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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Aê OA


Quem gosta de filmes e séries que desencadeiam discussões logo após a exibição de seus últimos minutos tem que conferir The O.A. Se os calorosos debates online são um termômetro, a série da Netflix cai naquela categoria polarizada de 'ame-a ou odeie-a'. O razoável seria se posicionar em algum lugar entre estes dois extremos, mas um fato indiscutível é que é injusto julgá-la somente através da leitura de resumos ou críticas. Ver dois, três episódios e depois pegar um atalho é, no mínimo, um desrespeito à obra e seus criadores.

Portanto, se não assistiu pare de ler agora. Simplesmente ignore este post ou, se gosta de controvérsias, vá assistir e volte depois. Este texto contém SPOILERS e é entendível somente por quem viu todos os  oito episódios da primeira temporada de The O.A.


Cocriada e coescrita por Brit Marling (que interpreta a protagonista Prairie Johnson) e seu amigo de longa data Zal Batmanglij (que dirige todos os episódios), The O.A. é sobre muitas coisas. E pode ser sobre algumas outras.  É sobre trauma, sobre laços de família (famílias biológicas, famílias recebidas ou famílias por circunstâncias), sobre superação, sobre aceitação e, principalmente, sobre  ajudar as pessoas. E pode ser também sobre mitologia, religião e fantasia. Ou sobre distúrbio mental.

Mas, antes de mais nada, é sobre o poder da narrativa.

Em muitos aspectos a série é bem parecida com este filme aqui, que se desenvolve sob a ótica de um narrador (não confiável?) na maior parte do tempo e que dá elementos suficientes para que o espectador preencha lacunas e molde sua própria interpretação do que ocorreu. E isto não vem apenas da sequência final ambígua e propositalmente aberta: há dicas e pistas durante todo o desenrolar da série, que já abre suas portas com Prairie pedindo para que cada um (da plateia - ali dentro e aqui fora da tela) feche os olhos e "imagine" a história que está prestes a contar.

A partir daí, e somado a algumas das reviravoltas  do último episódio, é fácil supor que tudo pode ter sido uma grande mentira. Existem, porém, fatos concretos dentro do contexto da série, partindo do pressuposto que o 'presente não narrado' é o mundo real. Os mais relevantes:

- Prarie recuperou a visão. Seja por milagre na sua segunda experiência de quase morte ou seja por reversão de uma "simples" cegueira psicológica do trauma do acidente na infância;

- Prairie esteve em cativeiro. Mesmo sendo cega, e alegadamente tendo algum nível de problema mental, ela não iria simplesmente ficar escondida por sete anos em um local sem sol - já que fica claro que ela tinha deficiências típicas deste cenário, como carência de determinadas vitaminas e deterioração dentária;

- Prarie tinha sonhos premonitórios.  Caso contrário, não saberia onde, nem quando,  deveria estar na sequência final;

- Prarie não inventou Homer para as sessões na casa abandonada. Ela estava perguntando e pesquisando por ele antes de ter tempo hábil de pedir pela Amazon, e ler, uma cópia de A Ilíada.

Tirando estas evidências, tudo que Prarie contou pode, sim, ter sido inventado, como Alfonso "French" passa (ou é levado) a acreditar. Todavia, aqueles livros são muito suspeitos, pois parece incoerente que uma pessoa que foi alfabetizada em braille (e, talvez, antes em russo), possa preferir comprar uma cópia "comum" em inglês. É pouco provável que esta mesma pessoa tenha conseguido ler aqueles livros grossos num período tão curto para tomar como base para sua história. Isto, mais o fato do terapeuta aparecer na casa dela no meio da noite, reforça a teoria de que o FBI tinha interesses (ou até esteja envolvido) na história real por trás daquilo tudo e até tenha implantado falsas evidências.

Assim como os livros não provam que é tudo mentira, não há como provar também que é tudo verdade. E, muito provavelmente, não é. Nenhum relato, principalmente oral e carregado de carga emocional, consegue retratar com fidelidade inquestionável os detalhes do desenrolar de fatos que se sucederam ao longo de longos sete anos.

