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domingo, 17 de novembro de 2019

Expresso do oriente



Tão divertida quanto melancólica, The Farewell é uma pequena obra-prima que se despe de clichés para tratar choque cultural de forma respeitosa e delicada, criando empatia suficiente para que o público não consiga demonizar nenhum ponto de vista. Através de um roteiro inteligente e sincero e um elenco inspirado somos convidados a (re)pensar a forma como enxergamos a nossa mortalidade, como lidamos com determinadas mentiras, como anda nosso relacionamento com os parentes distantes. Alguns detalhes de bastidores (que devem ser pesquisados somente depois do término do filme) são a cereja no topo do bolo desta preciosidade.

The Farewell (ainda sem título em português), 2019








Vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano, Parasita é um filme estiloso sobre desemprego e classes sociais que diz muito sobre a Coreia do Sul, mas que também consegue ser universal. Pessoalmente, gosto mais dos dois primeiros atos do longa, pois o clímax promove uma escalada de violência que destoa do que vinha sendo construído. Porém, isto não diminui a obra, pois os gatilhos não surgem sem motivação. Não é spoiler citar uma frase que está no cartaz do filme, embora surja tarde na projeção: "O melhor plano é nenhum plano". O personagem que diz isto está deixando bem claro seu objetivo: apenas sobreviver a esta vida. Mas, é quando os personagens deixam de apenas querer sobreviver (por impulso de orgulho, de senso de justiça, de desejo pessoal) que tomam decisões que fazem as coisas desandar. E acabam não sobrevivendo ou tendo que se contentar a voltar a tentar sobreviver. Uma fábula moderna e perturbadora bastante relevante para a sociedade atual.

Parasita (Gisaengchung), 2019




quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Eu sei o que você fez no mês das crianças



Toy Story 3 fechou de forma emocional e emocionante uma trilogia que beirou a perfeição. Era consenso que não havia necessidade alguma de um quarto filme. Mas, a Pixar foi lá e fez mesmo assim, provando que o mundo inteiro estava errado. A nova aventura de Woody & cia navega por temas adultos, ao criar metáforas para paternidade e discutir existencialismo, mas nunca abandona sua natureza infantil, nem deixa a bola cair no quesito diversão. Toy Story 4 fechou de forma emocional e emocionante uma quadrilogia que beirou a perfeição. É consenso que não há necessidade alguma de um quinto filme. Mas, se a Pixar for lá e fizer mesmo assim, não tenho dúvida que irá provar que o mundo inteiro está errado.

Toy Story 4 (idem), 2019






É triste constatar como que O Menino Que Queria Ser Rei passou batido nos cinemas e não encontrou seu público nem depois que ficou disponível para consumo nos lares. Essa aventura infanto-juvenil enraizada na fantasia, com humor bem dosado e o coração no lugar certo, teria facilmente me conquistado (e milhares como eu) nos anos 1980. A culpa não é do estilo do filme, nem do tema, mas dos pais de hoje em dia, que não querem enxergar nada além do horizonte dos super-heróis. Meu filho, 8 anos, se empolgou, mas sem colegas com quem comentar e reviver a experiência, produções como esta serão esquecidas e se tornarão ainda mais raras. Lamentavelmente.

O Menino que Queria Ser Rei (The Kid Who Would Be King), 2019






A Turma da Mônica dispensa apresentações. Abraçando com força esta noção, Turma da Mônica: Laços não perde tempo com contextualização nem com introdução dos seus personagens. Só funciona para quem já conhece bem a turminha. Ainda assim, o roteiro traz uma caracterização pobre, principalmente de Magali, que não tem nada para fazer além de pontuar seu apetite eterno, e de Cascão, que nunca esboça o espírito piadista que possui nos quadrinhos e animações. O longa perde a oportunidade de inserir referências legais (uma aparição da Turma do Penadinho "real" no final da cena no cemitério seria genial). A trama principal é fraca, com um desfecho cheio de pontas soltas. Mas, também, quem se importa? Crianças assistem pelas tlavessulas e coelhadas, adultos pelo saudosismo. A mensagem é bonitinha e tudo certo.

