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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Nada especial


Existem filmes que apenas existem. Daqueles que, depois de consumidos, fica somente a sensação de bom ou ruim, de se agradou ou não, e que rapidamente são esquecidos ou colocados mentalmente em segundo plano. E existem também os filmes que fazem pensar. Seja por conta de conteúdo, técnica, estética, formato, primor artístico... enfim, uma infinidade de fatores, essas produções permanecem nos pensamentos - e nas discussões - dos espectadores por horas, dias, meses, anos após a projeção. E nesta categoria há o filme que quanto mais se pensa mais se descobre a beleza e/ ou a profundidade do mesmo e há o filme que quanto mais se pensa mais vêm à tona seus furos, seus defeitos, sua superficialidade.

Curiosamente, o diretor-roteirista indie Jeff Nichols realizou três produções depois de seu longa de estreia, cada uma delas se encaixando em uma dessas categorias. O Abrigo, de 2011, é um excelente exemplar de filme que não sai facilmente da cabeça e que a cada análise uma nova camada surge para presentear o espectador. Em 2012 foi a vez de Amor Bandido que, mesmo sendo um bom filme com atuações formidáveis, não deixa quase nada para ser digerido após seu encerramento. Agora, em 2016, veio Destino Especial que, infelizmente, toma os pensamentos do público, mas só para ir subtraindo suas realizações.


Evocando o clima nostálgico das produções oitentistas da Amblin, mas sem perder a pegada independente, Destino Especial tinha tudo para fazer jus ao título que ganhou em português. Porém, se o destino até se esforça para ser especial, a jornada pouco é. Tirando o mistério inicial e algumas sequências, como uma em particular que ocorre num posto de gasolina, a história se desenvolve de uma forma desinteressante, lentamente e deixando muitas pontas soltas.

Enquanto o colaborador habitual do diretor, Michael Shannon, mostra sua competência mais uma vez, Joel Edgerton volta a provar que é um ator especialmente sem sal. Sam Shepard e Adam Driver dão vida a dois dos vários personagens que parecem ter sido tirados da cartola ou abandonados pela trama ao longo do caminho. Assim também é a de Kirsten Dunst, adequadamente sem maquiagem para viver uma pessoa comum, que surge como que apenas para protagonizar as sequências finais do filme, inexplicavelmente tirando do clímax a dinâmica da relação pai-filho cuidadosamente construída até ali.

O principal erro de Nichols é inserir elementos (como o sutil brilho dos olhos de determinado personagem logo antes do corte pros créditos finais) e ocultar tantos outros (talvez propositalmente), justamente por estimular reflexões e discussões, sem perceber que isso potencializa seus defeitos. Destino Especial se acha um filme inteligente e instigante. Mas não é.


Destino Especial (Midnight Special), 2016




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