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sábado, 12 de maio de 2018

Jogando tudo pro ar


A proposta é conhecida. Um grupo de amigos de meia idade se reúne em um encontro noturno inocente e eventos inesperados começam a acontecer. Os desdobramentos vão se intensificando e saindo de controle, muito em consequência de decisões erradas dos personagens, por simples falta de experiência ou de noção da realidade que os acerca. Mesmo não deixando de parecer uma mistura de Os 7 Suspeitos (comédia inspirada no jogo Detetive) com Vidas em Jogo (thriller dirigido por David Fincher), além de filmes sobre o submundo do crime moderno, A Noite do Jogo consegue parecer original e empolgante, em meio a tanta comédia genérica e apática.


Jogos de tabuleiro clássicos moldam a produção, tanto no seu enredo, quanto na composição de cenas e personagens. Os diretores abraçam o tema e inserem situações em que personagens agem tal como se estivessem participando de jogos, muitas vezes involuntariamente, como na cena que se desenrola como uma brincadeira de "batata quente" num divertido e bem feito plano sequência. Destaque também para o uso de tilt-shift em alguns planos gerais, quando as imagens dão uma ilusão de miniatura, remetendo a peças e cenários de um tabuleiro.

Com destaque para Jesse Plemons interpretando o vizinho policial pra lá de esquisito, a escolha do elenco é acertada, ainda que a pegada cômica pareça por vezes exagerada. O problema é que enquanto o já mencionado Os 7 Suspeitos assumia sua postura caricata, o roteiro de A Noite do Jogo tenta em alguns momentos dosar o humor da comédia com os perigos concretos de um thriller policial, sem ter completo sucesso em equilibrar o tom nessa mescla de gêneros.

Despretensioso e engraçado, o filme vale ser o substituto de uma noitada de jogatina com os amigos. E, pro bem ou pro mal, é tão memorável quanto.


A Noite do Jogo (Game Night), 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

Darker things


Uma pequena cidade, uma instalação misteriosa, conexões com outras dimensões, crianças desaparecidas, mapas, passagens subterrâneas, buscas noturnas, ambientação nos anos 80, componentes fantásticos e muito mistério. Esses elementos, misturados com temas maduros (suicídio, morte de crianças, adultério, sexo, crise existencial, para citar alguns), fizeram Dark ser rotulada de 'Stranger Things para adultos'. Mas, a comparação não sobrevive além destes pontos básicos e a primeira série alemã da Netflix se mostrou bem diferente da encabeçada por Dustin, Eleven e o Demogorgon.

Por vários motivos como tom, ritmo, escolhas para desenvolvimento dos personagens, a singularidade européia e o fato de não ser falada em inglês, além de uma recorrente e insistente trilha sonora que potencializa o suspense, a proximidade é muito maior com a francesa Les Revenants. E o ingrediente principal é bem destoante da série americana situada em Hawkins: viagem no tempo.


Alternando-se em saltos de 33 anos (entre 1953, 1986 e 2019), Dark se esbalda com paradoxos temporais de deixar qualquer fã de ficção-científica maluco. No bom sentido. É preciso bastante atenção para que detalhes não passem batido e há que se estar no clima correto para abraçar a natureza complexa de um presente que só existe porque personagens interferiram originalmente no passado. Não que seja tão difícil de acompanhar como Primer, já que existem vários momentos em que a edição pega na mão do espectador, como no em que a tela se divide em duas para comparar personagens do passado com suas versões do presente. Recurso, aliás, desnecessário já que um dos grandes trunfos da série é a escolha de um elenco em que  crianças/ adolescentes se parecem muito com suas contrapartes adultas/ idosas.

Ao lidar com este tipo de enredo a palavra-chave é planejamento. O roteiro não é tão redondo quanto ao do filme espanhol Crimes Temporais, mas se sai muito bem com um escopo muito maior e mais ambicioso.Porém, embora a jornada da primeira temporada seja interessantíssima, a conclusão é insatisfatória. Não há o fechamento de um arco principal e perguntas novas são criadas em uma taxa muito superior à de perguntas respondidas. Caso não tivesse sido anunciada uma segunda temporada, Dark deixaria um gosto amargo, que por enquanto está suspenso na confiança de que esteja mesmo amparada por um grande planejamento ao longo prazo.