Turma da Mônica: Laços (idem), 2019




sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Piada de duplo sentido


Quando surgiram as primeiras notícias sobre um filme solo de origem do Coringa, torci o nariz (e olha que é um nariz bem grande). Sempre achei que os grandes vilões são mais interessantes quando nós não sabemos de verdade quem são (um abraço para você, Darth Vader dos midchlorians vivos especiais). Uma das coisas que tornava o Coringa de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas tão ameaçador era justamente isso. E cada vez que ele contava uma história diferente sobre a origem de suas cicatrizes, mais imprevisível ele se tornava.

Minha resistência ao novo Coringa foi caindo com o tempo, a cada nova notícia e com o Leão de Ouro em Veneza, a ponto de inclui-lo na minha lista dos mais esperados do ano. Consegui ir ao cinema livre de spoilers, mas não sem saber vários dos comentários que vinham surgindo.

"Não é um típico filme de super-herói". Definitivamente! "É um estudo de personagem, denso psicologicamente e violento". Sem dúvida. "A atuação de Joaquin Phoenix é fenomenal e digna de prêmios". Assino embaixo. "O filme não sabe lidar muito bem com seus temas e pode ser potencialmente perigoso". Talvez tenha havido alguns exageros nas reações, mas no geral, a afirmação está correta.


A verdade é que sem o pano de fundo já notório na cultura pop mundial, o público estaria diante de uma história desprovida de propósito. Coringa funciona bem quando se embasa ou faz referência ao universo de qual veio, mesmo com todas as liberdades e desvios. Se fosse sobre um palhaço chamado Carnaval, na cidade de Nova York, com um milionário chamado Taylor West, ficariam expostas as fragilidades da trama e os tropeços de roteiro.

De um desencadear de coisas que parecem vir mais ao acaso para o protagonista, em vez de acontecerem por causa de ações e decisões dele, até um discurso final deslocado, desnecessário e implausível que serve só para expor para o público os temas do filme, existem inúmeros pontos que não seriam perdoáveis em outras produções.

Mas a já mencionada atuação de Phoenix, a trilha sonora envolvente da islandesa Hildur Guðnadóttir (também ótima em Chernobyl), o investimento emocional e, mais uma vez, a graça (perdão da palavra) de ver a ambientação de parte do universo DC sob toda uma nova perspectiva, como nunca antes, nos levam a esquecer os deslizes do filme. O diretor, mais conhecido por Se Beber Não Case, surpreende e cria momentos memoráveis, incluindo uma cena que se torna instantaneamente clássica, pulando da violência gráfica para um misto de humor e tensão, que faria inveja em Quentin Tarantino.

!Agora não tem jeito de não entrar em spoilers!

Falando em referências, as duas mais óbvias e mais comentadas são as a Taxi Driver e a O Rei da Comédia. Mas, por várias me peguei pensando em Psicopata Americano. E aí entramos nas ambiguidades da obra.

A revelação de que o envolvimento de Arthur Fleck com a vizinha era apenas na sua cabeça reforça a teoria de que o caso de sua mãe com Thomas Wayne nunca existiu e que ele, Arthur, estaria tendo um distúrbio similar ao de sua mãe. Ainda assim, não é conclusivo. Particularmente, gosto mais da versão de que Arthur é filho de Wayne, que teria forjado e forçado um registro de adoção para Penny Fleck. Ironicamente, Wayne indiretamente criou o Coringa, que indiretamente criou o Batman.

