Pesquisar neste blog:

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Noscardamus 2018


Prever os vencedores do Oscar este ano parecia que ia ser uma tarefá mais fácil. Mas, com as outras premiações em andamento e com a maior parte dos filmes entrando em cartaz, a coisa complicou um pouco. Se meu preferido, Dunkirk, certamente não vai levar Melhor Filme, ficou difícil escolher entre o que tem boa chance (e que gostei) e o mais provável (e que não gostei). No fim das contas, o "não gostar" pesou e aumentei o risco de errar a categoria pelo quarto ano consecutivo. Roteiro Original está com uma disputa muito acirrada (entre três, inclusive) e Filme Estrangeiro é uma verdadeira incógnita. Fotografia e Edição podem pregar peças também.


Sem mais delongas, em negrito, meus palpites sobre quem serão os premiados com Oscar.

FILME
A Forma da Água
Dunkirk
Lady Bird: É Hora de Voar
Corra!
The Post: A Guerra Secreta
Três Anúncios Para um Crime
Me Chame Pelo Seu Nome
Trama Fantasma
O Destino de uma Nação

DIRETOR
Christopher Nolan (Dunkirk)
Guillermo del Toro (A Forma da Água)
Greta Gerwig (Lady Bird)
Jordan Peele (Corra!)
Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)


ATOR
Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)
Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Daniel Kaluuya (Corra!)
Gary Oldman (O Destino de uma Nação)
Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq)

ATRIZ
Sally Hawkins (A Forma da Água)
Margot Robbie (Eu, Tonya)
Saoirse Ronan (Lady Bird)
Meryl Streep (The Post)
Frances McDormand (Três Anúncios Para um Crime)

ATOR COADJUVANTE
Willem Dafoe (Projeto Flórida)
Woody Harrelson (Três Anúncios Para um Crime)
Sam Rockwell (Três Anúncios Para um Crime)
Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)
Richard Jenkins (A Forma da Água)

ATRIZ COADJUVANTE
Mary J. Blige (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi)
Lesley Manville (Trama Fantasma)
Allison Janney (Eu, Tonya)
Laurie Metcalf (Lady Bird)
Octavia Spencer (A Forma da Água)

ROTEIRO ADAPTADO
Me Chame Pelo Seu Nome
Artista do Desastre
Logan
A Grande Jogada
Mudbound

ROTEIRO ORIGINAL
A Forma da Água
Lady Bird
Doentes de Amor
Três Anúncios Para um Crime
Corra!


ANIMAÇÃO
Viva – A Vida é uma Festa
Com Amor, Van Gogh
The Breadwinner
O Poderoso Chefinho
O Touro Ferdinando

FILME ESTRANGEIRO
Uma Mulher Fantástica (Chile)
O Insulto (Líbano)
Sem Amor (Rússia)
The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)
Corpo e Alma (Hungria)

FOTOGRAFIA
Blade Runner 2049
Dunkirk
O Destino de uma Nação
A Forma da Água
Mudbound

TRILHA SONORA
Star Wars - Os Últimos Jedi
Dunkirk
Trama Fantasma
A Forma da Água
Três Anúncios Para um Crime

CANÇÃO ORIGINAL
Mystery of Love (Me Chame Pelo Seu Nome)
Remember Me (Viva – A Vida é uma Festa)
This is Me (O Rei do Show)
Stand up for Something (Marshall)
Mighty River (Mudbound)


FIGURINO
A Bela e a Fera
Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha
Trama Fantasma
A Forma da Água
O Destino de uma Nação

DESIGN DE PRODUÇÃO
A Bela e a Fera
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
O Destino de uma Nação

MAQUIAGEM E PENTEADO
O Destino de uma Nação
Extraordinário
Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha

EFEITOS VISUAIS
Blade Runner 2049
Guardiões da Galáxia Vol. 2
Star Wars – Os Últimos Jedi
Planeta dos Macacos: A Guerra
Kong: A Ilha da Caveira


EDIÇÃO
Em Ritmo de Fuga
Dunkirk
Eu, Tonya
A Forma da Água
Três Anúncios Para um Crime

EDIÇÃO DE SOM
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi

MIXAGEM DE SOM
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi


Como tradição, costumo tirar dos meus palpites as categorias de Documentário e todas as três de Curta-Metragem.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Relembrar pra não repetir


Aproveitando que está chegando a grande noite do cinema, vou fazer um repost de um texto que escrevi para o portal de gestão de projetos PMKB pouco após o Oscar do ano passado...

