantes à Warner, à DC, à concorrente Marvel (com direito a uma ponta surpreendente do, agora saudoso, Stan Lee)  e a outros ícones do universo pop-geek, a animação provê diversão pura simplesmente ao não se levar a sério. Bem como Os Simpsons: O Filme, não consegue deixar de parecer um episódio esticado para ser configurado como 'cinema', mas sem demérito algum. Pouco mais de um ano depois de LEGO Batman: O Filme, a DC conseguiu lançar sua segunda melhor produção em que reúne Batman com Superman. Nesse ritmo, o DCU se tornará descartável.

Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas (Teen Titans Go! To the Movies), 2018


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O terror, o terror, o terror...


Pra ir entrando no clima do Halloween...



"Se pelo menos servisse para nos unir mais" diz, em determinado momento de Hereditário, a desamparada personagem de Toni Collete na busca de um propósito face à gratuidade de uma tragédia que aplaca sua família. Porém, ela está diante da realidade amarga de que não há nada a mais, não há um bem maior e, infelizmente, esse é também o mote do filme como um todo. Na contramão das melhores produções de terror, cujos desfechos são recompensatórios ou cujas jornadas funcionam bem como metáforas, não há nada substancial de se tirar do enredo. Aterrorizante e perturbador, prefere chocar a assustar. Não recomendado para pais e mães. 

Hereditário (Hereditary), 2018






“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido.”  É com essa citação a H.P. Lovecraft que a produção independente O Culto abre e se sustenta. O clima é de constante apreensão, mas à medida que a trama faz a esperada transição de paranoia para sobrenatural, passa a perder viés de terror e vai mergulhando em ficção científica pesada. Interessante, mas aquém de outras produções de baixo orçamento, como o mais complexo Coherence, o mais acessível Complicações do Amor e o mais bem amarrado Crimes Temporais.

O Culto (The Endless), 2018






"O cérebro enxerga o que quer enxergar" é uma frase recorrente de Ghost Stories, um filme de fantasma tradicional que se faz valer também do humor (negro) britânico. Contando com pelo menos dois atores de destaque, Martin Freeman (o Dr. Watson de Sherlock) e Alex Lawther (de um dos episódios mais intrigantes -e deprimentes- de Black Mirror), a principal aposta é em sustos, muitos deles clichês, mas praticamente todos eficazes. O problema é que o roteiro se acha mais inteligente do que é e tira da manga um desfecho certo de que o público demandará mais uma assistida para pegar as pistas. Só que a conclusão não passa de anticlimática e batida (praticamente igual à de determinada produção de 2005).

Ghost Stories (Ghost Stories), 2018




sábado, 8 de setembro de 2018

Colhendo


Fim de almoço, TV ligada no 'Terras de Minas'. De repente, me dou conta que mudou para 'Só Toca Top'. Começa a tocar Harmonia do Samba e meu filho (agora com 7 anos) de olho.

- Tá na hora de trocar de canal, hein?!

- Mas, pai, vai ter Beatles no Só Toca Top!

- Não, filho, não vai.

- Vai! Eu vi um cara dos Beatles.

- Não, filho, não viu.

- Vi, sim. Um cara dos Beatles com violão.

- Não era um cara dos Beatles.

- Era, sim! Eu vi.

- Menino, era outra coisa, mas não Beatles!

- Era. Dos Beatles. Com violão.

- Não, não era!

- Eu vi e ponto final.
(pronto, não há mais como conter a irritação)

- Olha, um cara dos Beatles NÃO vai no Só Toca Top!

- Vaaaai.

- Não vai, não!
(ele aponta pro cara do Harmonia do Samba:)

- Eu vi esse cara aí antes e ele tá tocando agora, então o cara dos Beatles vai tocar também.

- Olha, se tiver um cara dos Beatles no Só Toca Top, você pode me chamar de Priscilla!!!
(3 segundos de silêncio, meu filho processando a informação)

- Ei Priscilla...

- Ou! Não!!! Não pode!

- Uai, pode! Eu vi um cara dos Beatles com violão no Só Toca Top.

- Não! É a partir de agora!

- É a partir de agora que eu tenho que te chamar de Priscilla?