Fica a torcida para que as mentes criativas não se percam e que os espectadores não terminem com a sensação de tempo perdido. Pois, não há como voltar no tempo.

A não ser que já tenha acontecido. E que ninguém tenha alterado a linha temporal em loop. Ou não. O tempo dirá.


Dark (1a. temporada), 2017




domingo, 8 de abril de 2018

Silêncio gritante


John Krasinski é um ator conhecido por comédias que teve acesso ao roteiro de um longa-metragem de terror e decidiu abraçá-lo como um projeto pessoal. Dedicou-se a reescrever parte do mesmo e, além de atuar, assumiu o papel de produtor executivo e a cadeira de diretor. De quebra, elencou a esposa Emily Blunt no papel feminino principal. Tamanha paixão acabou transparecendo no resultado surpreendente de Um Lugar Silencioso.


Pegando muito emprestado de Tubarão, ao provocar a plateia com o subentendido - o não explícito, e de Alien, o Oitavo Passageiro, com cenas enervantes envolvendo o desconhecido em espaços restritos, a produção também parece muito um filme de M. Night Shyamalan. O ritmo mais lento e o clima latente de medo do diretor indiano são observados neste filme e Kransiski demonstra maestria ao compor sequências, enquadrar imagens e criar conceitos genuinamente apavorantes, que fazem os espectadores prenderem a respiração. Nem que seja para não fazer barulho.

A trilha sonora colabora e a esperta edição de som é um diferencial, jogando muito bem com o papel do silêncio e do som, tema motriz da trama. Com a missão difícil de não se sustentar em diálogos, as atuações são inspiradas, destacando-se a jovem Millicent Simmonds, surda desde a infância, em apenas seu segundo longa-metragem.

Krasinski só não se arrisca em uma reviravolta shyamalesca, mesmo porque aqui seria desnecessária, e também esbarra em alguns pontos que podem facilmente ser alvos de críticas. Sua história simples não deixa de se assemelhar em vários aspectos ao ótimo Sinais e, em ambos, as premissas assumidas, a dinâmica das regras e o próprio funcionamento da sociedade no cenário proposto podem fazer a lógica do filme desmoronar se analisados com um pouco mais de critério.

Seja como for, Um Lugar Silencioso é uma experiência intensa e aterradora, pelos bons motivos, e vale ser visitado por todos fãs de cinema.


Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), 2018


domingo, 1 de abril de 2018

Bola quadrada


Em uma época em que as animações são, em sua maioria esmagadora, feitas por computador, é revigorante ver que existe mercado para técnicas tradicionais como o stop-motion com massinhas. Porém, mesmo sendo um chamativo à parte, o formato nunca vai ser mais importante que um bom roteiro.


O Homem das Cavernas tem o visual charmoso de outros lançamentos da Aardman, como Wallace e Gromit, A Fuga da Galinhas e Piratas Pirados!, mas ficam aquém dos mesmos por escorregar no roteiro. Existem os toques únicos e característicos da produtora, e o divertido pombo(papagaio?)-correio é prova de seu potencial. Só que de uma forma geral, as piadinhas são fracas e a história é previsível e pouco inspirada.

Em sua versão dublada, o protagonista que precisa liderar sua tribo da idade da pedra em uma "batalha campal" contra os invasores da idade do bronze ganha voz através do humorista Marco Luque, com direito a piadinha interna desnecessária: "serhumaninho passando!". Seu trabalho só ajuda a expor os diálogos ruins e aumenta a sensação de que este projeto teria se beneficiado se fosse, como o anterior da Aardman Shaun, o Carneiro, um filme mudo.

Apesar de não valer uma ida ao cinema, O Homem das Cavernas é entretenimento garantido para a criançada, e certamente formará um conveniente programa paralelo à Copa do Mundo quando chegar nos serviços de streaming. Ponto para a Era da Informação.


O Homem das Cavernas (Early Man), 2018




sexta-feira, 30 de março de 2018

Aventura no.1

Bem-vindo à tela de configuração, Jogador Nº 1.