"
Anatomia de um erro


Não houve destruição, danos materiais, feridos nem morte. Mas, em termos de imagem, reputação profissional e abalo emocional, o fiasco no anúncio do Melhor Filme no Oscar de 2017 foi uma verdadeira catástrofe. E, como toda catástrofe, não foi causada por um só erro, mas uma sucessão deles. O que resta é entender o que aconteceu e tirar lições importantes, para que não sejam repetidas. Mesmo quem nunca vai ter ocupação ou projeto relacionado com anúncio de vencedores tem o que refletir.


O cenário

Considerada a maior premiação mundial do cinema, a cerimônia de entrega do Oscar é um evento formador de opinião em diversas áreas e que já chegou a 55 milhões de espectadores nos EUA, atraindo outras centenas de milhões ao redor do mundo todo ano. Além de promover um aumento considerável das bilheterias dos vencedores, pode também nortear a empregabilidade de vários envolvidos na indústria cinematográfica, ditar moda e engajar discussões políticas. Os premiados são guardados com extremo sigilo nem tanto pela graça da surpresa do anúncio ao vivo, mas porque também movimentam o milionário mercado das casas de apostas tradicionais e de sites globais.


Como funciona

Os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (atualmente 6.687 profissionais do cinema entre atores, diretores, produtores, roteiristas, figurinistas, compositores, etc, que incluem brasileiros como Fernando Meirelles, Walter Salles e Fernanda Montenegro) votam para escolher os indicados em 24 categorias, dentre os filmes lançados no ano anterior que atendem às regras de elegibilidade da Academia. Após a divulgação dos concorrentes de cada categoria, inicia-se a votação que define o vencedor em cada uma delas. A festa de premiação é normalmente marcada para cerca de um mês após e os membros têm prazos determinados para submeter por correio os seus votos. A empresa de auditoria e consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC) é a responsável pela contabilização sigilosa dos votos - somente dois de seus membros se envolvem no processo e ficam sabendo o resultado, sob forte acordo de confidencialidade. Estes dois membros da PwC montam os envelopes com os cartões que apontam o vencedor de cada categoria. No cartão há o nome do vencedor e logo abaixo o filme pelo qual ganhou o prêmio. No rodapé, em letras pequenas, está escrito a categoria. No caso de Melhor Filme, a única diferença é que primeiro vem o nome do filme e logo abaixo o nome dos produtores do mesmo. São gerados dois envelopes para cada prêmio, sendo que cada um dos dois consultores fica com uma cópia durante a cerimônia. Nos bastidores da premiação, um consultor se posiciona à direita do palco e outro à esquerda, para atender aos apresentadores. Quando um consultor entrega o envelope que vai ser aberto, o outro elimina a sua própria cópia. Além disto, ambos memorizam todos vencedores para atuar com rapidez caso algum imprevisto aconteça.


Principais envolvidos na gafe do Oscar 2017

Warren Beatty e Faye Dunaway - atores veteranos, do clássico Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas, que foram escolhidos para apresentar e entregar o último e mais importante prêmio da noite: Melhor Filme.
Brian Cullinan e Martha Ruiz - experientes consultores da PwC, designados para este Oscar
Produtores de La La Land: Cantando Estações - considerados os favoritos para vencer Melhor Filme
Produtores de Moonlight: Sob a Luz do Luar - considerados como a maior ameaça a La La Land
Emma Stone - atriz de La La Land que veio a vencer Melhor Atriz, o antepenúltimo prêmio da noite


