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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Habemus tema


Sessenta dias depois do início da votação, o povo (a comunidade de leitores do blog com uma forcinha dos amigos on-line do compositor) escolheu o tema musical para a vinheta do Padecin:




Após uma apuração extremamente confusa e definitivamente duvidosa (mas nunca tendenciosa), o resultado foi o seguinte:



Pronto.
Agora é só produzir algum material para fazer a inauguração oficial.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

40 dias de solidão?


Por inúmeros motivos, a Bíblia é objeto de fascínio nos quatro cantos do mundo e, com mais de 5 bilhões de cópias vendidas e distribuídas, é fonte de inspiração para diversas obras, em todos os tipos de arte. Vários de seus trechos não são detalhados e apresentam hiatos nas narrativas criando terreno fértil para a imaginação das pessoas. Assim também são as passagens do Novo Testamento que relatam o período de quarenta dias em que Jesus passou jejuando no deserto.

Últimos Dias no Deserto vem com a proposta de explorar o que teria se passado nos, como o próprio nome diz, últimos destes quarenta dias. A estrutura é adequadamente simples e, como em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a história traz um Jesus mais humano e enraizado no mundo real. Mas, mesmo inserindo ambiguidade em algumas ações de Jesus (deixando os adeptos do "O Que Jesus Faria?" intrigados em certos momentos), não desanda para o herético, ao contrário do livro do Saramago.


Iniciando a trama só, logo o diabo é apresentado para tentá-lo, ainda que não exatamente como nos Evangelhos. Todavia, a maior parte do filme é dedicada às suas interações com uma problemática família que vive isolada da sociedade. O centro é a dificuldade de comunicação, de intenções e de projeto de vida entre o pai e o filho, uma clara metáfora à busca de Jesus no deserto: o autoconhecimento e a seu pai, Deus propriamente dito. Um tema provavelmente de fácil identificação para o diretor colombiano Rodrigo García, filho do aclamado escritor Gabriel García Márquez.

Com um elenco reduzido e um ritmo adequadamente lento, Últimos Dias no Deserto poderia muito bem ter sido uma peça teatral. Mas, aí estariam sendo descartadas as duas melhores coisas desta produção: as sutilezas da atuação de Ewan McGregor (que convenientemente interpreta Jesus e o Diabo) e a magnífica fotografia de Emmanuel Lubezki (que faz com que a vastidão do deserto encha os olhos e transpire espiritualidade).

Tanto o simbolismo estabelecido quanto as possibilidades criativas com um trecho tão pouco explorado da Bíblia tinham potencial para originar uma experiência realmente marcante. Mas, por um lado ou por outro, parece que faltou um pouco de coragem aos realizadores e o longa ficou carente de profundidade. Ajudaria também tê-lo terminado antes, no momento em que Jesus contempla - e entende - seu destino. Mostrá-lo nada acrescentou. Só alguns minutos à projeção.


Últimos Dias no Deserto (Last Days in the Desert), 2016




segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Sala verde ensopada de vermelho


Como não me aventurei rumo à fronteira final no renascimento de Star Trek em 2009 e me lembrava apenas por alto de Exterminador do Futuro: A Salvação, fiquei desapontando ao perceber que praticamente desconhecia quem era Anton Yelchin, quando da divulgação em massa em junho deste ano da perda deste jovem talento no trágico acidente em que foi esmagado pelo próprio carro. Uma rápida busca por sua filmografia me levou ao elogiado Sala Verde. Sem saber do que se tratava, fui pego despreparado.

Uma banda de punk-rock alternativa resolve aceitar a proposta de se apresentar num isolado bar neo-nazista e seus quatro integrantes acabam inesperadamente envolvidos em uma situação que os leva à luta pela sobrevivência. O que poderia ser um thriller básico, uma espécie de 'Duro de Matar: Origens', acaba se revelando um verdadeiro filme de terror, só que bem pé no chão, sem elementos sobrenaturais.


O que dá destaque à produção é como que seus personagens não agem de forma ingênua ou burra (muito comum neste tipo de filme para impulsionar as ações para os próximos desafios) e como parecem dialogar naturalmente, sem precisar ficar explicando ou dando detalhes para o expectador sobre a dinâmica daquela realidade. Eles estão cientes e isto basta. Da mesma forma, não há necessariamente arcos e situações armadas no início da trama que irão se mostrar recompensadoras no final. As coisas simplesmente acontecem. Isto cria uma sensação de imprevisibilidade que constantemente pega o público de surpresa.

Terceiro longa-metragem de sua carreira, o diretor Jeremy Saunier demonstra em Sala Verde competência técnica aliada a uma sensibilidade artística que transita com frequência entre o experimental e o blockbuster de ação. Ele não se esquiva da violência, nem poupa o espectador da sanguinolência, mantendo em progresso um senso de urgência inquietante.