Defina suas seleções:


Qualidade Visual: De Cair o Queixo

Qualidade de Efeitos Sonoros: Excelente

Qualidade de Trilha Sonora: Excepcional

Modo História Profunda, Totalmente Coerente e Com Reviravoltas Surpreendentes: Desativado

Modo Personagens Complexos: Desativado

Modo Escapismo Puro: Ativado

Nível de Referências Oitentistas: Insano, incessante e com toda a gama: desde pequenas chamadas visuais escondidas até as explícitas e escancaradas

Nível de Ação e Emoção: Alto

Nível de Diversão: Máximo


Rejogabilidade: Elevado


Pronto, Jogador Nº 1.

Coloque os óculos e aproveite uma legítima aventura spielberguiana como não se via há tempos.


Jogador Nº 1 (Ready Player One), 2018


sábado, 24 de março de 2018

Aniquilando o paradoxo


Os sentimentos são contraditórios. Por um lado, surge a euforia com a oportunidade quase que imediata, sem complicações logísticas nem a dependência de terceiros, para ver um filme que estava na sua lista de mais aguardados do ano. Por outro, uma grande desconfiança, pois um estúdio desistir de lançar uma produção feita para o cinema e vendê-la para um serviço de streaming pode ser mau sinal.

E acontece que só neste primeiro trimestre de 2018 isto ocorreu não só uma vez, mas duas: com O Paradoxo Cloverfield e com Aniquilação.

Como ambos são da Paramount Pictures pode-se imaginar que, após um péssimo 2017 (Monster Trucks, xXx: Reativado, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, Baywatch, Transformers: O Último Cavaleiro e Mãe! numa batelada só) a produtora esteja em uma fase de extrema aversão ao risco. Mas, é igualmente estranho não investir nem acreditar em dois títulos que poderiam muito bem pegar carona em dois de seus maiores sucessos de público e crítica em 2016 (e para este blog os dois melhores filmes daquele ano): A Chegada e Rua Cloverfield, 10. Ora, Paradoxo não só compartilha de parte do título do Rua, mas também se passa oficialmente dentro do mesmo universo. E o material inicial de divulgação de Aniquilação apontava fortes semelhanças em atmosfera, ritmo e tema com A Chegada.

Então, com seus dois primeiros títulos do ano tendo uma base sólida para se venderem, por que será que a Paramount desistiu deles? Depois de conferi-los na Netflix, a resposta parece clara: porque um é simplesmente ruim e outro não consegue cativar o público.


O Paradoxo Cloverfield traz um cenário já manjado em Hollywood, um grupo diverso de pessoas preso em uma situação misteriosa e perigosa. E não acrescenta novidade alguma ao mesmo. Pelo contrário, bate nos mesmos clichês e, sendo astronautas-cientistas em uma estação espacial, Paradoxo se parece muito com e comete os mesmos erros de outro filme do ano passado, Vida (que não é ruim e perto deste vira quase uma obra-prima). Raso, desperdiçando um bom elenco e falhando em criar tensão (algumas sequências são risíveis de forma não intencional, embora a trilha sonora insista em criar um clima contrário) o filme ainda tenta impressionar com um tema que é explorado com muito mais propriedade e peso em Rick and Morty (assumidamente comédia). Num ato desesperado, e fruto de refilmagens segundo as más línguas, a produção esticou as cenas que se passam na Terra, tentando fortalecer conexões com o Cloverfield: Monstro original. Mas, só conseguiu deixar os fãs mais confusos.


Aniquilação é um longa que tem um miolo marcado por bom terror/ ficção-científica e que desenvolve conceitos originais com bastante firmeza (além de apresentar a criatura mais assustadora neste gênero desde o Alien de 1979). O problema é que antes do miolo tudo é insípido e após é amargo. O primeiro ato, uma versão de empoderamento feminino para as aventuras típicas de Michael Crichton (onde uma equipe multi-tarefa e de personalidades bem distintas é formada), é superficial, frustando ao não conseguir estabelecer os lastros da realidade por trás da missão e nem se aprofundar nas personagens, apesar do gabarito das atrizes que as vivem. Já o ato final é um primor visual, mas se perde na abstração e se torna uma verdadeira viagem sonífera na maionese. Remete ao pior de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Uns vão argumentar que o importante é a jornada interior da protagonista, cada uma das metáforas - depressão, auto-destruição, etc. Sim, as boas obras de ficção-científica são as que se preocupam em criar metáforas e tornam viagens intergaláticas, multidimensionais ou temporais em um mecanismo para a redenção, realização ou crescimento de personagens. Mas, elas também se sobressaem ao fisgar com sucesso o espectador nos aspectos fictícios, imaginários ou fantasiosos. Talvez seja para o bem de Aniquilação não ter ido para o cinema, pois a internet é mais propícia para que seja descoberto por aquele público específico que gosta de cultuar filmes ditos intelectuais.