O que todo mundo viu

Quando chegou o grande momento, Warren Beatty abriu o envelope de Melhor Filme e, sorrindo, hesitou durante alguns segundos. A plateia riu, achando que ele estava querendo aumentar o suspense. Ele acabou mostrando o cartão para Faye Dunaway que anunciou La La Land como Melhor Filme. Os produtores subiram no palco, levando consigo a equipe e elenco, e começaram seus agradecimentos, já com as estatuetas em mãos. Aos poucos se formou um vai-e-vém atrás dos discursantes e, longos minutos depois, um produtor de La La Land acabou informando que havia um erro e mostrou o cartão do verdadeiro vencedor: Moonlight. Todo um constrangimento se estabeleceu e Warren Beatty foi ao microfone esclarecer que no envelope dele estava escrito "Emma Stone - La La Land", por isso havia hesitado. Finalmente, os produtores de Moonlight apareceram para -sem graça- receber o prêmio e agradecer.

Foto: Produtor de La La Land mostra o cartão de Melhor Filme


A sequência de erros

1) O consultor Brian Cullinan não eliminou seu envelope de Melhor Atriz depois que Martha Ruiz entregou o seu para o apresentador que anunciou Emma Stone como vencedora. Há relatos de que Brian 'twittou' ferozmente durante a noite, inclusive colocando uma foto da Emma Stone nos bastidores com a estatueta na mão;

2) Warren Beatty, sob pressão, imaginou que podia ter algo errado - afinal, Emma Stone não era produtora de La La Land, mas não agiu. Aliás, agiu errado: a) falhou em perceber que embaixo, em letras pequenas, estava escrito Melhor Atriz; b) não buscou assistência com um dos dois consultores da PwC; c) mostrou o cartão para Faye Dunaway achando que ela não ia simplesmente ler o nome do filme, mas que iria tentar ajudá-lo a decifrar o que estava acontecendo;

3) Faye Dunaway simplesmente leu o nome do filme, ignorando os demais dizeres;

4) Os produtores de La La Land, no calor do momento, dá para entender, sequer olharam para o cartão escrito Emma Stone;

5) Martha Ruiz e Brian Cullinan demoraram, muito, para reagir e corrigir.


Foto: Warren Beatty segurando o envelope errado


Lições Aprendidas

Atenção aos procedimentos:
Brian Cullinan cometeu a falha inicial e principal da catástrofe. Não seguiu os procedimentos, deixou de executar uma ação simples. Muito comum em, mas não exclusivo de, profissionais experientes como ele, a tendência de subestimar tarefas fáceis e corriqueiras pode ser o pilar de um erro fatal. E, novamente Brian, junto com Martha Ruiz, não soube aplicar o procedimento que demandava uma reação rápida e precisa em caso de engano no anúncio do vencedor.

Comunicação correta:
Alicerce do sucesso ou fracasso de qualquer projeto, empreendimento ou relacionamento, a comunicação (ou a falta dela) foi primordial para agravar a falha. Começando por Brian Cullinan, que utilizava a ferramenta de comunicação errada (Twitter), no momento errado, para as pessoas erradas. Warren Beatty não soube aproveitar a totalidade da informação escrita que lhe foi entregue, não se permitiu comunicar com as pessoas que poderiam precisamente esclarecer sua dúvida e apenas deixou subentendida sua intenção ao mostrar o cartão a Faye Dunaway. Ela, por sua vez, cometeu a mesma primeira falha de Warren e ainda deu o golpe final fazendo o anúncio publicamente.


Desta vez tudo isto pode ser visto só como uma gafe que mexeu com os ânimos de alguns milionários de Hollywood, causou o afastamento de dois consultores da PricewaterhouseCoopers, rendeu centenas de memes internet afora e marcou negativamente a história do Oscar para sempre. Mas, desatenção e falha de comunicação podem ser o que separa a normalidade de uma verdadeira tragédia.
"

Particularmente, se eu fosse o apresentador do Melhor Filme este ano, abriria o envelope e diria: "Ah, o envelope certo!", seguido de: "Moonlight!", antes de dar uma pausa e anunciar o verdadeiro vencedor.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Horas escuras com Winston


O tema já foi explorado quase que à exaustão na sétima arte. E, tratando-se de uma passagem histórica plenamente conhecida, a missão de O Destino de Uma Nação era ainda mais difícil. Mesmo assim, o longa de Joe Wright consegue deixar sua marca.