Sua criação é tematicamente superficial, mas não deixa de ser um comentário não somente ao punk, mas à juventude em si. Rebeldes apenas por serem rebeldes e fazendo questão de externar este status quo para a sociedade, tem uma cena específica que poderia sintetizar esta ideia. Questionados sobre qual banda levariam a uma ilha deserta, fazem questão de apontar ícones da rebeldia como Black Sabbath e Misfits. Depois, em um momento em que baixam a guarda, a revelação sincera aponta para nomes como Simon & Garfunkel e Prince. E, sem entregar muito, os diálogos que encerram o longa cravam o sentimento que parece permear muitos jovens atualmente, punks ou não.

O eterno bom moço (bom senhor?) Patrick "Professor Xavier, Capitão Picard" Stewart surge atipicamente como um vilão, contido e sem trejeitos, mas sempre uma figura ameaçadora. Porém, o destaque é mesmo o elenco jovem, sobretudo Anton Yelchin. Mais uma grande promessa que se foi cedo demais.

Sala Verde (Green Room), 2015




domingo, 18 de setembro de 2016

A politizada (e chata) Era de Aquarius


Faz uma semana que Pequeno Segredo foi escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na corrida por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e tudo o que se ouve a respeito do filme é como que foi uma grande injustiça ele ter tomado o devido lugar de Aquarius.

Não vi nenhum dos dois filmes (um porque não tive o menor interesse e outro porque, estranhamente - mas não fora das regras da Academia, sequer foi exibido ainda no país), mas proponho algumas reflexões sobre a reação geral das pessoas, que andam criticando fortemente esta escolha. E, embora não seja possível deixar a polêmica política de lado, vou tentar deixar minhas convicções pessoais fora disto.

Aparentemente por ter sido bem recebido em Cannes, entre outros festivais, Aquarius ganhou o status de candidato natural do Brasil na disputa ao Oscar. Mas, o que verdadeiramente levou o filme de Kleber Mendonça Filho às manchetes foi o fato do diretor e elenco, que inclui a renomada Sônia Braga, terem protestado no tapete vermelho de Cannes contra o processo de impeachment da então presidente afastada Dilma Roussef. Daí, o clima de guerra polarizada que tomava conta das discussões políticas do país, migrou também para o mundo do cinema. Com a inclusão de um jornalista abertamente anti-Dilma na comissão julgadora que iria eleger o candidato, os produtores de Aquarius já adotaram uma postura defensiva, moldando uma situação em que se o candidato óbvio não fosse escolhido, estaria configurada uma manobra do governo recém-assumido em retaliação às suas manifestações.


Considerando que praticamente ninguém assistiu a Pequeno Segredo, minha primeira reação foi: como que as pessoas estão condenando o filme, rebaixando-o ao status de não merecedor? Baseado num trailer? Num cartaz? Num "ouvi falar"? Será que ninguém cogita a hipótese de Pequeno Segredo ser realmente melhor que Aquarius?

A divagação se estende: será que ninguém cogita a hipótese de Pequeno Segredo ser melhor para o Oscar que Aquarius? Analisemos os seguintes filmes: O Refúgio; Sono de Inverno; Azul É a Cor Mais Quente; Amor; A Árvore da VidaTio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas; A Fita Branca; Entre os Muros da Escola; 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias; Ventos da Liberdade. Badalados em tantos festivais, estes são os dez últimos vencedores da Palma de Ouro - o prêmio máximo de Cannes. Destes todos, apenas dois - Amor e A Árvore da Vida - tiveram alguma indicação da Academia. O Oscar é o prêmio máximo do cinema, mas, assim como qualquer outro tipo de premiação subjetiva, tem seu estilo e suas predileções peculiares. Afinal, é praticamente todo ano que ele é acusado de "errar" em algumas de suas premiações. Será que Forrest Gump é realmente melhor que Um Sonho de Liberdade? E quanto a Shakespeare Apaixonado ganhar de O Resgate do Soldado Ryan?? Como assim Hitchcock e Kubrick nunca levaram estatueta de Melhor Diretor???

Toda esta comoção e revolta acabam soando como uma grande arrogância dos que estão por trás de Aquarius. E um grande e lamentável desmerecimento de Pequeno Segredo, bem como de qualquer um dos outros concorrentes. E se Chatô - O Rei do Brasil tivesse sido o escolhido? E se fosse Mais Forte Que o Mundo - A História de José Aldo? Ou Nise - O Coração da Loucura? Ou Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil ou Começo da Vida ou qualquer um dos outros dez que também estavam no páreo?

E se não tivesse rolado protesto algum em Cannes e a escolha da comissão tivesse sido exatamente a mesma?


sábado, 17 de setembro de 2016

Mesmo com grande esfurso


Aconteceu domingo passado...

Meu filho, 5, me explica que ursos gostam de dar abraços.

Em seguida:

- Papai, me dá um abraço e imita um urso!

