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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Uma história que não ficou na história e uma história que não foi da história



Uma produção que dificilmente entraria no meu radar, não fosse a temporada de premiações é Eu, Tonya. Uma grata surpresa, o filme faz muito mais que uma cinebiografia padrão e impõe seu estilo para brincar com o que foi de fato verdade e o que pode não ter sido.  O maior exemplo é um personagem secundário, esquisito e sem noção beirando o caricato, cuja figura na vida real aparece nos créditos finais, em imagens documentais, se expressando da mesma forma surreal como foi interpretado. As atuações de Margot Robbie e Alisson Janney (que renderam respectiva e merecidamente uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz e uma estatueta de Atriz Coadjuvante) são memoráveis.

Eu, Tonya (I, Tonya), 2017






A Morte de Stalin é outro que, se não estivesse figurando nas principais listas dos melhores filmes do ano até o momento, dificilmente teria chamado minha atenção. Só que, embora tenha um elenco de peso e um roteiro repleto de boas sacadas e tiradas, esta sátira não decola. Por vezes arrastada, a comédia dramática não tem compromisso qualquer com a história e simplesmente não é tão engraçada quanto acha que é: menos Monty Python do que dizem por aí e mais Irmãos Coen do que deveria.

A Morte de Stalin (The Death of Stalin), 2018




terça-feira, 14 de agosto de 2018

Carrie perto do fim, Dolores sabe-se lá quando, Marty no começo

O que andou rolando na telinha...



Sempre se reinventado, a série consegue se manter relevante e tensa, sustentado-se principalmente em bons personagens, amparados por excelentes atuações e roteiros redondos, que entretêm ao mesmo tempo em que discutem temas atuais. Foi que escrevi sobre a sexta temporada de Homeland. E exatamente o mesmo pode ser escrito para a sétima. A diferença é que esta penúltima temporada termina com um tom sombrio e deixa uma enorme (e boa) interrogação sobre qual será o mote da conclusão da série em seu oitavo e derradeiro ano.

Homeland (7a. temporada), 2018





Reinvenção também é a palavra para Westworld, com uma segunda temporada que não é mais do mesmo - tanto em termos de estrutura quanto em termos de temas. Sem deixar de lado as viagens filosóficas (desta vez entrando em território mais Black Mirror), agora o avançar da trama e a expansão da mitologia se sobrepõem ao desenvolvimento de personagens. Tecnicamente, o drama da HBO continua primoroso, com uma belíssima fotografia, mas seu roteiro sofre para equilibrar diversas linhas temporais não lineares. A coisa acaba ficando especialmente confusa com o último episódio (potencializado pela cena pós-créditos) que ainda descarrega uma enxurrada de reviravoltas. Tanta reinvenção que fica incerto o rumo que a série poderá tomar (e até se fará sentido continuar com o mesmo título).

Westworld (2a. temporada), 2018





Com tanta TV de qualidade na atualidade, é difícil para uma série nova realmente se destacar. E Ozark quase consegue. Sombria, tensa, intrigante e com personagens interessantes em situações inesperadas, como tantas outras, a produção da Netflix tenta se diferenciar ao mirar o impactante, como tantas outras. Buscando conquistar com um tom realista, escorrega justamente por recorrer a tanto desdobramento inverossímil. E se a vertente dramática de Jason Bateman, tão conhecido por suas atuações em comédias, é o ponto alto, a direção de Jason Bateman é ponto baixo, com enquadramentos óbvios e escolhas narrativas corriqueiras.

Ozark (1a. temporada), 2017




sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Não deixe o blog morrer, não deixe o blog acabar...


"Não diga que você não tem tempo, seja honesto e diga que não é sua prioridade."

Li essa frase outro dia e ela me desarmou na desculpa de 'não ando tendo tempo pro blog'.

Há mais de dois meses não publico nada por aqui, apesar de já ter assistido nesse ínterim a séries e filmes (poucos, é verdade, mas...) que poderiam ter rendido comentários. Mesmo ainda gostando da ideia de fazer um registro para mim mesmo no futuro (e para as duas ou três boas almas que persistem em gastar tempo com o Padecin), o fato é que o temp... as prioridades pessoais e profissionais se sobrepuseram e restou ao blog bolas de feno rolando como numa cidade-fantasma ao som de um tema melancólico de faroeste.