Não são apresentadas novidades sobre os bastidores dos primeiros dias de Winston Churchill como Primeiro Ministro Britânico, nem tampouco revelações inéditas sobre sua vida pessoal. Para quem por acaso não conhecia, ou não se lembrava, os desdobramentos do ponto de maior impacto e suspense já haviam sido revelados meses antes no Dunkirk de Christopher Nolan. Restou ao filme, então, se concentrar e se apoiar no brilho de Gary Oldman.


Como um Daniel Day Lewis em Lincoln, Oldman simplesmente é Churchill. Facilmente o público é levado a se esquecer do ator para passar a enxergar apenas o personagem. Transfigurado sob uma maquiagem perfeita, o veterano não se limita a uma imitação de maneirismos e tom vocal, nem se esconde atrás dos tradicionais chapéu e charuto. O que acontece em tela é uma verdadeira imersão na figura histórica. E o roteiro ajuda a humanizar um líder estereotipado pelos seus feitos.

Confinando a maior parte da trama dentro de prédios governamentais, Joe Wright fica sem muito espaço para exercer sua criatividade e não repete o impacto visto em obras anteriores, como no excelente Desejo e Reparação. Mas, as tentativas estão presentes e mesmo carregado em (e por) diálogos, o filme flui em bom ritmo, sem nunca entediar. O que falta é estabelecer um senso maior do que estava em jogo, talvez atrapalhado pelo tom leve, quase humorístico, que perdura em quase toda a produção.

Se a ideia é experenciar a Operação Dínamo, Dunkirk é a melhor escolha. Para quem quer apenas passar alguns dias com Winston Churchill (e testemunhar uma fantástica atuação de Gary Oldman), O Destino de Uma Nação é seu destino.


O Destino de Uma Nação (The Darkest Hour), 2017




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Só a forma é pouco


Abrindo com “Aconteceu muito tempo atrás... no reino de uma princesa sem voz...  uma história de amor e perda... e do monstro que tentou destruir tudo” ao som de uma bela e bem típica trilha sonora, o cineasta Guillermo del Toro de cara estabelece uma natureza fabulosa para seu já aclamado e premiado A Forma da Água. Tido como uma mistura de fantasia e romance, a história sobre uma mulher muda que se envolve com um ser (o Homem-Anfíbio, segundo os créditos), que está preso no laboratório secreto no qual faz faxina, é muito mais fantasia que romance. Embora acredite piamente que não.

Construído de forma meticulosa, repleto de detalhes e tecnicamente deslumbrante (com direção de arte, cenografia, maquiagem, efeitos visuais e fotografia incontestáveis) o filme fraqueja no roteiro. E no romance. As atuações marcantes do elenco principal disfarçam, mas não apagam, a faceta unidimensional dos personagens, desde a protagonista deficiente até o antagonista sádico. E não consertam o modo corriqueiro e artificial com que o vínculo entre a mulher e a criatura é criado. Se o público não consegue simpatizar com um relacionamento desses, o filme vai (perdão do trocadilho) por água abaixo. E, ao contrário de incontáveis outras produções que já cativaram com o laço entre humano e criatura, A Forma demanda muito do espectador.


Isto se dá, principalmente, porque del Toro não está preocupado com romance. Desde os primeiros minutos, fica bem claro que a protagonista, no marasmo de seu dia-a-dia, não é carente de afetividade, mas sim de sexo. Ouvir música, bater um papo em linguagem de sinais, matar o tempo em boa companhia e... compartilhar ovos cozidos, isto tudo ela pode fazer (e já faz) todos os dias com o seu vizinho, gay dentro do armário. O ápice de seu relacionamento com o homem-anfíbio é “partir pros finalmentes” na primeira oportunidade. (Lá vem spoiler até o fim do parágrafo) Apesar de estampar o pôster do filme, o beijo do amor verdadeiro -com, vejam só, uma mistura do improvável de A Bela e Fera, a salvação de A Branca de Neve, a transformação “sou parte do seu mundo” de A Pequena Sereia e até o sapatinho caindo de Cinderela- só se dá nos segundos finais e já ofuscado por sessões de coito interespécies. Caso se esforçasse para construir um vínculo mais verossímil e tangível, o filme conquistaria um público maior. 