Outro ponto em aberto, também reforçado pelo caso com a vizinha, mas levantado só no desfecho, é o de que tudo aquilo teria acontecido na imaginação de Arthur enquanto ele estava no hospício (remetendo ao agora suposto flashback no início do filme em que ele bate a cabeça repetidamente numa porta branca - e daí as pegadas de sangue no corredor na cena final). Esta é uma leitura plausível, pelo que é apresentado, mas que para mim diminui o filme drasticamente (e que me faz lembrar ainda mais do porquê não gostei de Psicopata Americano). Nesta versão, de que quase nada aconteceu de verdade, eu não gosto de Coringa.

!Fim de spoilers!

Mas, desconsiderando as interpretações que não me agradam, Coringa facilmente figura entre os melhores do ano, provando ser um daqueles raros feitos que mesclam bem a pegada artística com a cultura pop.


Coringa (Joker), 2019





sábado, 28 de setembro de 2019

Estrelas - das solitárias às esquecidas



Embora conte com algumas sequências tensas e mais aceleradas, Ad Astra - Rumo às Estrelas é em quase toda sua duração um drama intimista de ritmo lento, focado numa atuação contida de Brad Pitt. Isto, belas imagens e incontáveis enquadramentos em plano detalhe e primeiríssimo plano trazem um quê de Terence Malick para a obra. Mesmo com a falta de sutileza ao lidar com o tema pais e filhos e com a exposição recorrente (muitas vezes com uma narração desnecessária), o filme cumpre bem seus objetivos. Mas, teria me agradado muito mais se tivesse sido lançado antes de Gravidade, por alguns motivos, e de Interestelar, por muitos outros.

Ad Astra - Rumo às Estrelas (Ad Astra), 2019




 Por ser uma "história sobre a criação do Dicionário Oxford", O Gênio e o Louco me surpreendeu com uma dose inesperada de tensão, peso dramático e até violência. Sean Penn brilha mais uma vez e parece estar na maior parte do tempo em um filme diferente que o de Mel Gibson. Isto é devido não somente à disparidade da atuação marcante de Penn com a apagada de Gibson, mas também por más escolhas de roteiro e de edição, que deixam a produção com tom e ritmo irregulares.

O Gênio e o Louco (The Professor and the Madman), 2019




 Assistir Yesterday tentando achar uma lógica para sua premissa intrigante - que o mundo inteiro, exceto um músico fracassado, se esqueceu dos Beatles - é um esforço inútil. Assistir Yesterday esperando por coerência e explicações é uma empreitada frustrante. Yesterday tem que ser visto pelo que é: uma comédia romântica com um cenário inusitado e divertido, bem dirigida por Danny Boyle e escrita pelo mesmo cara de Um Lugar Chamado Notting Hill (e dá para perceber como temas e até cenas deste se repetem aqui). Let it be, porque all you need is love.

Yesterday (idem), 2019


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Netflix para todo gosto (e mau gosto)




Ficção-científica pós-apocalíptica com ambiente restrito, elenco reduzido e que se lança em debates existenciais não é nenhuma novidade, nem uma tarefa fácil de se realizar bem. Mas, I Am Mother consegue prender a atenção, instigar e trazer um pouco de originalidade ao gênero. A dupla principal, a androide Mãe, uma ameaça latente por trás da serenidade aparente, e a humana Filha, vivida com talento pela jovem atriz dinamarquesa Clara Rugaard, conduzem a trama com uma dinâmica inquietante. Alvo de críticas de muitos, o final sombrio não me desagradou, sendo bem menos ambíguo do que julgam por aí.

I Am Mother (idem), 2019






 Após os primeiros minutos de Estrada Sem Lei, quando descobri qual era o enredo, me vi com um "problema de spoiler". A única cena que ficou comigo de Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas, quando assisti ao filme décadas atrás, era a última. Mas, acabou que saber o desfecho não atrapalhou apreciar o que este longa da Netflix traz de melhor para a conhecida história da dupla de criminosos da Grande Depressão. A ambientação, a trilha sonora e, claro, as boas atuações de Kevin Costner e Woody Harrelson sustentam a produção que poderia muito bem ter tido um lugar nas salas de projeção.