Mas, isso não importa. Assim como também não importa se a série abraça ou não como real a mitologia em que se sustenta por boa parte. Porque no fim das contas, independente da crença em uma ou outra vertente, o poder da narrativa é o que manda e que leva ao ponto principal: o de ajudar pessoas. Não é para isso que anjos servem?


Durante o processo de contação de histórias, aquelas cinco pessoas, cada qual com suas disfunções e problemas, se aproximaram, se enxergaram e acabaram se ajudando. E foi a história de Praire, verdadeira ou não, que conduziu aquela pequena congregação a realizar um bem maior, a salvar um grupo maior de pessoas.

É compreensível que boa parte do público, especialmente o americano, tenha sentimentos contraditórios ou simplesmente ache de mau gosto os rumos tomados nos momentos derradeiros da série. Tiroteio em uma escola é um assunto muito real e delicado para ser misturado em uma obra que demanda do público tantos saltos de fé no abstrato. Em analogia, seria de se esperar uma boa rejeição caso surgisse uma série nacional que no final envolvesse uma tragédia aérea em que apenas alguns membros de uma equipe sobrevivessem por algum tipo de intervenção mística.

Particularmente, achei o final corajoso e emocionalmente poderoso e coerente. O que significa aquilo? Que os movimentos funcionaram e que através da magia angelical o atirador foi impedido de agir? Não necessariamente. É muito comum o nosso cérebro nos enganar face a algo totalmente novo ou inusitado. Passamos por isto, por exemplo, quando entramos num teatro, tudo fica escuro e de repente um ponto de luz foca em algo novo, já da apresentação, que não o esperado abrir das cortinas. Demoramos um pouco para assimilar a natureza real do que está acontecendo. Quatro anos atrás eu estava dentro de um ônibus e vi uma capivara atravessando uma movimentada avenida na região central de Belo Horizonte. Meu cérebro não estava preparado para aquilo e eu simplesmente travei por alguns segundos, tentando entender o que eu estava vendo e tentando processar o que estava acontecendo. Acredito que a situação do atirador na escola possa também ter uma explicação tão simples quanto esta. Ao se deparar com cinco pessoas surgindo, do nada,  e fazendo movimentos bizarros e perfeitamente sincronizados num contexto totalmente inesperado, ele ficou sem reação por alguns segundos - tempo suficiente para o funcionário imobilizá-lo. E a força da narrativa, o fato de todos terem acreditado plenamente na história e no poder dos movimentos, transformou-os em anjos naquele momento. Todo o caminho os conduziu para salvarem aquele dia.

E Praire, foi salva? A resposta é sim. Mesmo que tenha morrido após o tiro, ela terminou em paz com seus pais adotivos e, principalmente, entrou na ambulância acreditando que tinha cumprido seus objetivos com o grupo, principalmente Steve, e que havia conseguido entrar no portal, no rio invisível. Seu arco narrativo, sua história de vida, fechou de forma positiva. E por que depois ela aparece de branco num ambiente claro indagando "Homer?"? É possível que esteja encontrando ele no pós-vida, em uma nova EQM ou até mesmo no local para onde o portal levaria. Também, num tom menos interessante e de menor peso, é possível que esteja acordando, confusa, numa clínica ou hospício.

Assim como aquele filme, a série dá ao espectador a escolha do desfecho. E vários insumos para sustentá-la. Apesar de não estar sacramentada pela Netflix, os criadores dizem ter planejado uma segunda temporada. Daí teriam que tomar uma posição e escolher um lado, apagando a ambiguidade implantada, o que pode se provar um grande desserviço para a atual e satisfatória conclusão emocional.

Particularmente, torço para que não aconteça uma nova temporada. Gosto da história como está, mesmo que imperfeita. Furo de roteiro eu mesmo tampo ou deixo exposto e lacuna eu mesmo preencho. Da minha forma e do meu gosto.


The O.A. (1a. Temporada), 2016




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