E não é o caso de pedir ao roteiro para procurar saídas fáceis com o objetivo de direcionar as emoções do espectador. Porque isso ele faz, em mais de uma situação, como a do atendente de restaurante que, após rejeitar uma investida do personagem homossexual, não somente se mostra homofóbico, mas também racista, contra um casal de negros que oportunamente acaba de entrar no estabelecimento. Uma escolha nada sutil, a exemplo das inúmeras que acercam o vilão vivido por Michael Shannon.

A forma de A Forma demonstra que del Toro continua um diretor com uma criatividade visual singular. E quase esconde sua deficiência na criação de histórias.


A Forma da Água (The Shape of Water), 2017




terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Bastidores da verdade


Mesmo com a política sendo peça fundamental em entradas recentes de seu currículo, como em Munique, Lincoln e Ponte dos Espiões, é somente agora com The Post: A Guerra Secreta que Steven Spielberg mergulha no universo de bastidores da notícia e do poder e mostra mais uma ponta de seu ecletismo com um genuíno e notável thriller político. Em apenas 9 meses, dos preparativos iniciais até o lançamento,  o diretor gestou um indicado ao Oscar de Melhor Filme. E dá para entender a “correria”. Ambientado no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, a trama real que envolveu o embate entre imprensa e governo sobre mentiras acerca da guerra do Vietnã é mais do que atual e serve para estimular debates importantes.

O que poderia facilmente ser um arrastado e didático reconto de uma passagem sem graça (não fossem os desdobramentos) do dia-a-dia da equipe do jornal Washington Post, nas mãos de Spielberg ganha um ar da urgência, tensão e novidade. Os diálogos expõem conflitos pessoais e interesses ocultos, tanto de jornalistas quanto de políticos, sempre ressonando com a atualidade.


O destaque é o elenco estelar, liderado por Meryl Streep em (já é clichê, mas vamos lá) uma atuação digna de Oscar e por Tom Hanks, sempre excelente, embora com menos material para brilhar como em outros momentos de sua carreira. Sarah Paulson, Bradley Whitford, Matthew Rhys, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross e Dan Bucatinsky são alguns dos coadjuvantes - todos eles experientes e já com, ao menos, indicações ao Emmy na bagagem. Assim como também o eterno Saul Goodman, Bob Odenkirk, que é de longe o melhor em tela (dentre os homens, claro).

Embora a produção tenha o trunfo de usar gravações telefônicas reais de Richard Nixon à época, suas falas acabam parecendo caricatas e não somente pela natureza do presidente (as frases públicas de alguns presidentes são surreais já hoje, imaginem as particulares daqui a algumas décadas). O enquadramento que Spielberg escolhe para mostrar Nixon e a trilha sonora digna de vilão de quadrinhos que o acompanha acentuam o tom de uma artificialidade que não era para existir. Mas, é um incômodo menor, como outros pequenos, que não atrapalha uma obra consistente.

Esta espécie de prelúdio de Todos Os Homens do Presidente não deixa nada a dever ao aclamado filme de Alan J. Pakula nem a nenhum outro clássico do gênero. Essencial.


The Post: A Guerra Secreta (The Post), 2017




quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Mães e filhas


No atual momento de Hollywood, onde há um clamor pelo empoderamento feminino e uma aparente pressão por prestigiar os trabalhos realizados e/ou protagonizados por mulheres, a existência de um filme como Lady Bird: É Hora de Voar pode parecer oportunista. Se ganhar quaisquer das categorias pelas quais foi indicada ao Oscar (Filme- Roteiro- Direção- Atriz- Atriz Coadjuvante), a produção irá levar uma mulher ao palco do Dolby Theater para discursar. Mas, sendo um trabalho tão pessoal e de tão longa gestação por parte da criadora Greta Gerwig, julgá-lo como tal é injusto e incorreto.

As indicações nas categorias de atuação são incontestáveis. Saoirse Ronan e Laurie Metcalf são a razão do filme existir e esbanjam uma química fora do comum, estabelecendo uma dinâmica entre mãe e filha crível e comovente. É um projeto claramente movido pela paixão e Greta Gerwig deixa isto transparecer em sua direção sólida e segura e em seu roteiro repleto de diálogos espertos.