Cheguei em pensar num post derradeiro encerrando as atividades, mas ficou o receio de bater um arrependimento depois. Novembro está logo ali com o marco de 10 anos após a primeira postagem. Seria possível esticar um pouquinho mais a sobrevida do blog para alcançar esta data simbólica? E de repente a empolgação e as prioridades se rearranjariam?

Bom, vou tentar.

De cara, acho que o objetivo é fazer um post periódico com tudo que assisti desde o post anterior, contendo apenas um resumo do que eu iria escrever sobre cada filme (que já eram textos pequenos) e simplesmente jogando a nota que eu iria dar. Cúmulo da preguiça na era em que ler é um luxo.

Mas, ao menos uma vez por mês nas atuais circunstâncias é algo factível. Não é bem uma meta - vou deixar a meta aberta, mas, quando atingir a meta, vou dobrar a meta. Aí, dobrando a meta, de repente aos poucos volto ao ritmo das épocas de glória do blog.

De qualquer forma, declaro o Padecin ressuscitado.


Mesmo que corra o risco mais de parecer um twitter.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Um Solo é pouco


Quem imaginar que Han Solo: Uma História de Star Wars é o equivalente àquela sequência inicial de Indiana Jones e a Última Cruzada em que River Phonenix encena como um jovem Indy conseguiu seu chapéu, sua cicatriz no queixo, seu medo de cobras, etc, só que esticado em mais de duas horas, não está totalmente errado. A boa notícia é que é são duas horas empolgantes e divertidas, que fazem jus a um dos melhores personagens da história do cinema. 

É verdade que nem todas as (se alguma das) características e marcas registradas do carismático contrabandista precisavam de uma história de origem e também que um bocado delas decepciona nesse filme, mas outras tantas agradam e, mesmo esperadas,  ainda surgem como elemento surpresa. Não que toda reviravolta funcione, mas a produção tem material original suficiente para fugir do óbvio e surpreender um espectador que já conhece o desfecho geral da história.


Esta condição de pré-continuação para as 'histórias de Star Wars' é algo de que a Lucasfilm e a Disney ainda não conseguiram se desvencilhar.  A proposta de construir narrativas independentes naquele universo ainda não foi cumprida. Enquanto Rogue One contava eventos que precediam diretamente o Guerra nas Estrelas original, Episódio IV: Uma Nova Esperança, o filme de Han Solo se aproveita fortemente de personagens já conhecidos da saga dos Skywalkers. E é também curioso como que ambos se prestam para aludir a supostos furos, dúvidas e até picuinhas dos fãs mais ardorosos da trilogia original.

A produção também traz conexões com os Episódios I, II e III, com uma passagem que gera confusão para quem assistiu somente às obras feitas para o cinema e não acompanhou as séries animadas Star Wars: The Clone Wars e Star Wars Rebels. Mais um momento inesperado e indesejado por aqueles que querem esquecer que a era Jar Jar Binks sequer existiu e/ ou que não concordam que conhecer os derivados para televisão deveria ser premissa para apreciação de um filme.

Quando está se divertindo sendo uma mistura de "filme de assalto" e faroeste intergalático é que Han Solo ganha mais pontos. Quando tenta se levar a sério e ser engajado, se perde. Maior exemplo é o da androide L3, que serve tanto como alívio cômico quanto como voz política ao pregar o livre pensamento dos robôs, mas recebe um desfecho totalmente incoerente e questionável (principalmente para quem está na mesma linha filosófica de alguns episódios de Black Mirror). Certas decisões dos roteiristas Lawrence e Jonathan Kasdan (pai e filho) são incompreensíveis. 