- Não! Arrgh. É a partir de agora que tem que aparecer um cara dos Beatles pra você poder me chamar de Priscilla!
(silêncio permanece até o fim do Harmonia do Samba)

- Pai... do que é pra eu te chamar mesmo?

- De nada, menino!

- Não, se aparecer um cara dos Beatles, do que é pra eu te chamar?

- De nada! Você pode prestar atenção aí nessa porcaria de programa, que NÃO VAI tocar um cara dos Beatles.

- É de Priscilla, né?

- ...

- Mãe... me mostra uma foto dos quatro Beatles?


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

is ação

Na última postagem escrevi que "os 14 anos de evolução nas técnicas de animação" (...que separam o primeiro filme deste...) "se fazem presentes em tela e Os Incríveis 2 proporciona cenas inventivas e inspiradas que se destacam mesmo depois da Marvelização do cinema neste meio tempo".

Por algum motivo, o termo 'marvelização' soou negativo e pareceu pejorativo. Não é essa a intenção.

O primeiro Os Incríveis surgiu em uma era pré-Universo Cinematográfico da Marvel e, pra citar outro exemplo, pré-Trilogia Cavaleiro das Trevas. Mesmo com uns dois X-Men e uns dois Homens-Aranhas (espero ter acertado o plural) no mercado, ainda havia um certo ceticismo (quiçá preconceito) em torno do subgênero de super-heróis. Além disso, seja por restrições orçamentárias ou técnicas (ou ambas), as produções passavam bastante tempo com os heróis sem máscara e fora de cenas de ação. Para Os Incríveis, a Pixar usou seu DNA cativante e concebeu um filme de super-herói como realmente um filme de super-herói deveria ser: emocionante, empolgante e espetacular.


Quatro anos depois, partindo da cena pós-créditos de Homem de Ferro, a Marvel deu o pontapé inicial do seu Universo Cinematográfico e, com todo o mérito, sacudiu o subgênero. O feito de Os Incríveis (uma animação) passou a parecer algo corriqueiro, pois todo filme de super-herói (com atores de carne-e-osso) se tornara emocionante, empolgante e espetacular.  E o balizamento por estes novos patamares de qualidade em ação e entretenimento neste tipo de filme é o que chamo de 'marvelização'. Algo difícil de se superar, ou até mesmo de se manter.

A própria Marvel, em seus dez anos de MCU com 19 filmes lançados, nem sempre se superou em termos de inventividade e inspiração. Não há como negar que raramente criou algo tedioso ou mal feito, mas, cenas realmente memoráveis dentre tantas tão bem elaboradas, também é difícil de se elencar. Destaques existem, como a imbatível sequência de Doutor Estranho que se desenrola em duas orientações temporais, mas a cada filme lançado, mais alto ficou o padrão e maior passou a ser o desafio para a produção seguinte.

É nesse sentido que "Os Incríveis 2 proporciona cenas inventivas e inspiradas que se destacam mesmo depois da Marvelização do cinema". Partindo de um nível já alto, a animação traz sequências que ainda parecem novas, como a da perseguição da Mulher Elástica usando uma moto bipartida, as cenas com as mudanças ininterruptas de poder de Zezé e, principalmente, as com as intervenções da nova personagem, Voyd, e seus portais. Vários acenos de genialidade, mesmo que advindos de um roteiro longe de perfeito.

E a resposta à (ou evolução da) Marvelização pode ser a, nada fácil,  Incrivelização do cinema.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

O mundo (jurássico) gira e o que foi incrível nunca deixa de ser



Depois de uma boa sacudida na franquia, o mundo jurássico volta às telas dependendo novamente do carisma de Chris Pratt e do fascínio do imaginário popular pelas criaturas (ops, agora "animais", não "criaturas"). E se o frescor de ideias já está quase extinto, pelo menos o diretor espanhol J.A. Bayona deixa sua marca e garante sequências de ação empolgantes e, por vezes, verdadeiramente assustadoras, como não se via há 25 anos, desde o Jurassic Park original. O roteiro, na busca (desesperada?) por escavações mais profundas, se aventura em uma temática de ficção científica ainda inexplorada na série e abre novas possibilidades para a terceira parte desta nova trilogia, prevista para 2021.

Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom), 2018





A temporada de férias da criançada é recheada de continuações, mas talvez a mais aguardada (pelos velhotes inclusive) tenha sido a do Sr. Incrível e sua família. E a longa espera valeu à pena, pois os 14 anos de evolução nas técnicas de animação se fazem presentes em tela e Os Incríveis 2 proporciona cenas inventivas e inspiradas que se destacam mesmo depois da Marvelização do cinema neste meio tempo. Claro que a trama de 'cuidado ao confiar no milionário que ofereceu um emprego' com 'precisamos aprender a combater como um família' é extremamente similar à do primeiro e a parcela de 'o homem tem que aprender a cuidar da casa, enquanto a mulher sai para ganhar o sustento do lar' é datada. Mas, a aventura, o humor e, como não podia deixar de ser, Zezé garantem uma diversão daquelas.

Os Incríveis 2 (The Incredibles 2), 2018




quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Uma história que não ficou na história e uma história que não foi da história



Uma produção que dificilmente entraria no meu radar, não fosse a temporada de premiações é Eu, Tonya. Uma grata surpresa, o filme faz muito mais que uma cinebiografia padrão e impõe seu estilo para brincar com o que foi de fato verdade e o que pode não ter sido.  O maior exemplo é um personagem secundário, esquisito e sem noção beirando o caricato, cuja figura na vida real aparece nos créditos finais, em imagens documentais, se expressando da mesma forma surreal como foi interpretado. As atuações de Margot Robbie e Alisson Janney (que renderam respectiva e merecidamente uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz e uma estatueta de Atriz Coadjuvante) são memoráveis.

Eu, Tonya (I, Tonya), 2017






A Morte de Stalin é outro que, se não estivesse figurando nas principais listas dos melhores filmes do ano até o momento, dificilmente teria chamado minha atenção. Só que, embora tenha um elenco de peso e um roteiro repleto de boas sacadas e tiradas, esta sátira não decola. Por vezes arrastada, a comédia dramática não tem compromisso qualquer com a história e simplesmente não é tão engraçada quanto acha que é: menos Monty Python do que dizem por aí e mais Irmãos Coen do que deveria.

A Morte de Stalin (The Death of Stalin), 2018




terça-feira, 14 de agosto de 2018

Carrie perto do fim, Dolores sabe-se lá quando, Marty no começo

O que andou rolando na telinha...



Sempre se reinventado, a série consegue se manter relevante e tensa, sustentado-se principalmente em bons personagens, amparados por excelentes atuações e roteiros redondos, que entretêm ao mesmo tempo em que discutem temas atuais. Foi que escrevi sobre a sexta temporada de Homeland. E exatamente o mesmo pode ser escrito para a sétima. A diferença é que esta penúltima temporada termina com um tom sombrio e deixa uma enorme (e boa) interrogação sobre qual será o mote da conclusão da série em seu oitavo e derradeiro ano.

Homeland (7a. temporada), 2018





Reinvenção também é a palavra para Westworld, com uma segunda temporada que não é mais do mesmo - tanto em termos de estrutura quanto em termos de temas. Sem deixar de lado as viagens filosóficas (desta vez entrando em território mais Black Mirror), agora o avançar da trama e a expansão da mitologia se sobrepõem ao desenvolvimento de personagens. Tecnicamente, o drama da HBO continua primoroso, com uma belíssima fotografia, mas seu roteiro sofre para equilibrar diversas linhas temporais não lineares. A coisa acaba ficando especialmente confusa com o último episódio (potencializado pela cena pós-créditos) que ainda descarrega uma enxurrada de reviravoltas. Tanta reinvenção que fica incerto o rumo que a série poderá tomar (e até se fará sentido continuar com o mesmo título).

Westworld (2a. temporada), 2018





Com tanta TV de qualidade na atualidade, é difícil para uma série nova realmente se destacar. E Ozark quase consegue. Sombria, tensa, intrigante e com personagens interessantes em situações inesperadas, como tantas outras, a produção da Netflix tenta se diferenciar ao mirar o impactante, como tantas outras. Buscando conquistar com um tom realista, escorrega justamente por recorrer a tanto desdobramento inverossímil. E se a vertente dramática de Jason Bateman, tão conhecido por suas atuações em comédias, é o ponto alto, a direção de Jason Bateman é ponto baixo, com enquadramentos óbvios e escolhas narrativas corriqueiras.

Ozark (1a. temporada), 2017