Imediatamente dou-lhe um grande abraço e me esforço para soltar a melhor imitação possível:

- Ôôôôônnrrrrgh!!!

Atônito, olha para mim e diz:

- É para imitar um urso, não o Chewbacca!


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pneumotórax


Baseado no acidente ocorrido em 2010 na mina San José, no Chile, quando 33 trabalhadores ficaram soterrados a 688 metros de profundidade, o filme Os 33 já estava cercado de críticas antes mesmo de sua estreia. Dirigido por uma mexicana, Patricia Riggen, e coescrito por americanos e um porto-riquenho, a produção deixou atores chilenos com um ou outro papel secundário, enquanto no populoso elenco principal teve espaço para americano, espanhol, brasileiro, francesa, irlandês, mexicano, cubano, colombiano... E os detratores ainda apontaram como agravante a decisão de realizar todos os diálogos do filme em inglês.

Acontece que Os 33 tem, sim, seus problemas, mas essas questões apontadas no seu pré-julgamento pouco influenciam ou incomodam.

Mesmo estando os fatos do acidente - e de seu desfecho - frescos na memória da grande maioria das pessoas, o filme consegue prender a atenção (e a respiração). Na maior parte do tempo. Algumas sequências - como um momento de alucinação pseudo-coletiva durante uma refeição dos trabalhadores, ou várias externas à mina - surgem como desnecessárias e acabam  deixando o longa um pouco longo demais, com um ritmo irregular.


Aliás, apesar da boa atuação de Rodrigo Santoro como o super Ministro de Minas chileno e das participações significativas dos veteranos Gabriel Byrne e Juliette Binoche, teria sido uma experiência mais imersiva e recompensadora se o filme tivesse focado somente na rotina dos mineradores em vez de intercalar com esses acontecimentos já amplamente conhecidos, fora da mina. Porém, a opção foi um caminho mais seguro e didático, talvez buscando uma longevidade para a história em vez de agradar somente um público mais de imediato. Com tantos personagens para cuidar, a grande maioria acaba caindo no quase caricato - "o líder", "o cara da segurança", "o pastor", "o que imita Elvis", "o alcoólatra", etc - onde seus nomes e suas histórias são quase supérfluos. Mais do que isso, o interessantíssimo fator psicológico inerente a uma situação de extremo risco com trinta e três homens enclausurados durante dois meses acabou sendo muito pouco desenvolvido.

Vale um destaque para a trilha sonora de James Horner que alterna entre melodias que traduzem bem a tensão claustrofóbica e temas que remetem à musicalidade regional. Uma das últimas que o compositor dez vezes indicado ao Oscar completou antes de sua morte prematura aos 61 anos.

No fim das contas, não é o caso de se dizer "Trinta e três... trinta e três... trinta e três..." e ouvir que para este filme "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino." Apesar das muitas arestas que poderiam ter sido lapidadas, o resultado é um filme bom e que não desrespeita seu material original. Os chilenos têm motivo para se orgulhar. Inclusive de americano, espanhol, brasileiro, francesa, irlandês, mexicano, cubano, colombiano...


Os 33 (The 33), 2015

sábado, 27 de agosto de 2016

Já Era do Gelo


Apesar de um escopo nada inovador (uma animação digital centrada em uma improvável amizade entre um contido protagonista de grande estatura e um tagarela coadjuvante de estatura menor) e de uma história bem básica, A Era do Gelo fez rir e conseguiu marcar presença em 2002.

O apelo dos personagens com a criançada naturalmente rendeu à animação o status de 'franquia' que, com bilheteria crescente e crítica inversamente proporcional a cada lançamento, quatorze anos depois chegou à sua 5a. edição (nem percebi que houve uma 4a. - e, pelo que consta, não perdi nada).


Sem o idealizador Chris Wedge nem o brasileiro Carlos Saldanha na direção, A Era do Gelo: O Big Bang parece ter sido feito no piloto automático pelos roteiristas e animadores da Blue Sky. O filme demonstra claramente uma apatia provocada pela falta de renovação de ideias e pelo desgaste da fórmula ao longo do tempo. Sem lugar para tantos personagens que vieram sendo acumulados, até mesmo o esquilo Scrat (de longe o mais interessante com suas desventuras paralelas parte 'cinema mudo pastelão', parte 'Jerry Lewis', parte 'Looney Tunes') surge apagado, perdendo seu charme ao interferir diretamente no desenrolar da trama principal.

É triste testemunhar como que uma franquia que já envolveu tantas estrelas como Ray Romano, John Leguizamo, Denis Leary, Jack Black, Queen Latifah, Seann William Scott, Simon Pegg, Wanda Sykes, Jennifer Lopez, Nick Frost, Peter Dinklage, Kunal Nayyar, Patrick Stewart, Adam Levine e Melissa Rauch terminou sem brilho.

Pior que nem o "terminou" está garantido.


A Era do Gelo: O Big Bang (Ice Age: Collision Course), 2016