Porém, a composição como um todo transforma o trabalho em apenas mais um filme sobre a transição da adolescência-juventude. As cenas rápidas, de natureza episódica, atrapalham o desenvolvimento de um arco dramático ao longo prazo e deixa a impressão de que está sendo preenchido um check-list dos anseios e vivências mais comuns de uma adolescente. Família, escola, rebeldia, amizade, religião, namoro, virgindade, aparência, álcool, drogas, faculdade, dinheiro, individualidade, status social, futuro... todos os temas “obrigatórios” estão ali aglomerados em 01h30 de projeção, que parece durar muito mais do que isso. É muita coisa que já foi transportada para o cinema antes, muitas vezes de forma até melhor e com mais assunto.

Os méritos de Lady Bird são vários, mas os deméritos também existem. Assim, há os que enxergam os defeitos e incorrem no risco da acusação de oportunismo ou protecionismo. E há aqueles que, calejados com a infeliz estatística que pesa contra a quantidade de mulheres nos bastidores do cinema, acabam enxergando somente os pontos bem sucedidos. Porém, Greta Gerwig precisa apresentar um produto final melhor, como já fizeram Kathryn Bigelow, Patty Jenkins, Ava DuVernay, Michelle MacLaren e Lesli Linka Glatter (só para citar uma mão cheia, dentre as realmente poucas que existem) para não ficar só no “ótima direção, para uma mulher”.


Lady Bird: É Hora de Voar (Lady Bird), 2017




terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Viva a Pixar!


Festa no Céu, a animação que tem como pano de fundo as tradições mexicanas do Dia dos Mortos, teve uma passagem pelo plano dos vivos sem muita repercussão. É uma pena, pois a produção de Guillermo del Toro centrada em um jovem que contraria a tradição de sua família para perseguir o sonho de ser músico é melhor do que se imagina e merecia mais destaque. Ainda bem que existe vida pós-cinema para as obras serem celebradas em DVD, BluRay ou streaming.

Justamente por este filme de 2014 ter tido pouca visibilidade, foram poucos os que ficaram com o pé atrás quando a Pixar anunciou uma produção com temática bem similar. Normalmente, seria sinal de falta de criatividade, certeza de uma visão míope e americanizada de uma vertente da cultura latina já adaptada para o cinema com tanta propriedade.

Mas, Pixar é Pixar.

Viva - A Vida é Uma Festa realmente tem a mesma fonte de inspiração que Festa no Céu. Mas, restringe-se a isso. Não cabe comparação. O enredo, as mensagens e os objetivos são bem diferentes. E mesmo que Viva não esteja no patamar de outras preciosidades da Pixar, tem seu brilho próprio.


A história segue o menino Miguel em uma jornada de descobertas sobre família, tradição e morte. Este último tema, em especial, é manejado pelos realizadores com sensibilidade e de uma forma adequada para o público infantil. Mesmo quem não compartilha das mesmas crenças utilizadas como base para o enredo não consegue deixar de se emocionar e ainda pode encontrar ganchos para abrir diálogos necessários com os pequenos.

Acima de tudo, Viva é um filme alegre, divertido e comovente, com uma boa dose de reviravoltas (talvez óbvias para os mais safos, mas não menos interessantes). A qualidade da animação é de primeira e o elenco composto essencialmente por mexicanos está bem à vontade (incluindo o estreante Anthony Gonzalez que dá voz ao protagonista mirim). A música, elemento tão crucial para a trama, empolga - seja com a trilha instrumental de Michael Giacchino, seja com as canções originais de Kristen Anderson-Lopez (mais conhecida por seu trabalho em Frozen - Uma Aventura Congelante).

A esta altura do campeonato parece que é automático para a Pixar fazer rir e fazer chorar, entreter puramente enquanto chama para a reflexão. Parece simples, como seguir uma fórmula. Se há de fato este molde mágico na Pixar, os estúdios concorrentes parecem não estar dispostos a copiar. Ou estão tentando e passando longe.


Viva - A Vida é Uma Festa (Coco), 2017