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terça-feira, 2 de agosto de 2016

O bom gigante filme


Com pouco retorno nas bilheterias e críticas mornas, a fábula O Bom Gigante Amigo vem sendo apontada como um fracasso na carreira de Steven Spielberg. Parece que o atual mundo, cínico e imediatista, não estava preparado para um filme leve (mas sem deixar de ter suas passagens sombrias) e de ritmo mais lento (mas sem ser entendiante).  Esta produção - sem dúvida a mais infantil de Spielberg até hoje - realmente tem um desenvolvimento mais contido e até uma duração ligeiramente excessiva, mas é compensada com excelentes atuações, primor técnico e um terceiro ato deliciosamente divertido.

A novata Ruby Barnhill, que vive a protagonista Sophie, confirma o dom de Spielberg para descobrir e desenvolver talentos mirins ao transpirar graciosidade e espontaneidade mesmo tendo que contracenar, na maior parte do tempo, com personagens que não se encontram fisicamente no set. E o vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante este ano (por outro filme do Spielberg - o também subvalorizado Ponte dos Espiões), Mark Rylance, através de performance-capture dá vida ao BGA com vigor, destreza e carisma nunca antes vistos em Hollywood por meio desta técnica (perdão, Andy Serkis, mas é verdade).


Aliás, isto é mérito também da equipe de efeitos especiais da Weta Digital que permite que a atuação de Rylance transpareça através da tecnologia, em vez de ser mascarada por ela. Dá para se notar claramente as nuances e sutilezas nos olhos do ator, quebrando de vez a estigma de "olhar de peixe morto" sempre presente nessas capturas de movimento até então, como na própria parceria da Weta com Spielberg em As Aventuras de Tintim. A técnica, que já foi designada como motion-capture  finalmente evoluiu para 'acting-capture'.

Com seus habituais colaboradores, o compositor John Williams e o diretor de fotografia Janusz Kaminski, fazendo como sempre trabalhos impecáveis, Spielberg encanta o público através de sons e imagens marcantes e deslumbrantes. O visual é arrebatador e, mesmo sendo notória a grande carga de efeitos digitais ali contidos, as interações entre gigantes, humanos, objetos e cenários de diversos tamanhos nunca parecem artificiais ou criados por composição com fundo verde. Se o roteiro de Melissa Mathison, também responsável por E.T. - O Extraterrestre, se delonga um pouco demais tentando encontrar um arco narrativo, ele também compõe um inesperado e encantador ato final, que foge das costumeiras sequências de ação e, por incrível que pareça, traz genuína graça ao usualmente desnecessário e desagradável apelo à flatulência.

Pelo padrão de qualquer outro cineasta, O Bom Gigante Amigo teria tido uma recepção mais calorosa. Porém, pelo padrão Spielberg, parece que "bom" está muito longe de satisfatório. No fim das contas, o diretor involuntariamente acabou criando uma alegórica pseudo autobiografia ao contar a história de um gigante, talvez o primeiro deles, amigável e adorável que ouve os anseios das pessoas e vive de fabricar sonhos, mas habita um mundinho dominado por outros gigantes, vorazes e ameaçadores, que desprezam seu trabalho. O que importa é que este bom gigante conseguiu conquistar o coração das crianças e a admiração dos adultos menos irrequietos.


O Bom Gigante Amigo (The BFG), 2016




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