Mas, o veterano Lawrence, como não podia deixar de ser, é peça fundamental na construção respeitosa do mesmo personagem que o público sempre conheceu. Sua sensibilidade e a excelente, inspirada e precisa atuação de Alden Ehrenreich, consagram o trabalho quase impossível de recriar Han sob a sombra de Harrison Ford, sem se limitar ou parecer uma imitação e nem se distanciar ou se esconder atrás da desculpa de ser "uma nova versão" do mesmo.

As concepções visuais também não se restringem a homenagear às dos filmes existentes e há bastante espaço para criatividade, como o design de Lady Proxima e os elementos que circundam o vilão Dryden Vos: sua nave verticalizada, suas "adagas de luz" (?) e a dupla cantante em sua festa, que traz uma sonoridade que parece verdadeiramente alienígena. A própria trilha sonora de John Powell acrescenta algo de novo, com destaque para o tema de Enfys Nest e seu bando, e pega emprestado as melodias conhecidas do seu xará Williams somente na medida certa.

Na contramão do recém confirmado filme centrado em Boba Fett, esta história de Star Wars supera o ceticismo e não se apresenta como um caça-níquel. E, principalmente, não se tornou o frankenstein que poderia ter sido após sua produção atribulada por problemas de bastidores que levaram à troca de diretores no meio do caminho. Quando a Millenium Falcon salta para o hiperespaço e as luzes se do cinema se acendem, as falhas parecem ficar pra trás e só segue viagem a vontade de testemunhar novas aventuras que Han e Chewie ainda têm para desbravar antes de conhecerem Luke em Mos Eisley.


Han Solo: Uma História de Star Wars (Solo: A Star Wars Story), 2018

sábado, 12 de maio de 2018

Jogando tudo pro ar


A proposta é conhecida. Um grupo de amigos de meia idade se reúne em um encontro noturno inocente e eventos inesperados começam a acontecer. Os desdobramentos vão se intensificando e saindo de controle, muito em consequência de decisões erradas dos personagens, por simples falta de experiência ou de noção da realidade que os acerca. Mesmo não deixando de parecer uma mistura de Os 7 Suspeitos (comédia inspirada no jogo Detetive) com Vidas em Jogo (thriller dirigido por David Fincher), além de filmes sobre o submundo do crime moderno, A Noite do Jogo consegue parecer original e empolgante, em meio a tanta comédia genérica e apática.


Jogos de tabuleiro clássicos moldam a produção, tanto no seu enredo, quanto na composição de cenas e personagens. Os diretores abraçam o tema e inserem situações em que personagens agem tal como se estivessem participando de jogos, muitas vezes involuntariamente, como na cena que se desenrola como uma brincadeira de "batata quente" num divertido e bem feito plano sequência. Destaque também para o uso de tilt-shift em alguns planos gerais, quando as imagens dão uma ilusão de miniatura, remetendo a peças e cenários de um tabuleiro.

Com destaque para Jesse Plemons interpretando o vizinho policial pra lá de esquisito, a escolha do elenco é acertada, ainda que a pegada cômica pareça por vezes exagerada. O problema é que enquanto o já mencionado Os 7 Suspeitos assumia sua postura caricata, o roteiro de A Noite do Jogo tenta em alguns momentos dosar o humor da comédia com os perigos concretos de um thriller policial, sem ter completo sucesso em equilibrar o tom nessa mescla de gêneros.

Despretensioso e engraçado, o filme vale ser o substituto de uma noitada de jogatina com os amigos. E, pro bem ou pro mal, é tão memorável quanto.


A Noite do Jogo (Game Night), 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

Darker things


Uma pequena cidade, uma instalação misteriosa, conexões com outras dimensões, crianças desaparecidas, mapas, passagens subterrâneas, buscas noturnas, ambientação nos anos 80, componentes fantásticos e muito mistério. Esses elementos, misturados com temas maduros (suicídio, morte de crianças, adultério, sexo, crise existencial, para citar alguns), fizeram Dark ser rotulada de 'Stranger Things para adultos'. Mas, a comparação não sobrevive além destes pontos básicos e a primeira série alemã da Netflix se mostrou bem diferente da encabeçada por Dustin, Eleven e o Demogorgon.