Estrada Sem Lei (The Highwaymen), 2019






O problema raiz de The Perfection o é sua falta de identidade. O longa começa flertando com um thriller sexy sobre obsessão e no seu segundo ato ganha tons de terror B. Se essa transição bizarra já não ajuda muito, as coisas desandam ainda mais no terceiro ato, quando o roteiro não consegue se conter com mais uma reviravolta inadequada, tentando se firmar como um drama de vingança. E a verdadeira revelação é que a produção é infeliz e insensível ao escolher suas ferramentas para tratar de um assunto muito delicado e que merece mais cuidado.

The Perfection (idem), 2018




sábado, 17 de agosto de 2019

Refazendo tudo ou quase nada



Não sou daqueles que vivem torcendo o nariz para toda e qualquer refilmagem ou continuação que é anunciada, mas não raro tenho que dar o braço a torcer pros que odeiam estas produções antes mesmo de vê-las. Infelizmente, Homens de Preto Internacional é um desses casos. Com um roteiro pedestre a dupla central sem nenhum resquício da química construída na Marvel, absolutamente nada nesta produção repete o que funcionou tão bem na trilogia original. Apenas um personagem, secundário, pincela alguma diversão em um filme consistentemente sem graça.

MIB: Homens de Preto Internacional (Men In Black: International), 2019






Se um dos desafios (não conquistados) de Homens de Preto Internacional era o de ao menos igualar algo que dependeu fortemente do carisma de Will Smith, só que agora sem o ator, a refilmagem em carne-e-osso da animação Aladdin trouxe uma irônica inversão: o carisma de Will Smith tendo que ser suficiente para ao menos igualar algo que dependeu fortemente da genialidade (trocadilho proposital) de Robin Williams. A história traz algumas pequenas mudanças no seu recheio (e assim até justifica seu ressurgimento), os rostos desconhecidos se provam boas escolhas e Smith até manda bem. Mas, impossível ignorar a enorme sombra de Williams sobre o filme.

Aladdin (Aladdin), 2019



quarta-feira, 31 de julho de 2019

Mais estranho que ficção-científica



Eu tinha certeza de que quando os atores mirins de Stranger Things crescessem, a série ia ficar ruim. Bom, eu estava redondamente enganado. Melhor que a segunda, e talvez até que a primeira, a terceira temporada volta com um equilíbrio perfeito de suspense e humor e acerta em cheio na emoção. A chave aqui é um roteiro mais centrado nos personagens, não se importando em deixar o desenvolvimento da mitologia como pano de fundo para dedicar mais tempo com a turma que já havia nos cativado, além de trazer boas novas adições ao plantel. As referências aos filmes da década de 1980 continuam um charme à parte, mas o uso da trilha sonora consegue ainda superar o Should I Stay Or Should I Go da primeira temporada e o tema dos Caça-Fantasmas na segunda. Quando eu achava que o ápice seria a sobreposição da trilha de De Volta Para o Futuro em uma sequência que se passa no cinema que está projetando o filme, os Irmãos Duffer ainda nos presenteiam com um dueto totalmente inesperado no último episódio. Daquelas raras vezes em que um clássico vai ser desassociado da sua origem no nosso cérebro e automaticamente passar a ser lembrado por outra coisa completamente diferente.

Stranger Things (3a. temporada), 2019






Sou fã convicto de ficção-científica, aprecio imensamente animações e curto (perdão do trocadilho) curtas. Assim, Love Death and Robots, a série da Netflix em que os episódios são curta-metragens sci-fi realizados cada qual com sua técnica de animação, por criadores distintos, parecia um prato cheio pra mim. Mas, no geral, o resultado me desapontou. Apesar de muito bem produzidas, as histórias não empolgam e poucas se mostram memoráveis. Pelo menos a duração reduzida atenua a sensação de tempo perdido.

Love, Death and Robots (1a. temporada), 2019