A Netflix tem se mostrado uma produtora de conteúdo original de muita qualidade, sobretudo com suas séries. Do ponto de vista prático, não é nada ruim que a mesma possa adquirir os direitos de distribuição de grandes produções destinadas ao cinema e as disponibilizar para seus assinantes com uma janela pequena de lançamento - ou até nenhuma. O que desanima é que parece que isto está só ocorrendo com as "desmerecedoras".

A questão não é torcer para que filmes não sejam vendidos para a Netflix, mas torcer para que os motivos passem a ser mais nobres.


O Paradoxo Cloverfield (The Cloverfield Paradox), 2017




Aniquilação (Annihilation), 2017




sexta-feira, 16 de março de 2018

Desbotando


Depois de três temporadas sólidas e consistentes, a série cult-transformada-em-pop Black Mirror começa apresentar sinais de perda de fôlego. O tom ainda é marcante e muitas ideias são criativas o suficiente para aguçar a curiosidade do espectador, mas talvez a janela mais curta entre a temporada anterior e esta tenha prejudicado o cuidado com os roteiros. Ou pode ser que tenha chegado a hora do criador Charlie Brooker dar oportunidade para outros roteiristas expandirem o universo de Black Mirror, que na verdade parece estar se fechando.

A série continua acima da média, mas o que permeia em geral a quarta temporada é a sensação de um pouco mais do mesmo.

O episódio de abertura, USS Callister, surge com uma nova, e até interessante, roupagem para conceitos já bem definidos e explorados antes, sobretudo nos episódios Natal e Versão de Testes. Arkangel , dirigido por Jodie Foster, traz ares do (muito superior) Toda a Sua História, mas com os perigos ocultos da tecnologia - tema recorrente da série- reduzidos simplesmente a péssimas decisões de uma mãe. Crocodilo, o episódio que tem Islândia como cenário numa belíssima fotografia, acerta quando está desenvolvendo o conceito do capturador de memórias, mas derrapa ao forçar o desencadear das ações, ficando mais parecido com uma passagem de Relatos Selvagens.


Tentando ser o San Junipero da temporada, Hang the DJ é bom, mas opta por se sustentar em uma reviravolta que dá para ser percebida a milhas de distância. Totalmente em preto-e-branco, Metalhead é o menos Black Mirror de todos episódios já feitos - um exercício de gênero ficção-terror, tenso e muito bem executado com uma história simples e direta, se inspirando em Encurralado e Exterminador do Futuro. Por fim, a temporada conclui com Black Museum, um episódio à la Contos da Cripta que escancara as referências à própria série e que se assemelha estruturalmente e conceitualmente a Natal, mais uma vez, e a Urso Branco.

E como as novas histórias se comparam com as demais? Até que se prove o contrário, assim:

01. Toda a Sua História - The Entire History of You (T01, E03), 2011
02. Natal - White Christmas (Especial - T02, E04), 2014
03. San Junipero (T03, E04), 2016
04. Queda Livre - Nosedive (T03, E01), 2016
05. Metalhead (T04, E05), 2017
06. Engenharia Reversa - Men Against Fire (T03, E05), 2016
07. Hang the DJ (T04, E04), 2017
08. Odiados pela Nação - Hated in the Nation (T03, E06), 2016
09. Versão de Testes - Playtest (T03, E02), 2016
10. Manda Quem Pode - Shut Up and Dance (T03, E03), 2016
11. Crocodilo - Crocodile (T04, E03), 2017
12. USS Callister (T04, E01), 2017
13. Urso Branco - White Bear (T02, E02), 2013
14. Black Museum (T04, E06), 2017
15. Arkangel (T04, E02), 2017
16. Hino Nacional - The National Anthem (T01, E01), 2011
17. Volto Já - Be Right Back (T02, E01), 2013
18. Momento Waldo - The Waldo Moment (T02, E03), 2013
19. Quinze Milhões de Méritos - Fifteen Million Merits (T01, E02), 2011

Em tempo, a Netflix já confirmou uma 5a. temporada.


Black Mirror (4a. Temporada), 2017