Por vários motivos como tom, ritmo, escolhas para desenvolvimento dos personagens, a singularidade européia e o fato de não ser falada em inglês, além de uma recorrente e insistente trilha sonora que potencializa o suspense, a proximidade é muito maior com a francesa Les Revenants. E o ingrediente principal é bem destoante da série americana situada em Hawkins: viagem no tempo.


Alternando-se em saltos de 33 anos (entre 1953, 1986 e 2019), Dark se esbalda com paradoxos temporais de deixar qualquer fã de ficção-científica maluco. No bom sentido. É preciso bastante atenção para que detalhes não passem batido e há que se estar no clima correto para abraçar a natureza complexa de um presente que só existe porque personagens interferiram originalmente no passado. Não que seja tão difícil de acompanhar como Primer, já que existem vários momentos em que a edição pega na mão do espectador, como no em que a tela se divide em duas para comparar personagens do passado com suas versões do presente. Recurso, aliás, desnecessário já que um dos grandes trunfos da série é a escolha de um elenco em que  crianças/ adolescentes se parecem muito com suas contrapartes adultas/ idosas.

Ao lidar com este tipo de enredo a palavra-chave é planejamento. O roteiro não é tão redondo quanto ao do filme espanhol Crimes Temporais, mas se sai muito bem com um escopo muito maior e mais ambicioso.Porém, embora a jornada da primeira temporada seja interessantíssima, a conclusão é insatisfatória. Não há o fechamento de um arco principal e perguntas novas são criadas em uma taxa muito superior à de perguntas respondidas. Caso não tivesse sido anunciada uma segunda temporada, Dark deixaria um gosto amargo, que por enquanto está suspenso na confiança de que esteja mesmo amparada por um grande planejamento ao longo prazo.

Fica a torcida para que as mentes criativas não se percam e que os espectadores não terminem com a sensação de tempo perdido. Pois, não há como voltar no tempo.

A não ser que já tenha acontecido. E que ninguém tenha alterado a linha temporal em loop. Ou não. O tempo dirá.


Dark (1a. temporada), 2017




domingo, 8 de abril de 2018

Silêncio gritante


John Krasinski é um ator conhecido por comédias que teve acesso ao roteiro de um longa-metragem de terror e decidiu abraçá-lo como um projeto pessoal. Dedicou-se a reescrever parte do mesmo e, além de atuar, assumiu o papel de produtor executivo e a cadeira de diretor. De quebra, elencou a esposa Emily Blunt no papel feminino principal. Tamanha paixão acabou transparecendo no resultado surpreendente de Um Lugar Silencioso.


Pegando muito emprestado de Tubarão, ao provocar a plateia com o subentendido - o não explícito, e de Alien, o Oitavo Passageiro, com cenas enervantes envolvendo o desconhecido em espaços restritos, a produção também parece muito um filme de M. Night Shyamalan. O ritmo mais lento e o clima latente de medo do diretor indiano são observados neste filme e Kransiski demonstra maestria ao compor sequências, enquadrar imagens e criar conceitos genuinamente apavorantes, que fazem os espectadores prenderem a respiração. Nem que seja para não fazer barulho.

A trilha sonora colabora e a esperta edição de som é um diferencial, jogando muito bem com o papel do silêncio e do som, tema motriz da trama. Com a missão difícil de não se sustentar em diálogos, as atuações são inspiradas, destacando-se a jovem Millicent Simmonds, surda desde a infância, em apenas seu segundo longa-metragem.

Krasinski só não se arrisca em uma reviravolta shyamalesca, mesmo porque aqui seria desnecessária, e também esbarra em alguns pontos que podem facilmente ser alvos de críticas. Sua história simples não deixa de se assemelhar em vários aspectos ao ótimo Sinais e, em ambos, as premissas assumidas, a dinâmica das regras e o próprio funcionamento da sociedade no cenário proposto podem fazer a lógica do filme desmoronar se analisados com um pouco mais de critério.

Seja como for, Um Lugar Silencioso é uma experiência intensa e aterradora, pelos bons motivos, e vale ser visitado por todos fãs de cinema.


Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), 2018